A ideia de uma Exposição Colonial Portuguesa
Apresentação
O que se pretende desenvolver em este trabalho é uma analise, enfocado em a I Exposição Colonial Portuguesa, da imagem colonial dos territórios periféricos apresentada por o Estado Novo durante este evento. A analise vai ser realizada a partir do conceito sentido colonial[1], o qual permite abordar criticamente um dos principais questionamentos da aula Memória e Identidade, “porque questionar a historia, a memória e a identidade?”.
Para o caso analisado, se observará como as narrativas de exaltação do destino histórico da nação portuguesa, em relação com seus territórios coloniais, surge como um processo de reconstrução das principais dinâmicas históricas, restituindo uma memória histórica orientada a fortalecer o sentido de identidade. Nesta medida, as narrativas promovidas por o Estado Novo, associadas à comemoração, permitiriam ligar um passado heroico para consolidar a identidade imperial, incluindo uma continuidade entre esse passado com o presente e o futuro. Sendo assim, a comemoração se converte em uma estrutura que da continuidade a um passado comum através de uma reivindicação explícita dessa continuidade.
Considerando estas ideias, o trabalho está organizado em dois secções divididas na seguinte forma. A primeira, Aproximações iniciais, metodologia: História, Memória e Identidade é introdução ao enquadramento teórico. A segunda secção, Ícones, aborda sistematicamente as dois fontes de informação utilizadas: 1) a Conferência “A função Colonial de Portugal” apresentada por Henrique Galvão em 1934, e 2) uma fotografia do Monumento “Ao esforço Colonial Português” o qual estava localizado na entrada da Exposição. A seleção destas fontes é produto de seu valor simbólico em quanto aos valores que apresentam. A conferência de Henrique Galvão ilustra a mentalidade colonial e sua correlação com os valores identitários do sentido colonial, atribuindo-lhe um valor e um contexto às colonias dentro das narrativas históricas e nacionalistas. Por outro lado, o monumento é a expressão da dita mentalidade, na qual se consolida uma memória que ainda hoje persiste, localizando-a dentro da mesma lógica, no centro da praça do império.
1. Aproximações iniciais, questionamentos: História, Memória e Identidade.
”Portugal, o mais antigo dos países colonizadores, o pais que atravez das suas descobertas deu novos mundos ao mundo vai a apresentar na sua Exposição Colonial Nacional, não só os resultados brilhantes de seu esforço e actividade modernos, como também os seus métodos coloniais originalíssimos, reorganizados e valorisados por uma Política de resurgimento nacional.”[2]
Quando iniciei a procura das fontes e da bibliografia para este tema, um dos elementos que chamou minha atenção eram as narrativas pelas quais se anunciava a realização da exposição. Eram uma espécie de bricolage conceptual, como se pode ler no encabeçado desta pagina, onde se misturava o passado com o presente através de uma exaltação de uma ideia colonial. Este elemento me foi levando a questionar essa ideia, o que eram as colonias durante um período caracterizado por sua ênfase no nacionalismo, o que o fazia tão original, em grandes rasgos estava questionando a imagem que se estava apresentando, sua simbologia.
Adicionalmente, também aconteceu outro fator (que considero pertinente para esta narrativa por sua peculiaridade) e foi uma serie de emails que recebi da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras, nos quais havia uma clara alusão a um passado de grandeza histórica para fomentar a unidade comunitária, o que Eduardo Lourenço chamava em seus ensaios a saudade imperial como sentimento de identidade. O elemento em si era igual, utilizar um passado como um grande acontecimento para reivindicar um presente, era construir uma identidade e uma filiação grupal através de uma memória; o qual era muito parecido com o que acontecia na década de 1930 com a instauração do Estado Novo e seu imaginário de identidade nacional. Considerando esses elementos tomei o principal questionamento da disciplina Memoria e Identidade, “porque questionar a história, a memória, e a identidade”, como uma guia para iniciar uma abordagem crítica ao que estava acontecendo.
