sobre depilação

Maria Gambardelli
Jul 27, 2017 · 5 min read

Tem uma história na minha cabeça sobre a primeira vez que entrei numa sala de depilação. Provavelmente é a junção das primeiras vezes mas, que de tanto eu repetir, virou uma história real. É sempre uma bosta igual.

Eu já raspava as pernas e as axilas com o barbeador do meu pai que repetia todas as vezes: para com essa merda, qual é o problema com seus pelos? E eu não sabia. Minha mãe não depila, por exemplo. Cultiva até hoje vastos pentelhos pretos e alguns pelos na axila. Às vezes ela raspa esses, outras não. Depilação do bigodinho de Hitler eu nunca vi, por exemplo. Doideira. De onde eu tirei essa bosta?

Cheguei no estúdio e a moça disse: como você vai querer? Não sabia, como é que eu ia saber? Ninguém nunca tinha me contado da nossa famosa brazilian wax e meu repertório de filme pornô era inexistente. Então falei: ahhhh tira todos! Meus pelos, coitados, ficaram grudados naquela cera meio fedida meio cheirosa, meio cheiro de mel, meio cheiro de talco.

E pra finalizar: “Vai fazer a lateral também?” Caso você não esteja familiarizado, estamos falando de cu. Gente, por que diabos eu fui impelida a depilar o meu ânus, alguém me explica? De bruços, encarando o branco da maca, senti aquela cera quente, um quentinho no cu, repetindo a experimentação ocorrida nos meus lábios, os pequenos e os grandes! Eu pensava (até meses atrás) “por que eu tô passando por isso?” A conversa com as moças depiladoras era sempre a mesma (e provavelmente também com as demais clientes): “ser mulher é foda, né? Porra, por que a gente tem que fazer isso? Homem é tão fácil”. Ué, mas eles também têm pentelhos, certo? Aí penso nos sacos que encarei na minha vida: quais eram carecas, quais eram aparadinhos. E pensando se em alguma vez no planeta eu pensei sobre o pau dos caras desse modo. “Hmmm será que ele vai tar depiladinho?” Não, né? Porque foda-se, nenhum cara que saiu pensando em transar comigo deu uma passada no estúdio de depilação antes pra chegar que nem um Ken da barbie pra mim ❤ Porque eles, no máximo, deram uma aparada nos pentelhos tal qual eu faço hoje em dia — quando lembro, quando dá, quando acho uma tesoura no banheiro.

Quando saí do estúdio, cheia de cera colada na vagina, grudando na calcinha, com a pele ardendo em chamas, senti uma imensa LIBERDADE. Sim, me senti livre pra sair fazendo sexo com qualquer um que me aparecesse, eu juro. E eu era virgem HAHA. Sinto muita vergonha desse raciocínio idiota, mas era essa a sensação. “AGORA FOI. Já posso ir a praia, já posso usar calcinha de renda, AGORA EU POSSO TUDO, PORRA, NÃO TENHO PENTELHOS, quem inventou pelos não conhece a liberdade”. Minha primeira surpresa ingrata foi que me mijei inteira no banheiro. Digo, sentei no vaso bonitinha, mas foi xixi pra todos os lados. Porque não sei se vocês sabem, mas os pentelhos anatomicamente ajudam muito a canalizar o xixi pra um canto só (e também a gravidade).

Essa cera no cu se repetiu muitas vezes na minha vida. E eu tentei fazer um levantamento de custo no cartão de crédito, procurando pelo nome de salão/estúdio, mas é impossível. Eu calculo que, em média, dos 16 (quando comecei a pagar minhas próprias contas) até ano passado, devo ter depilado uns 8 mil reais. E eu tô jogando pra baixo, jogando um preço que pagava ali em Vargem Pequena, mas não posso esquecer que já morei no Leblon, aquele bairro onde um dia entrei no salão e quando fui embora tinha menos 600 reais.

O que mais me incomoda é que se eu tivesse na lisura solteira eu não me depilava. Ou seja, obviamente que os pentelhos só iam embora pra satisfazer o desejo (?????????) do macho com quem eu ia transar/ir a praia/piscina. Que quando flertava provavelmente não dizia: MAS VOCÊ TEM A BOCETA DEPILADA, NÉ? Mas eu já tinha isso muito enraizado na cabeça, era ÓBVIO que eu não ia sair por aí fodendo toda peluda. Quando penso nisso me dá arrepio! E não é uma coisa de 1978, é uma coisa que eu fazia até 6 meses atrás!

Todas as mulheres são estimuladas, desde a infância a se depilar. Começa com o “bigode”, passa para as pernas e axilas e finalmente os pelos da virilha, que mal começam a crescer e já passam a ser extintos de uma em uma semana. Outro dia li um anúncio na porta da Pello Menos dizendo que mães que levam as filhas MENORES DE 15 ANOS têm 50% de desconto. Uau.

Pelos em mulheres, por mais naturais que sejam (ou alguém conhece uma mulher que implanta pentelhos para agredir o patriarcado?) não são aceitos aqui. Na hora do vamos ver, não conheço uma pessoa que exclua parceiros sexuais da lista por motivo de pentelho, então parece que é uma questão estética. Uma questão de querer uma vulva que pareça com aquelas que você já conhece. Uma questão de não aceitar o que é diferente do que você está acostumado a ver todos os dias, desde que você nasceu, que são mulheres sem pelos, até em filmes e seriados que se passam em uma ilha deserta ou em 600 A.C. onde/quando definitivamente não existia gilete ou cera de depilação. O que nos faz raciocinar que, na verdade, mulheres não têm pelos, que somos ETs e precisamos nos adequar aos demais terráqueos, que quando se enquadram no modo “mulher” de ser, precisam brecar os avanços da idade, não só se depilando, mas também colocando silicone ou preenchimento artificial onde deveriam formar-se rugas. Parece que o mundo foi feito para mulheres de até 20 anos, com poucos pelos (ou coragem e submissão o suficiente para se depilar), peitos durinhos e sem rugas.

Estamos indo de encontro com o que é natural e pregando que esse é o normal. Estamos criando meninas que se sentem “melhor” depois de uma sessão de tortura na maca da depiladora, que se sentem “mais limpinhas” sem pentelhos, que acham que vão ficar fedendo se tiverem pelos no sovaco e que ignoram o fato de que só nós, mulheres, somos obrigadas a nos encaixar nessa luta. É triste ter que argumentar sobre isso, ter que justificar o funcionamento natural do seu corpo, porque há milênios nos fazem acreditar em falsas verdades estúpidas ligadas a estética e a soberania do macho no mundo.

Enxergo hoje a brazilian wax como um flagelo. Uma vagina depilada é uma vagina flagelada. É uma vagina infantilizada a força, esterilizada. Hoje me vejo no espelho com meus pentelhos marcando presença e me sinto adulta. Diferentemente da adulta que me senti ao tirá-los. Me sinto dona das minhas próprias escolhas, uma mulher não domesticada. Porque uma vagina depilada é uma vagina domesticada.

*esse texto tem coautoria da maravilhosa @isafreire

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