Eu sempre me prometo ficar fora de debates na internet, mas no deboismo rs eu quero colocar alguns…
Fernando Alves
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Vou te responder sem te zoar, como você pediu. Espero que seja útil para você e para quem curtiu esse comentário, visto que as questões expressas aqui foram em bastante ecoadas por um número considerável de pessoas.

Primeiro: Quando digo que nunca vi material do gênero, refiro-me ao fato de que ao passo que o texto do homem viraliza e aparece sem que qualquer um tenha de procura-lo, um texto de uma mulher falando sobre uma experiência tão importante nunca caiu no meu colo, e quando o procurei também não encontrei. Depois dessa publicação no medium, tive a sorte de receber alguns. O que não muda o fato de que o texto sobre estupro escrito por um homem foi propagado pelos céus. É ai que reside minha crítica. Na valorização e propagação do dito texto.

Segundo: Sobre eu ter presumido que o sujeito não era em realidade simpático sem o conhecer, julgo-o, o que é evidente, assim como você pode me chamar de radical e reativa no comentário que enviou, pelo que ele escreveu. É uma bandeira do feminismo que não sejamos subjugadas, espancadas, estupradas, colocadas em posição de subalternidade e mortas por sermos mulheres. E, não. Não é uma bandeira do feminismo ‘não julgar as pessoas por seus textos’. Existe opressão no discurso e a maneira como falamos, bem como quais mensageiros escolhemos e quais mensagens aceitamos — entender isso é uma bandeira do feminismo. Quando o homem fala sobre estupro, palmas. Falei sobre o fato de que fui estuprada e como me senti ao ler o tal texto. Peço encarecidamente que passe os olhos pelos comentários dessa publicação e veja com seus próprios olhos que muitos aqui não julgaram que eu merecia empatia antes de me chamar de radical burra. Essa é a diferença: a mensagem é compreendida e aceita com mais facilidade e menos resistência quando aquele que a veicula é um sujeito privilegiado (Homens, pessoas brancas, pessoas cis, pessoas de classe média, pessoas heterossexuais, pessoas monossexuais, pessoas não portadoras deficiências e assim por diante).

Terceiro: a crítica na verdade não se dirige ao ponto de vista em particular. Homens podem apenas falar de seus próprios pontos de vista, e disso não tenho dúvidas. Contudo, porém, entretanto, eu não dizia em momento algum que o sujeito devesse escrever um texto na perspectiva da mulher que foi estuprada. Ele, se tinha a intenção de ajudar, deveria ter a percepção e a sensibilidade de saber quando ficar quieto e deixar com que os outros falassem, propagando a voz destes nos espaços onde estes não estão. O ponto é: ele não deveria ter escrito esse texto, da perspectiva dele ou dela.

Isso não é excluir os homens do debate. Isso é favorecer com que vozes não ouvidas sejam ouvidas ao custo de minutos de silêncio das vozes que ouvimos sempre. Usando o exemplo que você usou: sendo um homem gay, você não preferiria que as pessoas hétero propagassem a sua influência nos espaços nos quais, por ser gay, você talvez não tenha acesso? Para fazer tal coisa, é preciso aprender a ouvir. É preciso aprender que a mensagem não se dissocia do mensageiro no mérito de é ou não ouvida.

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