A questão era entender a influencia do sentido colonial na construção do imaginário nacionalista do Estado Novo durante a I Exposição Colonial Portuguesa. Tomei o conceito de sentido colonial como uma estrutura de significação, na medida que lograva abarcar a complexidade do termo colonial devido a que se converte em uma narrativa de justaposições entre uma perceção de metrópole e de um território periférico, na qual não se pode escrever sobre um sem considerar ao outro. Uma simples leitura do conceito o envolve em um imaginário de dupla imagem, um jogo semiótico no qual as significações passam de um lado para outro gerando diversas narrativas. Agora, quando lhe acrescentamos o termo sentido a estrutura muda, se converte em um discurso com um objetivo, um interesse que geralmente termina convertendo-se em um discurso hegemónico. Um exemplo do mencionado é o encabeçado da página anterior, no qual palavras como “países colonizadores”, “seus resultados”, “esforço e atividades”, “métodos”, e “Política de resurgimento” evocam exatamente um lado da narrativa, é uma parte do sentido e da significação orientada à metrópole, mas, onde estão as colonias dentro de esta narrativas?
Uma leitura parcial as mostraria como objetos sujeitos a essa significação, tal como é exposto no mapa propagandístico (da mesma época) “Portugal não é um país pequeno” (Mapa 1.) onde se observa uma sobreposição territorial das colonias no espaço continental europeu. As colonias estão ao serviço de uma narrativa de grandeza que devia gerar uma memória e perceção da importância dos territórios, amplitude e unidade. Desta associação ressalta sua associação com a ideia nacionalista de consolidar um imaginário de unidade, o que seria parte da aquela Politica de ressurgimento e de organização promovida por o novo regime.

Outro elemento que se deve destacar do encabeçado são as referencias históricas, “o mais antigo dos países colonizadores”, “deu novos mundos ao mundo”, onde se enquadra o sentido colonial. É comum que estas referencias estão associadas a dois conceitos, a missão civilizacional e a missão histórica, as quais fazem referencia explicita a um momento, novamente a saudade do império, um momento de grandeza. Desde esta ótica se observa uma clara alusão à Política de Ressurgimento, que enquadrava a ideia de unidade como centralidade e especificidade do caso português. Era um intento por apreender a forma de administrar os territórios periféricos dentro da unidade orgânica da nação. Este elemento repercute nos territórios coloniais, exaltando a especificidade do caso português, onde a visão lusotropical permitia integrar essa alteridade colonial na medida que pudessem ser organizados dentro de uma visão hegemónica. É importante ressaltar que o novo regime que se estabelece com o Estado Novo têm um fator diferenciador com os períodos anteriores. Este regime buscava legitimar-se, desde um sentido colonial, através da assimilação dos outros coloniais, logrando a harmonia entre a missão civilizacional e histórica da metrópole e o destino dos territórios coloniais.
A breve síntese anterior permite ilustrar uma aproximação à história como diálogo e como problema. Desde esta perspetiva o que se procura é mostrar como “narrar” a história é uma dinâmica social enquadrada em uma temporalidade e em um espaço. Portanto, o enquadramento teórico estive centrado em dois expressões de Marc Bloch. Na primeira se entende a história como uma visão dos espetáculos humanos, o qual localiza ao observador e ao objeto observado. Em palavras do autor, “Cada vez que nuestras […] sociedades […] empiezan a dudar de sí mismas, uno las ve preguntándose si han tenido razón en interrogar al pasado o si lo han interrogado bien.” (Bloch, 2001: 42–43).
