A história devia isso a Cristiano Ronaldo
Se um dia me perguntarem, daqui 40, 50 anos, pelo o que Cristiano Ronaldo teve de passar até levantar o troféu da Eurocopa de 2016, vou dizer mais ou menos isso…

Cristiano Ronaldo levanta o troféu da Eurocopa de 2016 junto a seus companheiros de Seleção Portuguesa
Por: Caiio Cesar
… Bom, em 2016 eu já tinha 23 anos de idade e acabara de me formar em jornalismo. Não era mais nenhum menino e sabia muito bem o que tinha pela frente, tanto que cheguei até aqui e estou contando isso pra vocês com total lucidez (espero estar lúcido com 80 anos).
À época, já conhecia Cristiano Ronaldo há pelo menos 10 anos. Acompanhei toda sua trajetória, tanto dentro, como fora de campo. Ele ter chego à Euro como o principal jogador europeu em atividade era ponto pacífico, mesmo porque semanas antes ele levantara o troféu da Champions League, com o Real Madrid, sendo o artilheiro da competição.

Cristiano Ronaldo com o troféu da 11ª Champions League do Real Madrid
Acontece que a seleção de Portugal, só pra começar a história, não tinha um centroavante sequer que fosse minimamente confiável. Não digo nem bom, digo confiável. O treinador, Fernando Santos, havia assumido o comando técnico do elenco em menos de dois anos e, pra completar, o povo português, assim como a imprensa e os próprios jogadores, acreditavam no… título.
Era um roteiro pra lá de tenebroso para aquele que tinha como missão capitanear a equipe e levá-la, pelo menos, até a final.
Cristiano, porém, já estava acostumado com tamanha pressão…

Cristiano Ronaldo no Old Trafford, estádio do Manchester United
No Manchester United, clube que o projetou no cenário mundial e lhe deu sua primeira Bola de Ouro, entre várias outras coisas, Cristiano teve de lidar com as vaias de sua própria torcida por conta de um entrevero com Wayne Rooney, então xodó dos red-devils, na Copa do Mundo de 2006.
Superada essa parte, as vaias ficaram por conta só das torcidas rivais; não só pelo futebol que jogava, mas pelo aparente jeito exibido e um tanto quanto egoísta de ser.
As vaias em estádios adversários o acompanhariam durante toda sua carreira.

Cristiano Ronaldo pedindo 'calma' ao Camp Nou, estádio do Barcelona, pela primeira vez; comemoração ganharia o mundo posteriormente
Em 2009, depois de ter conquistado tudo o que podia pela equipe do lendário treinador escocês Sir Alex Fergusson, Cristiano realizou seu sonho de infância e transferiu-se para o maior clube do mundo: Real Madrid. Transferência recorde: 94 milhões de Euros.
Após um começo meio que desanimador, pois o rival Barcelona, de Pep Guardiola, Messi, Xavi e Iniesta, etc., conquistava não só títulos, como também a imprensa mundial, Cristiano começou a triunfar na equipe merengue. De fato, em 2012, quando carregou los blancos à conquista da Liga Espanhola — tendo como treinador Don José Mourinho.

Cristiano Ronaldo e José Mourinho. Treinador português o ajudou em muito a conquistar sua segunda Bola de Ouro, em 2013
Depois de um tempo, e já sem Pep Guardiola no Barça, Cristiano conseguiu dar ao Madrid a tão sonhada Décima Champions League, uma verdadeira obsessão do então presidente do clube, Florentino Pérez, e posteriormente deu também a Undécima. Além, é claro, de Copas do Rei, Supercopas e Mundial. Conquistou, em Madrid, também tudo o que podia.
É claro que durante todo o período em Madrid as críticas, às vezes, ultrapassavam todos os limites. O próprio Cristiano declarou, certa vez, que não mais falaria à imprensa da capital espanhola. Sem contar sua disputa pessoal com Lionel Messi pela Bola de Ouro: perdeu durante quatro anos seguidos após conquistar sua primeira, em 2008, depois ganhou duas seguidas e voltou a perder, já em 2015. Ou seja, um 5–3 que, querendo ou não, incomodava.

Cristiano Ronaldo e Lionel Messi: os dois melhores jogadores daquela época
Resumindo: pelos clubes ele fez o possível e o impossível. Recordes de gols, de Chuteiras de Ouro, títulos, resultando em quebra de recorde de salário e mais seguidores do que qualquer outro atleta nas redes sociais. Faltava só algo pela seleção, que era seu maior desejo.
E faltava porque em 2004, quando ele tinha apenas 19 anos, viu, já de dentro do campo, Portugal perder uma final de Eurocopa, jogando em Lisboa, para a Grécia, que à época se jogasse 1.000 vezes contra Portugal, perdia 999.

