Representando a ideologia. A ideia de alteridade colonial na I Exposição Colonial Portuguesa.

Apresentação

O seguinte trabalho, enfocado em a I Exposição Colonial Portuguesa, está orientado a compreender a dimensão sociocultural da questão colonial, a partir do conceito de alteridade colonial, durante o processo de instauração do Estado Novo em Portugal durante os primeiros anos da década de 1930. O interesse em este tema surgiu de um questionamento com respeito às representações da alteridade colonial[1] e sua vinculação com as dinâmicas de construção de nação e identidade nacional promulgados por o aparato governamental. Desde esta perspetiva, o uso de representações está continuamente ligado ao sentido nacionalista, focalizando a exaltação da missão civilizacional como um dos principais fundamentos da produção de identidade nacional.

Para abordar está temática, este trabalho está organizado em quatro secções divididas da seguinte forma. Inicia com uma secção introdutória que busca apresentar os principais questionamentos e o método de analise utilizado para abordar o tema. A seguinte secção, o problema da consciência e a alteridade colonial procura mostrar o principal enquadramento teórico para entender conceptualmente o problema da consciência e da alteridade. Posteriormente, a secção dedicada à memoria histórica como representação. Em procura do mito fundacional procura mostrar o tema da alteridade colonial como um processo de construção de sentido dos “outros” coloniais a partir dos vínculos entre a consciência histórica da missão civilizacional e sua função com respeito ao processo de unidade nacional. Entendendo estes elementos, a seguinte secção, A I Exposição Colonial Portuguesa. Idealização e exaltação da missão civilizacional é um analise deste evento a partir dos questionamentos inicialmente mencionados, utilizando como fontes as publicações emitidas por a imprensa oficial (Boletim Geral da Colonias).

Aproximações iniciais, questionamentos, e método.

Ao pensar os principais questionamentos deste trabalho, um dos elementos que considerei foi sua pertinência a partir de sua relação com a aula Estruturas Culturais e Religiosas, principalmente com o objetivo principal desta, o qual era “chamar a atenção dos participantes para uma reflexão sobre as estruturas culturais e religiosas e o modo como a compreensão das estruturas mentais marcadas e influenciadas por estas é essencial à compreensão de uma dada sociedade.”[2] Para o caso analisado, se observa que a representação da alteridade colonial durante o Estado Novo é produto de uma consciência histórica da missão civilizacional, a qual é incluída dentro do discurso nacionalista como uma das partes fundamentais da identidade nacional deste período.

Nesta medida, se pode identificar como o principal problema a identificação de dois estruturas mentais, a metanarrativa do conceito de “missão civilizacional” e “a função colonial de Portugal”, os quais são elementos discursivos que dão forma a representação da alteridade colonial. Em quanto ao primeiro, a missão civilizacional é uma produção de sentido própria de qualquer Estado Imperial, onde se confrontam três formas de perceber a alteridade colonial (amplamente ligadas ao tipo de colonia que se pretende)[3]:

a) como sujeição: na qual é um sistema no qual a política colonial “tem unicamente por fim o interesse da metropole, que só procura possuir colonias para augumentar o próprio poder e a riqueza.[…] A condição que deste fim resulta para a colonia é a de inteira subordinação à metropole.” (Pélico, 1911:162);

b) como assimilação: a qual é um sistema que “propõe-se desenvolver nas colonias uma civilisação egual á da mãe-patria, procurando insinuar-lhes as mesmas ideias, sentimentos e aspirações; é quanto á condição em que as colonias se encontram, é de esta a de uma perfeita egualdade entre ellas a metropole, pois são consideradas como simples prolongamentos do solo da mãe-patria” (Pélico, 1911:165); e

c) como autonomia: que é um sistema que “propõe desenvolver nas colonias uma civilisação propria em harmonia com as condições de existencia e desenvolvimento do meio colonial; quanto á condição, as colonias ficam tendo uma certa independência. […] elas governam se a si próprias, regendo-se por leis feitas in loco pelos seus habitantes ou representantes idóneos, não tendo com a mãe-patria senão relações de caracter restricto, tendentes apenas a assegurar a soberania politica da metropole e a protecção da colonia contra poderes estrangeiros” (Pélico, 1911:166).

Em quanto ao segundo aspeto, a função colonial é ligada a uma história própria portuguesa, na qual a razão de ser da nacionalidade –durante o período analisado- está associada a um destino histórico da nação portuguesa, cuja ideia primordial é “recuperar o sentido de grandeza da nação portuguesa” a partir de uma revisão do conceito de identidade nacional[4] e a consciência de uma cultura política[5] que legitimasse a unidade nacional. Este conceito se liga ao enunciado por Roger Chartier –a importância da cultura política durante o Antigo Regime em França[6]-, no qual as representações e as instituições portuguesas estão programadas para legitimar uma sociedade idealizada, privilegiando uma metanarrativa histórica para dar continuidade ao passado e o presente, permitindo gerar um projeto de futuro.

Considerando estas perspetivas, a I Exposição Colonial Portuguesa serve como um indicador para evidenciar a confluência destas metanarrativas. A própria intencionalidade da Exposição e sua realização permite ver as relações dos discursos dominantes e como a representação da alteridade colonial é dependente da interpretação que seja feita por parte da metrópole, sendo então um sentido de sujeição cultural.