A segunda expressão de Bloch está relacionada com a forma em que o observador desenvolve uma “conciencia de que el hecho histórico no es un dato “positivo”, sino el producto de una construcción activa de su parte, para transformar la fuente en documento y luego constituir esos documentos y esos hechos históricos en problema” (Bloch, 2001: 15). O enunciado anterior já mostra um processo, uma lógica para atribuir uma interpretação ao fenómeno que se está analisando. Com esta ideia, já podemos interpretar desde que ótica queremos observar, o foco que vamos a utilizar para dar sentido a nossa interpretação, na qual considero (para este trabalho) se circunscreve dentro da área da história das mentalidades, definida por Robert Mandrou, como “la reconstitution des comportementes, des expressions et des silences qui traduisent les conceptions du monde et les sensibilités collectives; représentations et images, mythes et valeurs, reconnus ou subis par les groupes ou par la société globale” (Ricoeur, 2000: 247).
Desde esta área, tipificar uma perceção do mundo e sua sensibilidade coletiva se converte em uma observação de como se reconstrui uma realidade por um grupo social, quem faz parte e que sentido adquire. Sendo assim, esta história se vincula com a memória na medida que procura identificar a lembrança como um símbolo de uma historia comum. Para o caso da Exposição Colonial Portuguesa se observa uma lembrança de uma historia imperial e sua intencionalidade de a vincular com um presente e um futuro. Por outro lado, desde a perspetiva do sentido colonial (herdeiras das ideologias do Darwinismo Social do século XIX) as colonias eram um espaço de poder que mostrava os resultados da grande obra civilizacional, no qual se observa uma hierarquização civilizacional. Neste sentido, a missão histórica e civilizacional da metrópole é um marco de referencia para o processo civilizacional dos territórios coloniais.
Em esta medida, o fenómeno a analisar é um constructo social no qual a formação de quadros de filiação é o mais importante, especialmente dentro de uma narrativa nacionalista. Para o caso português é explicito promover uma unidade, consolidar um imaginário de unidade orgânica onde todos os territórios constituem o Império. Mas este imaginário se circunscreve em um período histórico onde se exaltam valores e tradições que gerem orgulho e coesão, por tal a memória serve como mito fundacional. Essa característica nos leva a uma definição inicial de memória segundo Pierre Nora, na qual “What we call memory is in fact the gigantic and breathtaking storehouse of a material stock of what it would be impossible for us to remember, an unlimited repertoire of what might need to be recalled” (Nora, 1989: 13).
O que deve ser lembrado?, essa é nossa questão. Desde esta perspetiva a memória é uma associação comunitária com referentes comuns, nos quais qualquer membro da sociedade imperial consiga ser parte do conjunto, é uma formação de códigos, condutas e perspetivas coletivas que determinam a capacidade de ação individual.
Maurice Halbawchs, desde sua obra Les Quadres Sociaux de la mémoire ilustra como o processo individual de entender uma apreensão do espaço e tempo está determinado por o grupo social ou esferas de relacionamento de cada individuo. A memória é percebida como uma relação continua entre as diferentes esferas da sociedade, é um discurso no qual “la classe sociale […] est caractérisée come tout groupe par un système de représentations dominant, mais l’espèce particulière de groupe qu’est la classe est d’abord un système de représentations dês valeurs centrales (et changeantes) de la société. La classe sociale en effet est représentation dês valeurs qui organisent un système hiérarchique en même temps qu’elle est représentation d’elle-même dans cette hiérarchie” (Halbawchs, 1994: 322).
Margaret Mead estabelece uma relação similar desde as esferas relacionamento; uma memória como código de adesão a uma classe social estabelecida por os membros de uma comunidade. Sua perspetiva, mostra como nas primeiras formas de relacionamento entre os membros de uma comunidade, são os Outros que brindam as pautas do que está permitido e o que não, sendo as instituições que delimitam a ação individual para permitir-lhe ser parte.
Para o caso da Exposição estes elementos são fundamentais porque temos dois classes sociais que devem integrar-se, uma área metropolitana e os territórios coloniais. O espaço de representações cumpre uma “lição prática de história” na medida em que integra estas esferas distantes em um espaço de quotidianidade dos outros coloniais para que se convertam em referentes de um espaço comum. Neste contexto a memória se converte em história, é um espetáculo no qual o público durante sua visita ingressa em mundo distante que lhe é familiar por as narrativas de seu passado, um passado reconstruído segundo a sua funcionalidade com o presente.
