Como a Alquimia me ajudou a pacificar minha mente

Até alguns anos atrás, minha mente era constantemente tomada por uma espiral caótica de desgraças emocionais, incluindo surtos graves de ansiedade que, junto com um impulso autodestrutivo, uma autoimagem péssima e um pensamento obsessivo de que eu estava destinado a sofrer, faziam com que qualquer possibilidade que encontrasse de levar uma existência feliz ou minimamente tranquila fosse sabotada por mim mesmo. Até o dia que, depois de um insight qualquer que mostrou que eu talvez fosse autor de boa parte de meu próprio sofrimento, resolvi meditar.

Um aviso importante: quando digo que resolvi meditar, foi porque estava tão desesperado que eu só queria parar um pouco pra respirar e refletir. Recomendo isso na medida em que é uma boa forma de segurar um pouco certos pensamentos e comportamentos, mas nunca nem cheguei perto de entender o que estava por trás do tudo aquilo (para isso, você pode procurar psicanalistas). De todo modo, acabei encontrando caminhos de meditação num lugar bem exótico: a Alquimia.

Aqui entra o Azoth dos Filósofos (a figura acima): uma mandala, uma representação gráfica que deve simbolizar de alguma forma o kosmos (ou universo), que teria aparecido pela primeira vez em um livro de mesmo nome, atribuído a uma figura misteriosa chamada Basilius Valentinus, (que pode ter sido apenas um pseudônimo usado para assinar a obra). Diz-se que a figura data do século 15, e que teria circulado secretamente entre alquimistas, tendo aparecido em uma publicação apenas dois séculos depois por questões de perseguição religiosa. Essa mandala servia para meditação entre alquimistas, e, apesar de não ter sido exatamente esse caminho que tomei, penso que o Azoth é bastante útil para visualizar e pensar os processos alquímicos de transformação. O que vai ser apresentado aqui é apenas uma das formas de pensar meditação em relação ao Azoth, que é apenas uma das formas de representar processos alquímicos. Outra coisa importante é que a Alquimia envolvia diversos tipos de transformação (inclusive material, através da manipulação de substâncias em busca de coisas como a tal pedra filosofal), mas o foco aqui é parte psicológica.

Primeiro, algumas informações sobre alguns elementos presentes na imagem:

  • o rosto no centro seria o de um alquimista (algumas pessoas trocavam essa parte da imagem por um espelho);
  • as várias pontas/setas da estrela são numeradas de acordo com as 7 operações da alquimia (que serão listadas em breve), marcadas com símbolos que representam corpos celestes/metais, e as imagens entre as setas apresentam um aspecto de cada operação;
  • os membros simbolizam o equilíbrio envolvendo os quatro elementos (pé direito na terra /pé esquerdo na água /mão direita segurando uma tocha /mão esquerda segurando uma pena);
  • a figura masculina é o Rei Sol, que representa poder sobre o mundo visível, racionalidade, pensamento ativo, enquanto o dragão cuspindo fogo escondido na caverna seria o conteúdo rejeitado do inconsciente / a figura feminina é a Rainha Lua, que representa a conexão com sentimentos e forças inconscientes, fertilidade e aceitação… a integração plena desses dois conjuntos do material de que é feito nossa experiência possibilitaria uma espécie de “inteligência do coração”, pois ambas figuras devem se complementar, e não estar em uma relação de dominação;
  • nos triângulos externos ao círculo maior, temos um sol e uma lua na parte de cima (as palavras “anima” e “spiritus” devem corresponder à mesma divisão simbólica entre o Rei e a Rainha), e um cubo na parte de baixo (“corpus” = “corpo”), onde começa e termina o processo alquímico.