Cristiano Ronaldo, ainda com 19 anos, chorando após a derrota para a Grécia na final da Eurocopa de 2004
Embora conseguisse mesclar, em sua maioria, campanhas regulares com boas campanhas, tanto na Copa como na Euro, Portugal, até 2016, não mais havia chego à uma final sequer. E parecia que não ia chegar nunca mais.
Não tinha muito o que inventar: o time era mediano. Os jogadores não eram ruins; mas perto de Cristiano, pareciam ser. Isso desmotivava qualquer um, menos o próprio camisa 7.
Ele nunca abandonou o barco e cansou de salvar sua seleção nos momentos mais críticos possíveis. Até hat-trick na Suécia, para impedir uma ausência em Copa do Mundo, ele fez — entre outras coisas.
Mas título que é bom…

Cristiano Ronaldo e Zlatan Ibrahimovic, uma lenda viva da época, no dia em que o português classificou Portugal para a Copa do Mundo de 2014 com três gols
Cristiano chegou à França como o virtual melhor do mundo daquele ano, o de 2016, e, como já citado, com um discurso de título, muito porque se encontrava na plenitude de sua carreira, sem mais nada ter de provar pra esse ou aquele. Era ele contra ele mesmo, tendo um título com Portugal no horizonte.

Cristiano Ronaldo chegando à França para a Eurocopa de 2016
Os primeiros três jogos, entretanto, pouco animaram: três empates. Classificação graças a uma quantidade recorde de participantes, que permitia com que os melhores terceiros colocados do torneio avançassem. E Portugal, de Cristiano - que marcou dois gols no último jogo da citada fase - avançou.
Avançou e enfrentou a Croácia nas oitavas. Uma seleção melhor, com mais conjunto. Resultado: novo empate; vitória só na prorrogação, pelo placar mínimo.
Na fase seguinte, uma Polônia inferior tecnicamente à Portugal, mais com um artilheiro: Lewandowski, que pertencia ao poderoso Bayer de Munique. E foi o próprio quem abriu o placar para os poloneses, antes de Renato Sanches, revelação portuguesa naquela Euro, empatar. Prorrogação. Pênaltis. 5–3 para os lusos.

Cristiano Ronaldo comemorando a classificação de Portugal às semis da Eurocopa de 2016 junto a seus companheiros
Na semifinal, por uma obra divina, talvez, ao invés da Bélgica, que seria o “normal”, Portugal enfrentou a seleção do País de Gales, que derrotara por 3–1 os belgas na fase anterior. E aí Cristiano voltou a aparecer marcando: fez o 1–0 e logo depois participou do segundo. Final: 2–0, no melhor jogo de Portugal no torneio até aquele momento.
Cresceu no momento certo? Agora vai? Será mesmo? Só restavam os donos da casa…
Portugal poderia de certa forma concertar a história, tirando da França um título que lhe foi tomado das mãos pela Grécia em 2004.
Cristiano poderia, finalmente, conquistar algo pelo seu país. E, no fundo, era a história mais linda a se escrever.
Depois de tanto tentar, de tanto sacrifício, de tantas críticas, de tanto suor, de tantos títulos, recordes, gols e fãs conquistados, o “Ronaldo” português poderia já com 31 anos solidificar seu nome entre os maiores de todos os tempos.
Faltava apenas um jogo.

Na própria Eurocopa de 2016, o destino já colocara Cristiano Ronaldo em seu devido lugar
Inacreditavelmente…
Quis o destino que Cristiano Ronaldo fosse impedido de lutar pelo seu sonho, e pelo sonho de seu país, logo aos 8 minutos de jogo, após receber uma entrada dura de Payet no meio-campo.
Cristiano bem que tentou voltar, por duas vezes, enquanto chorava por saber que não mais daria. E não deu. Aos 25’, saiu de maca, direto para o vestiário, e Quaresma entrou em seu lugar.
Aplaudido por todo Stade de France, Cristiano via a sua Eurocopa terminar por conta de uma falta recebida — falta que nem foi maldosa, mas que com certeza devastou o coração de todos os portugueses e de todos os fãs da estrela da companhia lusitana.
Os soldados de Fernando Santos, porém, resistiram bem até o término do primeiro tempo e conseguiram manter o placar zerado. Faltavam mais 45 minutos.

A chocante imagem de Cristiano Ronaldo chorando no gramado do Stade de France; terminava ali a sua participação, no campo de jogo, na final pela qual lutou por 12 anos para alcançar
E quis o destino, também, que nada se resolvesse nos 45 minutos finais. Prorrogação. E volta Cristiano Ronaldo ao gramado para dar força a seus companheiros numa das cenas mais emblemáticas da história do futebol.

Mancando, Cristiano Ronaldo voltou ao gramado e tornou-se um assistente técnico de Fernando Santos no banco de reservas
Inacreditavelmente de novo…
Éder acertou um chute indefensável no segundo tempo da prorrogação para tornar o sonho português em realidade.
Quis o destino que Cristiano Ronaldo visse tudo à beira do gramado, aos prantos. Quis o destino que Portugal fosse, em 2016, a Grécia de 2004. Quis o destino que CR7 se tornasse um dos grandes. E foi ali, no Stade de France, que isso aconteceu.

Por vezes a história nos prega peças difíceis de aguentar. Mas a felicidade está no improvável. No sonho. No impossível. Busque-a a qualquer custo. O cara lá de cima lhe recompensará.
Um título incontestável numa final pra lá de emocionante. Portugal pela primeira vez em sua história era campeão de algo com sua seleção de futebol principal.
E a Cristiano Ronaldo não faltava mais nada. Mais nada.
Foi mais ou menos isso…
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