Por outro lado, as comemorações são lugares de memória, são lugares que contribuem através “da pedagogia cívica manifestada nas ritualizações públicas, para a configuração ideológica e mental dos nacionalismos” (Castro Leal, 1999: 51). Na Exposição Colonial a ideia era fazer percorridos imperiais atravessando os estados naturais das sociedades “descobertas” e as ligando com uma metrópole civilizada –os resultados-.
Isto se evidencia em que se procure uma mostra da cultura material, elementos nos quais o público possa descobrir os significados fácticos[3], as principais formas de seu território. Não obstante, qualquer objeto ou representação têm outro grupo de signficados (seguindo o processo de analise iconográfico de Panofsky), o significativo expressivo[4] que vai ser determinado por a narrativa hegemónica, novamente um sentido. A memoria coletiva está inserta dentro do imaginário metropolitano de estabelecer uma relação de dominação simbólica, se apresentam os nativos em seu estado de selvagismo para fazer contraste com a grande obra civilizacional. É explicito, se deve construir um fator de comparação que permita legitimar uma presença.
Agora, este conjunto de significados deve ser pensado desde outro quadro, a memoria histórica, problematizada a partir de como os grupos sociais “elaboraron unas concepciones y un espíritu que reina- con algún tiempo sobre toda la sociedad, retroceden pronto y hacen sitio a otros que sostienen a su vez, durante un período, el cetro de las costumbres y dan forma a la opinión según nuevos modelos” (Halbawchs). A memoria histórica vamos a vê-la como uma dinâmica de lembranças dos grupos sociais com os principais referentes que permitem seu relacionamento e coesão. Tal como foi visto com os exemplos de Margaret Mead, é um constructo social de referenciação dos marcos nos quais cada sujeito pode ser parte de um grupo mediante o compartimento de experiencias coletivas.
O Acto Colonial é um bom exemplo destas ideias. Este documento foi a expressão máxima da Politica de Ressurigemento na área colonial elaborada durante a década de 1930 por o Estado Novo, o qual era um claro distanciamento das perceções coloniais elaboradas durante a I República e o liberalismo do século XIX. Segundo este documento, estabelecido em seus principais artigos[5], é explicita essa reconstrução da memoria histórica centrada nas palavras chave de “função histórica de possuir”, “civilizar”, “influência moral” e “Império Colonial Português”. É uma memoria metropolitana de “expandir” sua civilização e cujos territórios compõem uma unidade. É uma reafirmação, o ressurgimento da identidade imperial.
E isto nos leva a última área de questionamento, a identidade como o reconhecimento e apreensão da representação do sentido colonial. A identidade em este período está baseada nos “três pilares” da nação deus, pátria e família com os quais se devia apresentar o conjunto de valores e tradições que definiam a alma portuguesa. A identidade apresentada na triada, se definia a partir de “Deus como principio orientador, a pátria e a família como elementos aglutinadores, onde se manifesta a solidariedade e o dever; o trabalho como contributo individual para o bem coletivo; a autoridade como elemento mediador entre os indivíduos e os valores que estão para lá deles” (Cunha, 2001:70).
Esta identidade é uma construção social baseada numa verdade, legitimada por uma narrativa histórica que deve ser apreendida como parte de uma memória coletiva. Mas o que chama a atenção é a centralidade do governo como discurso verdadeiro, no qual “o Estado, sem se arrogar a posse exclusiva duma verdade absoluta, pode e deve definir a verdade nacional –quer dizer, a verdade que convém a Nação”[6]. E a verdade do sentido colonial era encontrar sua funcionalidade respeito à metrópole, fosse em termos económicos como culturais (civilizacional) e politico. Desde a visão centralista o que terminaria sendo o sentido colonial seria um outorgamento, brindar-lhe aos “povos” atrasados” uma língua, uma fé e uma história “superiores”, Portugal os faria participar da sua própria identidade (Cunha, 2001: 106).