Bem, os estágios do processo alquímico podem ser descritos de diferentes formas, mas, como já dito, vamos seguir aqui a versão com 7 operações. Importante lembrar que as imagens que acompanham cada seta são simbolicamente relevantes para a compreensão de cada etapa, então a meditação pode se beneficiar da exploração simultânea da imagem. A mandala também é útil para lembrar e marcar o que significa cada momento da meditação.

i) Calcinação: Tudo começa com uma operação de queima. A primeira imagem mostra um crânio com uma ave em cima, simbolizando o resultado do uso do fogo. Isso corresponderia a um ataque ao ego, a destruição das certezas sobre o que somos. Todas as imagens que associamos a nós mesmos, tudo aquilo que identificamos como sendo o que somos, como realmente dizendo respeito a nós; tudo isso é o ego. Podemos colocar diante de nós toda uma constelação de imagens associadas a esse ego, observando com elas se relacionam entre si e como moldam nossa vida. Como são todas características que formam a imagem maior que temos de nós, elas mesmas funcionam como um filtro que age sobre o modo como nos enxergamos e como enxergamos o mundo ao nosso redor em suas variadas relações conosco. Perceber as imagens que associamos à nossa identidade é bastante útil para ver que algumas imagens não estão ali, e que podem estar sendo repelidas pelas que estão. O fogo que promove a calcinação é o mesmo que faz uma avaliação interna do que somos e consome tudo que for falso, todas as imagens com as quais nos identificamos de maneira forçada, não-realista, em desacordo com sentimentos mais profundos. São as imagens que projetamos socialmente e usamos como escudo ou até mesmo como armas.

ii) Dissolução: O confronto com o ego serve para facilitar a submersão no inconsciente. A imagem no círculo mostra o corvo observando sua própria imagem em processo de dissolução, revelando uma imagem purificada. Rompendo com a constelação de imagens que associamos ao que somos, quebramos a superfície em direção a movimentos que passam desapercebidos de nossa atenção consciente. Aqui temos de nos confrontar com todas as imagens rejeitadas, suprimidas, temidas, desprezadas, sufocadas e afastadas. A inserção social produz um dilema para nossas mentes que é o de escolher entre manter certos desejos associados a imagens que podem ser vistas negativamente no meio social, ou esconder essas coisas para atender ao que se pensa ser uma exigência do mundo.

Tudo aquilo que temos vergonha de admitir, todos aqueles sentimentos que não queremos associados ao que somos, todas as coisas que relutamos em acreditar que fazem parte de nós; tudo isso deve ser alvo de uma nova confrontação. E ela é tão dolorosa quanto a anterior. Frequentemente dizemos coisas como “esse não era realmente eu”, “isso não sou eu de verdade”, “eu estava fora de mim”, dentre outras, e elas querem dizer exatamente que não vamos nos identificar com essas partes de nós que preferimos ver longe de nossos olhos, que queremos que fiquem amordaçadas em um canto de nossas mentes. Sendo impossível amordaçar qualquer coisa dessas, teremos deslizes, acidentes, atos falhos, e todo tipo de acontecimento que mostra que não temos todo esse controle, que nosso ego é apenas uma parte do que somos e podemos ser.

iii) Separação: Esse mergulho em direção ao inconsciente é especialmente útil para que entendamos como esses elementos inconscientes jogam com os conscientes, e assim podemos mapear movimentos mentais que se repetem de forma obsessiva, que não se encontram em conformidade com as informações que temos (a “realidade), que se formam involuntariamente e tomam as rédeas de nossas ações, como se passássemos por algum transe. Podemos mapear as variadas relações entre “forças” inconscientes e ações, reações, sentimentos e pensamentos dos quais somos minimamente conscientes. Assim podemos promover uma separação entre desejos e necessidades que podem passar por algum tipo de tomada de decisão ou deliberação, e os impulsos que nos empurram para fazer coisas de forma repetitiva, compulsiva, como se não pudéssemos não fazer aquilo, como se fossem estimulados por certezas profundas. É esse discernimento que permite saber o que precisa ser descartado e o que precisa ser levado adiante; o que não precisamos mais em nossas vidas porque nos prejudica, e o que queremos ser. A imagem no círculo mostra dois pássaros recuperando o que deve ser salvo depois das duas primeiras operações.

