Um mesmo grau de miopia.

“É melhor a gente não se ver mais,” ele disse pelo telefone, fala mole por causa da cerveja, lá pelas três da manhã de sexta pra sábado. Ela suspirou, concordando.

No pouco tempo que passaram juntos, só os dois, ela tinha torcido muito pra que funcionasse, sempre pensando que ele queria também. Ela torcia pra ele querer. Queria que visse nela algo de diferente, de incrível, que não tinha visto em mais ninguém. Queria ser pra ele o que ele era pra ela. Queria que alguma coisa desse certo, mesmo sabendo que ansiedade mata, mesmo sabendo que tinha sido tudo rápido demais.

Se enxergaram num domingo qualquer. Na hora, o coração parou um segundo e ela fez o que fazia melhor, que era ir embora. Mas ele foi atrás. Chamou pra sair, puxou pro beijo. Insistiu. Elogiou a roupa, chamou de linda, de gostosa, de mulherão. Cantou musica romântica no ouvido de madrugada. Brincou dizendo que tinham nascido um pro outro porque tinham o mesmo grau de miopia. Ela seguiu, abrindo, querendo, sorrindo, aceitando, doida pra acreditar em qualquer coisa que fizesse o coração bater forte.

Grudaram por uns dois dias até a madrugada de sexta pra sábado, quando ele virou outra pessoa e ela fez o que fazia melhor. E só avisou depois de já ter ido. E mesmo dizendo que era melhor não ver mais, lá pelas oito da manhã ele tocou o interfone. E mesmo concordando que era melhor não ver mais, ela deixou ele entrar e botou uma garrafa de água fresca ao lado da cama pra ele não sentir sede.

"Não vou mais te procurar," ela mentiu.
"Eu vou," ele prometeu.

Mas quando ele acordou era tarde demais e a única coisa em comum era o grau de miopia.

Quando o portão do prédio bateu não teve beijo nem abraço.

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