2. Icones
2.1. A Função Colonial: uma lição prática de história
O primeiro texto que apresentaremos é a Conferencia “A função Colonial de Portugal” elaborada por Henrique Galvão[7] em 1934 como parte dos conteúdos da I Exposição Colonial Portuguesa. Como é mencionado por o próprio autor, a conferencia se inscreve dentro do “programa de ação” da Exposição, no qual “a Exposição não podia limitar-se a ser uma demonstração estética do nosso esforço e das possibilidades, tal como no Palácio das Colónias foi realizada. Têm que atingir profundamente todos os espíritos, formar uma consciência onde existe apenas um sentimento ou uma intuição, divulgar os conhecimentos que conduzem ao amor e ao intêresse pelas grandes causas –deve ser enfim, uma obra vasta de propaganda […] que possam envolver os espíritos mais curiosos e as almas mais exigentes quanto à formação de seus ideais” (Galvão, 1934: 7).
Considerando essa ideia, a conferencia oferece um panorama geral de como esta inter-relacionada a função colonial com o sentimento nacionalista. Desde esta perspetiva o que procura o autor é apresentar diferentes elementos da importância dos territórios coloniais para a metrópole, desde um sentido histórico, económico e territorial.
Respeito ao sentido histórico, Galvão mostra uma relação entre o colonialismo e a história de Portugal, procurando ressaltar a particularidade do caso português por a presença de uma alma colonizadora. Sua visão incorpora o processo de independência e a cruzada contra os Mouros, a expansão de seus territórios e assentamento de suas fronteiras, como o inicio de sua alma colonizadora, um interesse em colonizar novos lugares. Posteriormente, produto de uma continua disputa com Espanha e ante o constante fortalecimento do vizinho, o autor expressa que o sentido natural deste povo era sair na conquista do mar, elemento que permitiria exaltar o reconhecimento como pais colonizador através de suas novas descobertas, a expansão de seu mundo. Neste sentido têm sentido sua referencia ao Dr. Agostinho de Campos na qual estabelece como a singularidade do colonialismo português medido por seu “grande mérito”, no qual “sua originalidade evidente e revolucionaria a historia da civilização, consistem no caracter sistemático, consciente, nacional, que os portuguesas, antes que outro povo moderno, conseguiram da à tarefa, tão complexa, de descobrir e penetrar regiões desconhecidas, de comerciar com elas e colonizá-las, dando a todo êsse longo esforço a amplitude de uma emprêsa de Estado (Galvão, 1934: 21).
Mas essa história e capacidade de um povo de navegadores e descobridores devia justificar a presença, a administração dos territórios periféricos. Desde esta visão, entra outra singularidade do caso português, que posteriormente seria retomado por Gilberto Freyre e sua forma de entender o colonialismo português desde uma visão lusotropical. Esta expressão pode encontrar em Galvão uma relação em sua afirmação “fomos mundo fora, colonizar terras distantes, como tínhamos colonizado terras portuguesas tão semelhantemente, tão iguais a nós próprios, no tempo e no espaço, que um dos traços da colonização portuguesa que havia de eternizar-se e que constitui carácter único e original entre povos colonizadores, é exatamente a reconstituição do meio social, policio e económico da Metrópole, nas terras que íamos ocupando” (Galvão, 1934: 16–17).
A função económica da colonia está ligada à grande obra civilizacional, enquadrada na unidade orgânica de um mercado ativo entre a colonia e a metrópole. O contexto europeu da década de 1930 estava concentrado na crise económica onde o fortalecimento colonial era visto como uma dinâmica económica na medida que permitia um comercio ativo entre a matéria prima e os produtos manufaturados da metrópole. Desde esta perspetiva, o fortalecimento da economia nacional era um processo simbiótico, que precisava que o público metropolitano também entendesse esta lógica, que conhecesse seus territórios. Posteriormente este processo se veria materializado nas viagens coloniais, a propaganda de fazer rotas de reconhecimento do “além do mar”.