iv) Conjunção: Agora os pássaros na imagem estão indo para o alto, carregando uma coroa de cinco pontas que representa a Quintessência, o resultado dos processos anteriores, o que é preservado e elevado como sendo o que há de mais essencial/fundamental, tanto do que estava em nosso inconsciente, como do que fazia parte da constelação de imagens que forma o ego. Esses pássaros são justamente a Alma e o Espírito, caracterizadas da mesma forma que o Rei e a Rainha, e por isso a Conjunção era chamada também “casamento entre o Sol e a Lua”. O fruto dessa união deve ser justamente aquilo que queremos levar adiante na vida, o que desejamos manter para sermos pessoas mentalmente saudáveis, aquilo que nos permite seguir em frente ao invés de nos fazer correr em círculos destrutivos por toda uma vida. A Conjunção também é o casamento entre as duas formas opostas de experimentar o mundo, um trabalho cooperativo e complementar entre nossa parte racional e nossa parte sentimental. Ou seja, o que se busca aqui é justamente o fim dos conflitos entre essas duas partes, uma harmonia que nos permite viver a vida de forma mais equilibrada.

Depois de mapear, analisar os processos inconscientes e imagens que nos identificamos e que nos fazem mal, sendo tudo de nossa própria autoria, podemos estabelecer novas partes de nós para servir como bases de nossas ações e relações, incapacitando o que ficou pra trás de tal forma que encontramos uma tranquilidade maior na vida. As causas dos processos patológicos ficam para serem descobertas através de uma análise/terapia. Sabendo (mesmo que parcialmente) como funcionamos inclusive no nível inconsciente, podemos interferir nos processos de construção de narrativas e racionalizações que nos apresentamos com o objetivo de nos fazer sofrer.

Quando começamos a associar gestos, palavras ditas e não ditas, mensagens não respondidas, olhares e todo tipo de acontecimento para nos convencermos de algo sobre uma outra pessoa e suas intenções, por exemplo, podemos nos bombardear de dúvidas sobre o significado de todas essas coisas, não deixando o processo de construção de uma racionalização extremamente convincente. Será mesmo que a pessoa passou por todo esse processo mental e racionalizou tudo isso ou será que suas várias ações e faltas de ações teriam uma infinidade de outras explicações? Essas narrativas que criamos estão em concordância com todas as informações que temos sobre a pessoa? Será que não somos nós projetando pensamentos que a pessoa talvez sequer tenha considerado? Não estamos procurando ali uma racionalidade por trás das ações que vai muito além do que todo mundo normalmente apresenta (e isso nos inclui)? Quais interesses por trás dessa narrativa que tenta nos convencer de algum mal? Será que não somos nós desejando sabotar algo, ver coisas ruins onde está tudo indo razoavelmente bem? Essas dúvidas nos ajudam a interromper o que está nos fazendo sofrer (e é bom lembrar aqui que, se estamos a nos fazer sofrer repetidamente, então há algum prazer nisso), de forma que podemos seguir adiante fundamentando nossas ações em outras coisas.

v) Fermentação: Essa pode ser considerada a primeira parte de um processo que envolve duas etapas. Os pássaros na figura agora estão cuidando de um ovo, o fruto da Conjunção. Aqui já temos um movimento de descida na mandala; a correspondência entre o que está em cima e o que está embaixo, como se diz na Tábua de Esmeralda de Hermes Trismegisto (texto que é o fundamento da Alquimia), faz parte do processo de transformação espiritual, e é por isso que o movimento circular pela mandala apresenta uma subida e uma descida de volta ao ponto de partida, o que significa a completude. A Fermentação envolve uma morte, mas morte como na carta do Tarot, como possibilidade de nascimento, renovação. Morrer aqui é não é uma mera destruição, mas a preparação pro que vem de novo. E o que deve morrer é justamente o antigo ego, a antiga forma com a qual nos identificávamos.

