Se você mudar de cidade, eu te mato.

É exagero, claro. Mas meio verdade também. Ver mais uma amiga ir embora é morrer um pouco, é assistir a morte de uma fase, é pelo menos uma diluição.
Tanta gente falando de ir embora e tanta gente indo embora mesmo. Não vai caber isso tudo de brasileiro no Uruguai e em Portugal. As perspectivas são de piora e por isso o assunto sempre é ir embora. Em qualquer reunião de mais de duas pessoas, não demora e alguém começa a contar do plano de ir morar em Lisboa, comenta sobre o amigo que foi pra Berlim, da irmã que ficou aqui no Brasil mesmo mas mudou para as montanhas.
Ouvindo assim, parece que todo mundo tem um Plano B. Todo mundo, menos eu.
Eu não quero ir embora, mesmo a situação estando uma merda. Depois de tantos anos pulando de um lugar pra outro, finalmente estou morando num espaço que gosto. É pessoal, mas consigo enxergar algum progresso e, apesar de tudo, há esperança. Depois de anos pulando de um lugar pra outro, física e metaforicamente, depois de anos perdendo coisas e pessoas pelo caminho, nesse novo lugar sinto amor em convites feitos, alegria ao descer a rua na direção da casa da amiga, gentileza quando chamo gente pra vir em casa. A esperança existe perto das pessoas.
Na desgraçada São Paulo de 2017 meu coração bate mais forte e todo mundo aí, nessa de falar sobre ir embora. Eu não quero ir embora nem quero que vocês vão.
Principalmente, não quero que ela vá. Porque a gente se carrega, sabe? Quem vai me botar no táxi quando eu já fiquei bêbada demais e dar o endereço certo pro motorista? Quem vai sentar comigo na calçada? Quem vou visitar depois da acupuntura num dia de semana qualquer e levar pra comer sopa porque ela tá doente? Com quem vou falar sobre as diferenças entre ruínas pre-colombianas na América do Sul e Central? Quem vai me dizer que meu cabelo tá feio naquele tom de vermelho?
Aos amigos, queria poder dizer que vocês não podem ir embora, que eu os proíbo. Proíbo, ouviu bem? Mas não digo. Porque quem ama não prende e não existe amor tão sincero quanto o da amizade, uma amarra que a gente só faz porque quer.
Então vai, mana. E brilha. Mas não acha ruim quando eu te ligar do fuso horário local, tá?