Por outro lado, se evidencia uma preocupação de Galvão de entender a Portugal desde o contexto europeu, qual era seu lugar. Para o autor, fazendo alusão ao povo português, “Nós valemos na Europa pela nossa posição colonial (Galvão, 1934: 23), na qual “As colónias na sua união imperial com a metrópole, feitas terras portuguesas pela política e pelo sentimento geral da Nação, ordenadas e desenvolvidas no próprio ritmo em que se erguem as províncias da Metrópole- são a razão politica da nossa existência internacional e da nossa posição de rêlevo como pais europeu” (Galvão, 1934: 25).
2.2. O esforço colonial: memória histórica

O monumento ao esforço português pode ser entendido como a materialização de todo o que foi apresentado em este trabalho. Inicialmente sua composição, a qual evoca uma imagem piramidal onde sua base vai conformando uma espécie de escalas piramidais que permitem entender um conjunto, uma unidade orgânica. Logo, o espaço ocupado por as personagens evoca os principais símbolos colonias, evocando aquelas pessoas que foram parte do processo de construção colonial (o militar, o missionário, o comerciante, o agricultor, o médico, e a mulher). E finalmente na cúspide, o escudo português, coroando a unidade.
Em quanto a sua localização, no centro da praça do Império ao frente do Palácio das Colonias, era a entrada principal da Exposição. Este fator permite fazer múltiplas interpretações, mas pode ser visto como um convite à majestuosidade do império desde sua simpleza. Adicionalmente marca o inicio da rota, o é um caminho que convida a ser percorrido. Também se pode fazer outra interpretação desde a narrativa implícita do monumento, na qual este monumento procurava brindar a harmonia à Exposição, lembrar como havia sido construído o império, era deixar uma marca na memória de cada visitante.
Desde esta perspetiva, o monumento pode ser lido como uma forma de observar os espetáculos humanos, dar-lhe um diálogo histórico, que permitisse ver que na “Historia o passado não é inerte –espécie de recheio arrumado na montra dum museu. É sempre uma causa –a causa dum presente e dum futuro.” (Galvão, 1934: 18). O sentido colonial é um vínculo entre um passado, era uma continuidade em um presente que exaltaria os novos tempos, uma nova unidade imperial.
Finalmente o que me parece particular é que a localização atual do monumento permite a mesma dinâmica, localizando-se na atual Praça do Império na entrada à zona da Foz do Douro (Porto). Tal como a Imagem 2 o mostra, o percorrido é igual, um centro que é percorrido mediante um caminho guiado por uma serie de triângulos na calçada as quais fazem um percorrido duplo entre quem ingressa e que sai, uma nova narrativa levam ao centro do Império, a uma memoria enriquecida por sua história que fica atenta de novos valores, de novos sentidos.

3. Bibliografia Geral
- Fontes
Documentos Oficiais
ü Ministério das Colonias. Secretaria Geral. “Decreto No. 18.570. Acto Colonial”, In Diário do Governo, I Serie, Número 156, 8 de Julho de 1934. Lisboa: Imprensa, Nacional de Lisboa, pp 1308–1319. Versão online disponível em http://dre.pt/pdfgratis/1930/07/15600.pdf (Consultada o 25 de Abril de 2012).
- Conferencias
ü Galvão, Henrique (1934). A função colonial de Portugal: razão de ser da nacionalidade: conferência. Porto: Imprensa Portuguesa.
- Fotografias
ü Do Porto e não so[8]. http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/10/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos.html (Consultada o 11 de Março de 2012).
ü Alvão, Domingos Espírito Santo. (1934). Fotografia do Monumento ao Esforço Colonizador Português. Imagem extraída do arquivo municipal do Porto, disponível em http://gisaweb.cm-porto.pt/units-of-description/documents/47362/?q=exposição+colonial (Consultada o 15 de Maio de 2012).