Na Alquimia, fala-se de substituir esse antigo EU por um novo, o verdadeiro. Acho que podemos pensar de forma mais moderada: não é que vamos dar a luz ao que verdadeiramente somos, mas talvez apenas ao que desejamos ser e que está de acordo com a nossa “realidade”. Para que se prender a imagens produzidas com o único objetivo de obter aceitação social ou esconder aquilo que desejamos? É claro que, de alguma forma, essas imagens fazem parte do que somos, e não é por acaso que a identificação com elas justamente nos dá a imagem do ego. Embora essa distinção entre verdadeiro e falso possa ser conveniente, também penso ser possível pensar mais em termos do que nos prejudica a ser o que desejamos mais profundamente e o que está em conformidade com esse desejo.

vi) Destilação: A segunda parte desse momento de morte/renovação. No círculo, os pássaros não existem mais, havendo um unicórnio no lugar. Diziam lendas antigas que os unicórnios só se acalmavam (como na imagem) na presença de uma virgem (o encontro de dois símbolos de pureza). É o momento de assegurar que as impurezas estão devidamente afastadas/contidas/eliminadas. Podemos pensar nelas como os elementos nocivos que não queremos mais ditando os rumos de nossas vidas. Novamente, esse discurso sobre a pureza pode ser pensado de forma moderada como no caso da verdade, de forma que o resultado da purificação é simplesmente o que desejamos por ser algo benéfico e que nos permitirá uma vida mais suave, leve, tranquila. Sendo assim, essa operação envolveria focar ao máximo nisso e garantir que estamos realmente preparando um novo ego em paz com os processos inconscientes, construído pelo desejo de aceitação de si. Esse novo ego não se envolveria da mesma forma que antes com repressão de imagens, nem estaria envolvido com desejos de controle daquilo que independe de nós. Podemos deixar conscientemente as coisas seguirem seu caminho sem que algo dentro de nós resolva nos atormentar por isso.

vii) Coagulação: Na imagem, vemos uma criança andrógina surgindo de um túmulo, uma representação gráfica da relação entre morte/nascimento que existe nas tradições herméticas. O caráter andrógino significa harmonia entre os aspectos masculinos e femininos apresentados anteriormente através das imagens do Rei/Sol/Alma e da Rainha/Lua/Espírito. O produto maior da transformação mental na Alquimia é a complementaridade dos opostos. Essa é a etapa final, de contemplação das diferenças entre passado e presente, de sentir uma paz interna inédita. Por conta do formato circular da mandala, podemos entender que o processo continua de volta ao ponto de partida, um entendimento que considero bem saudável.

Um outro aspecto da circularidade é um que me faz pensar na Psicanálise: nos dois casos, não temos um processo de transformação em termos de um progresso linear, que se dá como um acúmulo de “esclarecimento” até o ponto de chegada, onde viramos pessoas sábias e iluminadas. Embora a Psicanálise possibilite da melhor forma um encontro e uma grande resolução (para o “bem” ou para o “mal”) de nossos conflitos, penso que tanto ela como a Alquimia envolvem esse processo circular, onde partimos de um EU/ego e retornamos a outro, um outro que também somos. Afinal, todos os processos, conflitos, confrontamentos, tudo isso se dá em nós, em ambos os contextos. Em nenhum momento incorporamos coisas externas, alienígenas, mas trabalhamos com tudo que já estava ali, mesmo que escondido porque nós escondemos.

* Informações adicionais sobre alguns outros elementos na imagem:

  • Os planetas/metais representados pelos símbolos, em ordem: chumbo/Saturno, estanho/Júpiter, ferro/Marte (símbolo maior) e enxofre (símbolo menor), ouro/Sol, cobre/Vênus, mercúrio/Mercúrio (símbolo maior), prata/Lua.
  • A frase em torno do círculo é “ Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem” (Visite o Interior da Terra, pela Retificação, Encontrará a Pedra Oculta). As iniciais formam a palavra “VITRIOL”, que era o nome dado ao ácido sulfúrico (óleo de vitriol) em latim. Ácido sulfúrico era usado por alquimistas no processo de produção da Pedra Filosofal.
  • No topo da imagem, a salamandra à esquerda e o pássaro à direita apresentam uma continuidade simbólica em relação a dualidade masculino/feminino (alma/espírito). A figura com asas no centro representa uma essência psíquica que ascendeu, estando em oposição direta ao corpo simbolizado pelo cubo, e, portanto, em uma relação de correspondência e complementaridade.