O consenso liberal e a farsa pós-racial

2008: Barack Obama é eleito o primeiro presidente negro da história dos EUA, e muitas pessoas (geralmente brancas) apontam para o fato de que o país finalmente atingiu seu ápice pós-racial, o que significaria que a sociedade teria se transformado positivamente de tal forma que os grandes conflitos raciais teriam ficado no passado. Em janeiro de 2010, o comentador Chris Matthews (branco) da rede de televisão MSNBC disse ter esquecido que Obama era negro por um momento durante um discurso, porque ele era tão pós-racial que teria conduzido a política dos EUA para além dos antigos problemas étnicos[1]. Sua presença no meio de todos aqueles políticos brancos parecia tão normal que isso só poderia ser um sinal de que algo de novo estava realmente rolando. Afinal, que tipo de sociedade racista é essa onde um negro é eleito pro cargo executivo mais importante? Muitos conservadores também viam na ausência de debates inflamados sobre questões raciais na corrida presidencial um indicativo de que tais questões haviam desaparecido ou perdido sua relevância para uma eleição.

Agora, vamos para a Universidade de Winchester. Não a real, mas a fictícia descrita na série Dear White People. Toda a atmosfera institucional é construída justamente para representar um lugar pós-racial: um estudante negro bastante popular concorre para representante do corpo estudantil, e seu pai ocupa um cargo administrativo importante; existe um número “razoável” de pessoas negras na universidade que é para ser parte da Ivy League (o grupo de elite das universidades nos EUA), mesmo não sendo a maioria de estudantes; uma professora bastante popular e negra dá aula no curso de estudos afro-americanos; não vemos nenhum tipo de agressão verbal ou física explícita contra pessoas negras; existe uma casa historicamente exclusiva para pessoas negras para que elas tenham um “espaço seguro”. E por aí vai. A assimilação e aceitação nessa instituição de ensino parece ter chegado no ápice, onde justamente os problemas raciais que marcaram a história do país e daquela sociedade são apenas pesadelos distantes no tempo.

E então uma estudante (Sam) resolve criar um programa de rádio com o mesmo nome da série, onde fala abertamente sobre como as pessoas naquele ambiente ainda são racistas. Uma festa convocada por membros de uma revista em resposta ao programa, defendendo a “liberdade de expressão”, é rapidamente proibida pela direção. Mas a festa acaba ocorrendo, e aí que as coisas finalmente se tornam explícitas: um monte de gente branca aparece fazendo blackface, uma prática antiga teatral onde pessoas brancas fazem o papel de negras pintando seus rostos de preto. E embora já não seja algo tão popular no teatro, a prática continua sendo um problema em outras formas de expressão: como no caso da festa que ocorre na série.

Sam aborda os problemas relacionados à festa como uma demonstração de que todo o clima pós-racial que toma conta da universidade é uma farsa. Todo o ponto é que, assim que as pessoas brancas encontram uma chance de fazerem algo racista, elas vão lá e fazem. E, quando são questionadas, acabam largando eventualmente suas máscaras e mostrando todo o racismo mantido em silêncio até então. Isso é o caso inclusive de alguns estudantes brancos que se mostram conscientes e favoráveis às causas da população negra (ou não-branca em geral). Já no mundo real, o trailer da série foi suficiente para que muitas pessoas xingassem muito no Twitter, entrassem em campanhas de boicote, e reclamassem do “racismo inverso” da série, pois ela se dirigia a uma generalização (“gente branca”) injusta e baseada na cor de pele. Sim, por incrível que pareça, as pessoas são realmente capazes de se sentir injustiçadas com isso (o que prova todo o ponto da série). Que terrível, não? E é justamente aí que elas abandonam qualquer imagem de amigas de minorias, assim como ocorre também em diversos momentos da série.

Em dezembro de 2014, o Washington Post e a ABC News resolveram fazer uma pesquisa de opinião, que reportava que: 5 em cada 10 pessoas brancas acreditavam que pessoas negras e outras minorias eram tratadas da mesma forma que pessoas brancas pelo sistema de justiça criminal; 6 em 10 pessoas brancas confiam que a polícia trata pessoas negras e brancas da mesma forma. Já a proporção de pessoas negras que pensam o mesmo são 1/10 e 2/10 respectivamente[2].