ü Álbum Comemorativo da Primeira Exposição Colonial Portuguesa, Porto, Litografia Nacional, 1934.
- Bibliografia Geral
ü Bloch, Marc. –Trad. Traducción de María Jiménez y Danielle Zaslavsky (2001). Apologia para la historia o el oficio del historiador. México: Fondo de Cultura Económica.
ü Leal, Ernesto Castro.(1999) Nação e nacionalismos. A cruzada nacional D. Nuno Álvares Pereira e as origens do Estado Novo (1918–1938), Lisboa: Edições Cosmos.
ü Connerton, Paul (1993) — Como as sociedades recordam. Oeiras : Celta Editora.
ü Cosgrove, Denis; Daniels, Stephen (Eds) (1989) — The iconography of landscape : essays on the symbolic representation, design and use of past environments. Cambridge : University Press.
ü Halbawchs, Maurice. (1994) Les cadres sociaux de la mémoire. Paris : Mouton.
ü McClintock, Anne (1995) — Imperial leather : race, gender and sexuality in the colonial contest. London : Routledge.
ü Nora, Pierre. “Between History and Memory In Representations”, In Special Issue: Memory and Counter-memory, No 26 (Spring 1989), pp 7–24.
ü Panofsky, Erwin. –Trad. Enrique Lafuente Ferrari- (1961). Estúdios sobre iconologia. Madrid: Alianza Editorial.
ü Ricoeur, Paul, (2005) — La mémoire, l’histoire, l’oubli. Paris : Seuil.
ü Ricoeur, Paul, -Trad. M.F. Sá Correia- (1988)- O conflito das interpretações : ensaios de hermenêutica. Porto : Rés Editora Lda.
ü Sanchez, Manuela Ribeiro (Org.) (2006). Portugal não é um país pequeno : contar o império na pós-colonialidade. Lisboa : Cotovia.
ü Sewell Jr., William H. (2005) — Logics of history : social theory and social transformation. Chicago : Chicago University Press.
ü Spivak, Gayatri Chakravorty (1999) — A critique of postcolonial reason : toward a history of the vanishing present. Cambridge : Harvard University Press.
Bibliografia adicional
Exposições
ü Acciaiuoli, Margarida. Exposições do estado novo: 1934–1940. Lisboa: Livros Horizonte, 1998.
ü Corkill, David; Pina Almeida, José Carlos. “Commemoration and Propaganda in Salazar’s Portugal: The Mundo Português Exposition of 1940” In Journal of Contemporary History July 2009 vol. 44 no. 3 381–399. Versão online disponível em http://jch.sagepub.com/content/44/3/381.abstract (Consultada o 30 de Janeiro de 2012).
ü Léonard, Yves. “Le Portugal et ses “Sentinelles de pierre”: L’Exposition du Monde Portugaise en 1940” In Vingtième Siècle. Revue d’Histoire, No. 62 (Apr-Jun) 1999, pp 27–37.
ü Lira, Sérgio. Museums and Temporary Exhibitions as means of propaganda: the Portuguese case during the Estado Novo. Dissertação de Doutoramento em Museum Studies no Department of Museum Studies da Universidade de Leicester, 2002. Versão online disponível em: http://www2.ufp.pt/~slira/ (Consultada o 29 de Janeiro de 2012).
ü Lira, Sérgio. “Politics and Propaganda in Portuguese Museums and Temporary Exhibitions during the Estado Novo” In Museological Review, Issue 7, 2000, pp 42–55. Versão online disponível em: http://www2.le.ac.uk/departments/museumstudies/documents/museologicalreview/MR-7-2001.pdf (Consultada o 20 de Janeiro de 2012).
ü Vargaftig, Nadia “Les expositions coloniales sous Salazar et Mussolini (1930–1940)” In Vingtième Siècle. Revue d’histoire No. 4/2010 (n° 108), p. 39–52.
