Cartaz em manifestação contra o impeachment de Dima Roussef.

APOIO À GLOBO…
Por que???

No último texto sobre racismo, Black Faces, mencionamos a defesa do Grupo Globo feito por Celso Athayde e Elisa Lucinha no episódio de racismo que envolvia Waack. Na mesma semana, Agnaldo Tmóteo, também negro, narra em um programa de entrevista uma história idêntica à de Celso (deveria ter processado a Rede Globo), com desfecho igual (desistência) e pela mesma razão do líder do CUFA e utilizando, ainda, um termo idêntico: “suicídio” para se referir ao risco de um processo contra o poderoso veículo.

Na mesma semana, ainda, Eliane Brum escreve um artigo no Le Monde, que, se dissecado, faz uma estranha defesa da Globo usando a exibição do clipe mencionado por Athayde — novas coincidências? Eliane começa colocando no mesmo pé as pessoas de esquerda que acham que a Globo apoiou o golpe (parecendo se excluir desse grupo tão equivocado) e a ultradireita que chama a empresa de comunista pela sua postura com temas de sexualidade***. Usa um argumento falacioso de que o mesmo hashtag #GloboLixo teria sido usado por ambos grupos contrários — o que seria indício de algum tipo de proximidade de seus equívocos. Além disso, a jornalista cita os eventos que comprovam a face "progressista" da emissora sem aventar que isso poderia ser um marketing planejado para continuar golpeando historicamente a democracia, mas tendo jornalistas de esquerda defendendo-a. Também usa a ameaça do fascismo da Record como um consolo comparativo para o fascismo “melhor” da Rede Globo.

É como se houvesse uma nova onda que diz: "que bom que a Globo não condena gays como a emissora fundamentalista, assim, podemos ser mais indulgentes como fato de que ela se aliou três golpes de estado; se envolveu com a defesa de um regime que matou e torturou pessoas; foi corrupta e mafiosa ao manipular as eleições da fase democrática que se seguiu ao regime das torturas; defende agora a reforma trabalhista e previdenciária que ameaça os direitos do povo; seu diretor de jornalismo escreveu um livro onde diz não existir racismo; faz cobertura tendenciosa politicamente que protege partidos e políticos criminosos ao mesmo tempo que apoia perseguição política de inocentes; vaza informação sigilosa em conluio com sistema judiciário e muito mais que não caberia listar aqui". Brum cita algum desses atos hediondos quase como um ônus possível para quem nos dá o bônus de não ser como a Record – quanto ao tema da sexualidade.

Nesse período, uma celebridade pop ligada à causa LGBT, o cantor Pablo Vitar, confessa no Programa do Faustão que o sonho de sua vida era estar ali, seguido de aplausos calorosos da plateia e de reação comovida do apresentador.

Ainda na fatídica semana, se dá a atitude de Pedro Cardoso que ao sair em protesto de um programa da TV Brasil se torna um ídolo da revolta contra os oligopólios. No entanto, em seguida, a rede social lembra que a TV Brasil é uma anã de audiência e que, dias depois do evento, o ator foi no programa de Danilo Gentile do SBT, conhecido por afirmações homofóbicas, racistas, machistas e politicamente incorretas com obesos, pessoas especiais ou o grupo discriminado que você escolher. E, neste programa, com esse apresentador, não houve manifestações no ar. Algo a ver com a audiência, o novo poder de destruição desses novos coronéis?

Por último, Gabriel Sá, famoso quadrinista, tem a estrela vermelha de seu boné vietnamita coberto com fita isolante para que possa dar a entrevista ao Bial. Ao se defender sobre essa permissão, responde que era uma regra pré-estabelecida e, novamente, com alguns dos textos anteriores, menciona que se fosse uma imagem do tucano do PSDB seria tão proibido quanto a estrela vietnamita que sequer era a do PT – indicando novamente a isenção da emissora no caso. Isenção que imagino que deva ser apenas com os bonés!

Mas, enfim, em quinze dias de observatório da mídia, vemos um pequeno arsenal de exemplos da continuidade de nossa tradição coronelista há algum tempo conduzida pelas famílias que dominam a mídia no país paralelos à permanente submissão de indivíduos e instituições onde se pressupunha resistência. Conivência, ora ingênua e manipulada e ora estratégica ou comprada, mas sempre, uma conivência. Por vezes, passiva e acomodada e, por outras, ativa e empenhada, mas sempre conivência.