Essa pesquisa foi feita um mês depois de um tribunal em Nova York se recusar a declarar um policial culpado pela morte de Eric Garner, um homem negro de 43 anos enforcado até a morte. Ao ser abordado, Eric reclamou que estava cansado desse tipo de assédio e que não estava vendendo nada, o que levou à tentativa de detenção. Eric repetiu 11 vezes “Eu não consigo respirar” (“I can’t breathe”, frase usada em diversos protestos pelos EUA) antes de morrer. No mês anterior, ocorreu o mesmo com o policial que matou Michael Brown, rapaz negro de 18 anos acusado de roubar cigarrilhas de uma loja em Ferguson. O movimento Black Lives Matter (“Vidas negras importam”) foi criado em 2012 após o assassinato de um jovem negro (Trayvon Martin, morto por um vigilante comunitário que também não foi acusado por ter “agido em autodefesa”). Todos esses casos com grande exposição nas redes sociais e mídias, e mais todos os outros que fazem parte do cotidiano de pessoas negras nos EUA, ocorreram sob o governo do presidente negro.

E o ponto obviamente não é que um presidente negro não sirva de absolutamente nada. Serve para pessoas brancas acharem que o racismo acabou e para pessoas negras sentirem esperança, terem provas de que elas podem ocupar todas as funções e cargos que pessoas brancas ocupam historicamente naquela sociedade, e por aí vai. Mas as ruas ainda permanecem as mesmas. Pessoas negras sendo assassinadas em plena luz do dia por policiais que voltam ao trabalho normalmente depois, porque era só mais um caso isolado. E essa situação “estranha” que revela os conflitos nas fronteiras do consenso liberal, que se desdobra justamente na ideia desses falsos paraísos pós-raciais.

A face social do liberalismo sempre foi progressista. Já nos acostumamos com pessoas que se declaram “liberais” falando todo tipo de coisa conservadora ou reacionária, mas a versão dominante do liberalismo nos EUA tem sido progressista tem tempos, vendo como algo positivo o avanço para longe de coisas como escravidão, apartheid, genocídio e tudo mais. Incluir cada vez mais pessoas no sistema eleitoral, no mercado de trabalho, não deixar ninguém de fora dessa grande festa democrática, não importando nacionalidade, gênero, questões raciais etc. A igualdade formal de oportunidades deve garantir que todas as pessoas, incluindo as negras, possam entrar em universidades de elite, concorrer à presidência do país, trabalhar em posições prestigiadas etc. A própria ideia de Direitos Humanos é tipicamente liberal: todo mundo é igual, todo mundo possui os mesmos direitos, todo mundo é cidadão e humano. Dificilmente dá pra encontrar um universalismo mais vazio que esse.

Nos EUA, o caminho para esse consenso foi pavimentado por anos de políticas governamentais como o New Deal e a criação do sistema de seguridade social (do governo de Franklin D. Roosevelt), a Guerra à Pobreza (governo de Lyndon Johnson), a Lei dos Direitos Civis (proposta por Kennedy, que combatia todas formas de segregação social), as políticas afirmativas (do governo Nixon) e muitas outras. Apesar dos diagnósticos que colocam o consenso liberal tendo sido rompido já há algum tempo, penso que a expressão “consenso” ainda é útil, ainda mais depois de ver o último processo eleitoral nos EUA e seu resultado. Bastou a vitória de Trump se tornar cada vez menos uma piada que todas as instituições liberais se uniram descaradamente em torno de Clinton. Acadêmicos, executivos de megacorporações, fundações como a Ford e a Open Society, as grandes empresas de mídia e jornalismo, Hollywood: todo mundo se uniu contra o Grande Inimigo, em oposição ao retrocesso no horizonte.

Mais do que uma corrente de pensamento dominante nos meios que influenciam os rumos de uma sociedade, penso que esse tipo de consenso também tem a ver com um processo que se pretende ser uma hegemonia. Com uma vontade de fundar um universalismo formal, vazio de diferenças, onde a inclusão e a participação levam à assimilação. Uma falsa assimilação, como no caso do Obama que deixa de ser negro por uns instantes, como no caso da fictícia Universidade de Winchester. E é óbvio que pessoas negras (gays, trans, indígenas…) preferem um mundo onde elas possam ser capa de revistas famosas, ganhar um monte de dinheiro, ganhar uma corrida presidencial e tudo mais. Que isso seja suficiente ou o máximo que podemos conseguir em uma sociedade, é aí que começa o grande conflito envolvendo minorias. Porque dentro do consenso liberal, não há muito para onde ir além disso. Ele não pode (ou ao menos não mostrou até agora como pode) produzir nada além de uma sociedade pós-racial, onde o racismo está em tudo quanto é canto, mas ninguém pode falar sobre isso porque o problema já foi superado.