Versão online disponível em: www.cairn.info/revue-vingtieme-siecle-revue-d-histoire-2010-4-page-39.htm (Consultada o 16 de Dezembro de 2011)
Ideologia, identidade e imaginário imperial
ü Cunha, Luís. A nação nas malhas da sua identidade : o Estado Novo e a sua construção da identidade nacional. Porto: Edições Afrontamento, 2001.
ü Malheiro da Silva, Armando. “La Nation Portugaise. Mythanalise et récurrence” In Congrès Journées d’Étude Mythe et Nation, Université de Grenoble, 1995, No. 15, p. 89–142. Versão online disponível em: http://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/52279 (Consultada o 27 de Janeiro de 2012).
ü Sapega, Ellen. “Image and Counter-image: The place of Salzarist images of national identity in contemporary portuguese visual culture” In Luso-Brazilian Review, Vol 39, No 2 (Special Issue: Portuguese Cultural Studies) 2002, pp 45–64.
[1] Para este trabalho o conceito sentido colonial vai ser entendido como um símbolo criado desde a metrópole para categorizar e brindar-lhes uma significação aos territórios periféricos. Nesta forma, símbolo vai ser entendido a partir da definição de Paul Ricoeur, na qual um símbolo é “toda estrutura de significação em que um sentido directo, primário, literal, designa por acréscimo um outro sentido indirecto, secundario, figurado, que apenas poder ser apreendido através do primeiro” (Ricoeur, 1988: 14).
[2] Cartaz publicitario da I Exposição Colonial Portguesa, Extraido de http://purl.pt/22849/2/ct-5720-v_PDF/ct-5720-v_PDF_24-C-R0150/ct-5720-v_0000_1-2_t24-C-R0150.pdf (Consultada o 12 de Maio de 2012).
[3] O significado fáctico é definido como o processo no qual o objeto é “aprehendido sencillamente al identificar ciertas formas visibles con ciertos objetos conocidos para por la experiencia prática, e identificando el cambio en sus relaciones con ciertas aciones o acontecimientos” (Panofsky 1962: 13).
[4] Um significado expressivo é uma forma de interpretar o objeto na qual “es aprehendido, no por la simple identificación, sino por “empatia”. Para comprenderlo necessito una cierta sensidbilidad, pero esta sensibiidad es todavia parte de mi experiencia prática, esto es, de mi familiaridad quotidiana con objetos y aciones.” (Panofsky, 1994: 14).
[5] A continuação se apresentam os mencionados artigos. “Acto Colonial. Título I. Das Garantias Gerais. Artigo 1º. A Constituição Política da República, em todas as disposições que por sua natureza se não refiram exclusivamente à metrópole, é aplicável às colonias, com os preceitos dos artigos seguintes. Artigo 2ª. É da essência orgânica da Nação Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas que neles se compreendam, exercendo também a influência moral que lhe é adscrita pelo Padroado do Oriente. Artigo 3º. Os domínios ultramarinos de Portugal denominam-se colónias e constituem o Império Colonial Português. O território do Império Colonial é o existente à data da publicação dêste diploma. Parágrafo Único. A Nação Portuguesa não renuncia aos direitos que tenha ou possa vir a ter a qualquer outro território colonial. (Ministério das Colonias, 1930: 1309).
[6] Decreto Nº 21.103 de 7 de abril de 1932. Referenciado em Cunha.
[7] Henrique Galvão (1985–1970). Foi um militar ao serviço do Estado Novo, acreditador da missão civilizacional. Sua carreira estive ligada às colonias, inicialmente como parte do corpo militar, e posteriormente como Alto funcionário, sempre vinculado ao território de Angola. Em 1934 foi o nomeado Diretor da I Exposição Colonial Portuguesa por seu amplo conhecimento dos territórios coloniais.
[8] Blog no qual se encontram diversos temas associados com a cidade de Porto, entre os quais se encontra uma artigo, não académico, referido à I Exposição Colonial Portuguesa onde se mostram diversas fotografias e imagens do evento.