É longo o debate que nos permite condenar ou liberar alguém dessa conivência. Mas é interessante observar que a hashtag criticado por Eliane Brum, jornalista famosa e com espaço de visibilidade na mídia, é relacionado ao ativismo de um jovem anônimo que durante uma matéria ao vivo consegue mostrar um cartaz com esse texto dentro da própria emissora. Outro jovem, que também não era celebridade, cria a sentença que viralizou na luta contra o golpe de estado: “Primeiramente, fora Temer!”. Ele aproveita que a transmissão é ao vivo e na programação da emissora que apoia o golpe, impõe uma fala que seria proibida – conseguindo, dessa forma, duplamente, tanto uma visibilidade da causa em grande audiência, como também identificar a emissora com o golpe pelo sarcasmo que se transformou dizer aquilo ali – que não seria nada subversivo, não fosse a emissora comprometida com uma cobertura tendenciosa e falseada dos fatos.

Entre as manifestações contra o impeachment de 2016 e o carnaval desse ano, a Rede Globo se viu refém de suas ações em uma época sem regime militar. Foram inúmeras as situações de entrevistas interrompidas por manifestos contra a emissora, restrições de cobertura que exigiam que o repórter ficasse longe do público na transmissão ou utilização peremptória de playback. Nos blocos de carnaval, os repórteres se aproximavam para conseguir entrevistas e já se ouvia gritos de "golpista" e os próprios entrevistados muitas vezes usavam os microfones para condenar o canal de televisão.

Se os manifestos dos anônimos viralizam nas redes e na TV fazendo crítica à Rede Globo, as pessoas públicas, no entanto, assumem outra postura — talvez porque tenham muito mais a perder no regime coronelista — o tal suicídio de Timóteo e Athayde.

Nas passeatas e nas redes sociais, outros anônimos empunhavam cartazes com a palavras golpe onde o “O” era o símbolo do canal. Um grito de guerra ecoou nas ruas e nos timelines dizendo “a verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”. Novamente, inúmeros cantores, atores, ativistas e jornalistas que subiam nos palanques das manifestações — onde se dava essa consciência do papel da mídia no golpe — se silenciavam sobre o caso específico da emissora.

Assim, vamos seguindo vendo Laerte ou Mujica (dois ídolos meus) dando entrevistas ao Bial, legitimando muito mais a defesa de textos como o de Brum que sustentam que a emissora é democrática, do que suas causas políticas que queríamos ver ali como um grito gutural como os dos anônimos. Uma vontade de ouvir “Primeiramente, alguma coisa” no sofá do Bial ou uma fala como a de Pedro Cardoso no programa Sem Censura, só que em uma rede de grande audiência. Mas, por enquanto, já seria suficiente não ter textos de defesa tão dedicados.

A luta da esquerda e os enfoques humanistas de análise social fazem uma síntese com três vertentes de enfrentamento: a luta de classes (contra a desigualdade social e pelos direitos dos trabalhadores); o combate ao neocolonialismo (autonomia do país, não submissão internacional e preservação econômica, social e cultural) e a luta contra o patriarcado (fortalecimento dos movimentos sociais, ampliação da representatividade e proteção de minorias ou grupos discriminamos). Essas vertentes precisam ser encaradas em sua especificidades, mas não podem ser conduzidas de forma a ignorar as demais.

Vale a lembrança dos conceitos propostos por Castoriadis: irredutível e indissociável. Uma luta não pode ser reduzida à outra, no entanto, dissociá-las de suas relações profundas seria uma excrescência.

Quando Eliane Brum chama a atitude a favor de gays da Rede Globo de progressista comete várias reduções e dissociações perigosas. Ela esquece que em telenovelas globais shoppings já foram explodidos para matar personagens homossexuais que não foram bem aceitos na pesquisa de audiência (Silvia Pfeiffer e Chrisitiane Torloni em Torre de Babel — 1998); personagens mudaram de desejo sexual também por conta de pesquisas indicarem que a audiência mais conservadora não conseguirem aceitar determinados atores interpretando esses papéis (Marcos Pasquim em Babilônia — 2015); a expetativa no beijo gay que assolou o país por muito tempo foi adiada pela emissora que ameaçava representar, mas que desistia novamente obedecendo a opinião de setores conservadores, reforçando a inadequação social da cena. E o primeiro beijo gay da emissora foi um leve ‘estalinho’ (Amor à Vida — 2013) colocado no ar muito tempo depois do primeiro beijo gay da telenovela brasileira que foi no SBT (Amor e Revolução — 2011), um beijo sensual e acalorado que durou dez vezes mais que o tardio beijo global. Ou seja, fica questionável o seu pioneirismo ou envolvimento genuíno com a causa.

Além da total inadequação de tratar o Grupo Globo como progressista em relação a questão sexual, o texto de Brum parece dissociar esse aspecto dos demais. Ao listar as ações antidemocráticas da emissora na luta de classe, no apoio ao neocolonialismo e de outros aspectos do combate ao patriacardo (como o racismo nas telenovelas ou no livro de Ali Kamel) a jornalista os trata como fatos paralelos e independentes. Ao comparar com a Record, sua concorrência de audiência, Brum esquece que todos os oligopólios da mídia são de direita e conservadores (Folha, Abril, Globo, Band, SBT, Record) independente de que marketing eles assumam para atrair determinados segmentos.

