Nativos e exposições

Apresentação

Em 1934 na cidade de Porto se realizou a I Exposição Colonial Portuguesa a qual era uma apresentação dos territórios coloniais de Portugal. Durante este evento o público metropolitano tive a oportunidade de recorrer as diferentes colonias, ter um contacto direto com a diversidade cultural que conformava o império, todo enquadrado em um discurso propagandístico que procurava ser uma “lição prática de história”. O desenho da exposição era uma replica dos modelos expositórios das grandes exposições universais influenciado, principalmente, pela Exposição Colonial Internacional de Paris –realizada em 1931-, na qual a mostra cultural se havia caracterizado por a presença de nativos –o que os críticos mostravam como os zoos humaines- fazendo uma clara alusão no contraste civilizacional como um mecanismo de reiteração das missões civilizacionais dos estados imperiais. Considerando este objetivo, a exposição portuguesa exaltou o exotismo de suas colonias apresentando replicas dos habitats e trazendo nativos, complementado por uma mostra de cultura material na qual se observava uma mistura de civilização e de processo civilizacional, exaltando o processo de assimilação como uma característica do colonialismo português e de seu reconhecimento e capacidade de adaptação em diversos ambientes.

Desde esta perspetiva a exposição era uma paisagem imperial[1], que brindava uma imagem ao público, aproximava simbolicamente uma visão do que era a alteridade colonial. Neste jogo, cada espaço colonial é apresentado segundo o sentido imperial, segundo sua função e aproximação ao civilizacional. Para o caso da Guiné, a aproximação parte de seu vínculo entre o exotismo e o indígena, uma tentativa de assimilação que oculta a constante historia de confrontações entre metropolitanos e nativos ao redor dos assentamentos coloniais. Portanto, a referencia a Guiné é simplesmente um território passivo, idealizando um convívio harmónico entre raças, tal como o mostra a cartilha do Álbum-Catalogo da Exposição “A Guiné portuguesa é um repositório de valiosos subsídios étnicos e morais das raças […] xadrez de raças, tôdas elas cheias de inusitado e de usos e costumes típicos, definem psiquicamente o maravilhosismo dos seus aborígenes, embora a sua vida de hoje se espraie adentro dos preceitos da civilização, que as nossas autoridades têm pouco a pouco introduzido” (Álbum-Catalogo, 1934: 279).

Esta visão hegemónica de seu território é materializada na mostra cultural e nas imagens do evento, onde se observa um nítido contraste civilizacional entre os nativos e as imagens da presença portuguesa. Por isso surgem dois imagens da exposição. A Imagem 1 são os elementos visuais da exposição, a mostra dos nativos e os ícones –a Rosinha-, mostrando um espaço heterogéneo em uma representatividade social. O que se pretende é mostrar os perigos das imagens gerais, onde a diversidade dos povos simplesmente fica sujeita a uma imagem configurada pela metrópole, levando-nos a uma questão de se é isto uma lição histórica? Devo adicionar a esta ideia a forma de adaptação do território, na qual se deve moldar a um elemento metropolitano, fator que é visível na forma em que o corpo da Rosinha adota as armazéns Cunhas.

Imagem 1. Retratos de civilização[2].

A Imagem 2 é um elemento curioso que contrasta com a mostra do exotismo das fotografias e é a visão da Guiné publicitada no mesmo evento. Considerei pertinente incluir esta imagem a partir de um mapa do século XIX da Costa Ocidental africana, como um dialogo entre aquilo que é reconhecido e aquilo que é imaginado e projetado. Uma imagem de uma floresta organizada, de estradas, de plantações, mostra um imaginário de assimilação do modelo que não é apresentado na exposição.

No final, contrastando as imagens se consegue entender o alcance do colonialismo português, de sua imagem idealizada de uma missão civilizacional, onde “A colonização, no significado geral que neste lugar damos à palavra, abrangeu a ocupação, a organização administrativa e a exploração económica do território e, também o estabelecimento de feição permanente, na terra colonizada, de colonos oriundos da Metrópole ou de países estranhos (Álbum Catalogo, 1934: 59). O outro, o nativo, é invisível.

Imagem 2. Guiné Assimilada.[3]

Bibliografia e Fontes

Fontes

ü SIMOES, Landerset (1935). Babel negra : etnografia, arte e cultura dos indígenas da Guiné, Porto: Oficinas Gráficas de O Comércio do Porto.

ü Comissão organizadora da Primeira Exposição Colonial Portuguesa (1934), O império português na primeira Exposição Colonial Portuguesa : Album-catálogo oficial, Porto : [s.n.].

Bibliografia

ü Agência Geral das Colónias. (1934). La Guinée portugaise. Lisbonne: Edições da I Exposição Colonial Portuguesa.

ü Magalhães, Leite de (1920). “A Guiné portuguesa através da história.” In Cadernos Coloniais No 24, Lisboa : Cosmos.

ü Monteiro, Fernando Amaro (2004). A Guiné do século XVII ao século XIX : o testemunho dos manuscritos. Lisboa : Prefácio.

ü Mota, A. Teixeira da (1953). Guiné Portuguesa, Lisboa : Agência Geral do Ultramar.

[1] O conceito de paisagem é entendido como “une manière de voir et de représenter le monde environnant, et parfois comme une image projetée sur le monde.” (Besse, 2010: 9)

[2] As imagens correspondem a postais da I Exposição Colonial Portugesa –esquerda- tomada de (http://postcards.delcampe.net/page/list/cat,988,var,Guinea-Bissau-Africa-Postcards,language,E,page,all.html) e das fotografias de Alvão tomadas de (http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/10/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos.html). O mapa da Guiné contem os diversos grupos étnicos reconhecidos na década de 1930, é elaboração própria tomando como base a cartografia de Google Earth.

[3] A imagem é constituída por desenhos da Guiné publicados na obra La Guiné Portugaise, texto propagandístico e de informação colonial elaborado na I Exposição Colonial Portuguesa. O mapa foi tomado de http://www.lib.utexas.edu/maps/historical/africa_west_coast.jpg.