Dear White People, além de outras coisas, é uma série sobre como as pessoas negras se colocam diante desse conflito, que tipos de posicionamentos e perspectivas são possíveis nos limites de um ambiente pós-racial e profundamente liberal. Tentar usar o sistema para continuar resolvendo tudo? Abandonar qualquer postura agressiva para evitar ainda mais violência contra pessoas negras na sociedade? Fazer protestos? Campanhas virtuais? Abrir diálogo? Atuar em conjunto com pessoas que se recusam a admitir toda a dimensão do racismo nelas? Unir todas organizações estudantis negras sob uma mesma bandeira? São diversas possibilidades, e apenas as que envolvem uma crença em uma superação já concluída dos problemas raciais não são apresentadas como algo sério (são expostas através de caricaturas e situações ridículas).

Do outro lado, as pessoas brancas apresentam mais dificuldade em aceitar a atualidade de questões e opressões raciais, como na pesquisa mencionada anteriormente. Algumas se mostram surpresas com a existência de brancos racistas (‘Eu nunca imaginei isso acontecendo aqui’), outras curtem pessoas negras da mesma forma que curtem um prato de comida exótico, outras defendem a “liberdade de expressão” contra os discursos anti-racistas (mas repudiam as formas mais violentas de racismo), outras se mostram altamente sensíveis às questões raciais mas se sentem injustiçadas pelas generalizações envolvendo “gente branca”. E algumas pensam que não há mais progresso a ser feito porque “raça não importa mais”. Bem, não importa para elas. Diante da possibilidade de sofrer pressões sociais e públicas por conta de seus posicionamentos, algumas pessoas brancas preferem admitir que a mudança era inevitável; mas, logo que uma nova questão se apresenta, correm para defender a manutenção das coisas, porque pensam sempre que o resto do mundo já tem mais do que o suficiente.

Esse tipo de conservadorismo acaba tocando no liberalismo e sua tentativa de criar universalismos e formalismos onde a igualdade reina e as diferenças ficam invisíveis. Muitas vezes, é mais fácil aceitar a suposta realidade de uma sociedade pós-racial, e assim deixar o racismo em silêncio, velado, implícito. E usar esse tipo de noção para criar barreiras para a emancipação racial plena. Em uma sociedade onde a acusação de “racismo” se torna socialmente grave, a hipocrisia é o caminho mais curto. Mas os conflitos e dissensos se apresentam em todos cantos, e quanto mais se finge que está tudo bem, mais a tensão se desdobra: os protestos envolvendo a campanha Black Lives Matter são um exemplo disso, assim como os crescentes conflitos com pessoas muçulmanas por conta de anos de tensão propagada pela Guerra ao Terror e consolidação de certas imagens sobre como é um “terrorista”, além das questões de imigração.

O fato é que, em diversos aspectos, o mundo nos EUA não mudou após todo tipo de políticas públicas e programas de governo progressistas, após o fortalecimento do consenso liberal em diversas frentes de atuação, após a eleição de um presidente negro: pessoas negras ainda podem ser baleadas “acidentalmente” por policiais, continuam sendo paradas como eternas suspeitas de algum crime, continuam sendo pensadas de forma racista até mesmo pelas pessoas brancas “aliadas” etc. E ainda devem assistir sua cultura (anteriormente atacada de todos os lados) ser vendida enquanto sua pele ainda é crime. Se o racismo nunca foi combatido e solucionado de forma estrutural e sistêmica, como pode haver uma sociedade pós-racial? E, apesar de ter falado dos EUA, vemos no Brasil (que está mais para um consenso feudal) como as coisas caminham para o mesmo lugar, como esse é o grande horizonte que nos aparece (aliás, importante notar aqui que isso não é o mesmo que o mito da “democracia racial” que rolou por uns tempos aqui). A “vantagem” é que supostamente podemos saber que, no futuro, o racismo não vai ser extinto por aqui graças ao progressismo liberal, mesmo que tentem nos vender alguma baboseira racista sobre “sociedade pós-racial” .

[1] A fala dele completa pode ser lida aqui.
[2] Pesquisa aqui e matéria do Washington Post sobre a pesquisa aqui.