A moral pseudomoderna da família neoliberal Global ou a família condicionada a Deus da Record, não são tão passíveis de dissociação, pois vimos a união de todos esses grupos quando o objetivo foi destituir o país da democracia em 2016. Quando o objetivo é se opor à esquerda, se unir em golpes de estado e lutar pela manutenção do status quo, elas são um grande conglomerado homogêneo onde pequenos disfarces progressistas – assim como os ultraconservadores – caem em função do desejo único da manutenção de privilégios.

Quando os EUA, durante a Guerra Fria, apoiou, no Irã, o golpe de estado contra o governo democraticamente eleito do primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, cujo objetivo era trazer de volta as empresas de petróleo estrangeiras, conseguiu também unir dois grupos distintos. A implantação do regime absolutista de Reza Pahlevi contra a ameaça do partido comunista, uniu as forças da direita capitalista e sem religião do Chá com as lideranças fundamentalistas dos Aiatolás. Décadas depois, com o partido comunista extinto, o Chá e o Aiatolá começam a brigar pelo poder, até que acontece o golpe de estado dos fundamentalistas. Ou seja, os princípios mutáveis do Chá e dos Aitatolás nos lembram que a dissociação ou a conciliação de Record e Globo não serão pelos valores morais que iludiram à jornalista, mas sim pelo jogo de poder que estiver em voga — incluindo influências neocoloniais que parecem do passado, mas nunca foram extintas.

Quando o PT estava no poder, o jornalismo da Globo e da Record não se distinguiam em sua pauta de luta gradual pelo golpe de estado. Se hoje se distinguem, é porque: perderam o inimigo em comum; um fundamentalista assumiu a prefeitura do Rio e um neoliberal PSDBista a de São Paulo, simbolizando a nova disputa entre as duas empresas, agora inimigas, mas antes parceiras – e quem sabe quando voltarão a se unir de novo!

Por tudo isso, diferente de Brum, ainda acho a Record tão nociva que a Rede Globo, e não isentaria a segunda por conta da existência da primeira, por vários motivos, pois ainda que a primeira seja mais ligada ao fundamentalismo: tem audiência bem menor e com muito menos veículos de comunicação associados; é historicamente muito mais recente e, por isso, como menos crimes nas costas; não tem pessoas de esquerda defendo-a como vimos acima; os progressistas mudernos não ousam ir lá dar as mesmas entrevistas que dão no Bial (legitimando seu liberalismo de forma equivocada); não é um suicídio processar a emissora; não há tantas colunas ao seu favor em meio a um golpe de estado descrito como midiático; não consegue dissimular liberalismo com marketing fajuto de implicações sociais no estilo Criança Esperança ou por meio do espaço concedido a Pablo Vitar no programa do Faustão.

Em tempos de manipulação midiática, não é o tipo de disfarces que importa, mas a ameaça democrática verdadeira que representa a ausência de opções de esquerda nos grupos de comunicação. Enfim, depois dos gritos anônimos que vazaram por todo mundo denunciando esses oligopólios em sua postura antidemocrática e conservadora é triste ver, não só o arrefecimento das manifestações que traziam os cartazes que viraram ícones dessa denúncia, como também começar a pipocar esses textos que relativizam o papel nefasto do Grupo Globo para a história do país.

Vamos esperar os blocos de carnaval 2018 e ver na cobertura Global se os diversos textos solidários com a emissora tiveram o efeito nefasto que imagino: uma destruição da memória da condenação que a emissora teve até o início desse ano. Essa absolvição será vista em entrevistados novamente animados em falar para a vênus platinada — tão diferente da Record, cheia de afinidades com a liberdade sexual do carnaval e tão importante para que se exista publicamente na contemporaneidade brasileira. O som da percussão não conviverá mais com os gritos de "golpista" porque importantes referências da esquerda e do universo pop absolveram de forma subliminar o Grupo Globo — mais uma vez na história.

***Pouco tempo depois de publicar esse texto, o portal DCM — Diário do Centro do Mundo publica entrevista com Pedro Bial cujo o mote é exatamente o mesmo das defesas destacadas aqui. Colocam um extrato da fala do jornalista que poderia ser uma citação da coluna e Brum: “Eu ponho coisas nas redes sociais falando do programa e elas são interpretadas pela direita como se eu fosse um perigoso esquerdista, e pela esquerda como se eu fosse um fascista.”. Ou seja, tantas reincidências nos fazem pensar realmente em um projeto de autodefesa muito bem consolidado.

Gamba Junior
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