vinte e sete.

tava conversando com ele sobre os malefícios da pílula. você sabe, sou hoje a maior entusiasta do DIU de cobre, da camisinha, do billings e de qualquer método que não te enfie hormônios fígado abaixo.

tava explicando que além de acabar com a minha libido me fazendo fugir de quando ele chegava em casa do futebol (coisa que sempre foi pra mim o auge, transar com ele sujo de chuteiras), a pílula me largou umas celulites e estrias que nunca tive. conversa boba, eu sendo escrava da sociedade que me exige um corpo escultural, uma bunda em pé, dura, lisa, sem nenhum furico (já tivemos) e ele me ouvindo numa boa achando exagero a parte do “acabou com meu corpo” mas afirmando que:

“mas é um pouco por causa da idade também, né, Maria”.

na hora dei um ataque que me é peculiar e uma neurotizada no maior estilo totalmente vazio de sentido retrógado e coberto por uma competição feminina contra a qual a gente luta (tento, toda hora) contra: “vai lá procurar uma novinha melhor que eu então”.

a real é que eu sei onde a coisa pega. eu sei exatamente o que me machuca nisso. e infelizmente não é ele achar que eu já sou ‘meio velha’, que eu já tô ‘meio acabada’, que com 27 anos eu já posso me considerar mais coroa que adolescente (tadico, ele nem disse isso, mas é o que nesses 2 frames entre ele falar e eu receber a mensagem já aconteceu uma porrada de coisas — desculpa, mãe) inclusive os conceitos que tão nessa fala por conta dessa sociedade mara que ele, eu e você fomos criados.

o que pega aqui é que eu de fato concordo com isso, lá dentro de mim. eu me olho no espelho e não aceito facilmente que vou fazer 30 daqui a três anos, porque eu tento, juro, achar que ‘cada idade tem a sua beleza’. eu defendo isso, digo isso pra mamãe (que é uma das pessoas que melhor lida com o envelhecer que eu conheço, embora outro dia tenha deixado de sair com uma blusa que mostrava os bracinhos porque mostrava os bracinhos e eles já não são fortinhos e musculosos como os meus ou os de uma pessoa de 20 anos — ela tem 63) todos dias. luto por essa aceitação da idade, do corpo, luto pra gente fugir desse corpo perfeito, desses dentes brancos (fiz clareamento há três semanas) e dessa barriga chapada (fiz massagem modeladora há duas). luto pra entender que 30 anos é uma idade maravilhosa e não uma falta abundante de colágeno. entendo que o tempo passa, me livro das cobranças, como banana com pasta de amendoim no meio da madrugada mas, sim, a coisa pega porque eu ainda não entendi que foda-se a celulite, a estria, a bunda que não é mais em pé que nem a das novinhas.

eu não entendi porra nenhuma ainda. eu só tento e cago regra. é inclusive por isso que esse texto era pra tratar como a sociedade machista patriarcal tornou meu namorado alguém tão foda mas ainda tão “com 30 anos ela já vai tar velha” e virou um texto de como EU SOU ALGUÉM QUE PENSA ISSO, AINDA.

melhoremos.

depois da próxima carbox?