Em quanto ao método, este trabalho se focalizou na revisão sistemática de fontes secundarias associadas ao tema das exposições, nacionalismo e colonialismo desde os finais do século XIX, a I República e durante a década de 1930 especificamente durante a instauração do Estado Novo. Sua sistematização foi acorde à aproximação que cada autor faz de cada conceito para explicar a especificidade de cada contexto. Em esta medida, sempre se procuro abordar cada leitura desde uma pergunta centrada na alteridade colonial como discurso e a forma em que se inclui ou não dentro de cada período histórico. Cabe mencionar que não se abordo o aspeto socioeconómico devido a que desde estas perspetivas a alteridade colonial sempre se encontra condicionada às finanças coloniais e sua participação dentro das redes comerciais que seria um tema bastante mais complexo para abordar em esta escala.

O problema da consciência e a alteridade colonial

O tema da alteridade colonial é uma estrutura mental constituída por a inclusão dos “outros” coloniais dentro dos discursos nacionalistas como parte de um processo de restituição , situação que durante o século XIX, é produto de certos eventos “chave” como foram a independência de Brasil, a viragem da ideia imperial ao redor do continente africano e as colonias ultramarinas, e o “ultimatum” inglês de finais do século. Desta forma, o discurso nacionalista se caracteriza por procurar uma interdimensionalidade do sujeito colonial baseada na ideologia predominante de cada período sociopolítico (liberalismo, republicanismo e Estado Novo), que de maneira adicional se vincula com as correntes de pensamento imperial e colonial. Desde esta ótica, o caso português encontra uma especificidade em seu discurso político a partir de sua tentativa de diferenciar-se ou acoplar diferentes correntes de pensamento colonial (assimilação, autonomia, e sujeição), sempre enquadradas na reflexão metropolitana em quanta à capacidade de cada colonia de autogovernar-se[7].

Considerando está multiplicidade de conceitos, no momento de pensar a I Exposição Colonial Portuguesa o primeiro fator que foi evidente é a conjuntura histórica na qual esta imersa (concordância com varias datas históricas e a necessidade de as comemorar, e a necessidade de legitimar o novo regime –o diferenciar do governo da I República-) o qual converteu o espaço expositório em uma metanarrativa que mostrava três características: o sentido da consciência histórica, as representações da alteridade, e o discurso governamental e sua construção de identidade nacional. A continuação aprofundaremos em cada uma.

O sentido de consciência e a realização da Exposição Colonial

O sentido de consciência é uma preocupação associada a entender as significações e sentidos que adquire uma visão do mundo para uma sociedade, na qual é recorrente usar a história como discurso “verdadeiro” e legitimador desta visão. Para o caso analisado, o sentido da consciência é uma aproximação ao sistema e as dimensões da realidade que permitem a construção de uma narrativa social, que brinda elementos para consolidar uma memoria coletiva que levaria ao fortalecimento da identidade nacional. Sendo assim, a I Exposição Colonial Portuguesa é visto como “mechanisms of cultural production, systems of representation on a grand scale” (Çelik e Kinney, 1990: 35), o qual se caracteriza por três componentes representativos:

1) a ideia de exposição, a qual determina a identificação e a seleção dos objetos que devem ser apresentados. Em esta medida, cada objeto cumpre uma função desde sua localização no espaço até as dinâmicas que se apresentam, sempre congruentes com uma ideia de mostrar três estados da alteridade colonial: o estado “natural”, o estado “civilizacional” –ligado à obra portuguesa como mecanismo para sair do estado “selvagem”-, e seu potencial estado civilizacional entendido como a capacidade das colonias de adotar as costumes europeias dentro de suas dinâmicas quotidianas.

b) o colonial como “exótico”, é um discurso próprio de qualquer Exposição Universal/Mundial que permite exaltar os logros civilizacionais de cada Estado Imperial e diferenciar o território selvagem do civilizado. No caso português, a exposição recreou o modelo da Exposição Colonial de Paris de 1931, na qual o objetivo era gerar um impacto visual no público a partir da grandeza dos territórios dominados. Para o Estado Novo era primordial mostrar uma ideia de grandeza, mas devia também inculcar um sentido de unidade nacional que permitisse consolidar o regime. Desta forma o exótico se converte em um discurso de doble via, por um lado como referência para observar e exaltar a grandeza da Nação, mas também como discurso de inclusão cultural na medida de promover a convivência entre diferentes comunidades, e o aparente desejo das colonias de emular o estado civilizacional europeu a partir da obra portuguesa.

c) a memória histórica como discurso legitimador, é o método utilizado para validar a Exposição, sua vinculação com um destino. Desde esta questão, a vocação do povo português está vinculada com sua missão de explorar e descobrir novas terras, processo que é apreendido como uma dinâmica de «criador de povos» (Almeida, 2005: 150). Adicionalmente, a memória histórica é percebida como uma continuidade, na qual “o passado não é apenas o vivido que marca o presente, mas também um projeto de futuro”(Cunha, 2001: 7).

Pensando esses elementos a realização da exposição era um processo de produção de sentido cultural de um contexto histórico enquadrado em uma ideia de progresso e de modernização. Em outros termos, este espaço era visto como “microcosms that would summarize the entire human experience –past, present with projections of future.” (Çelik e Kinney, 1990: 35).

As representações de alteridade

Com as representações de alteridade se alude a capacidade das estruturas mentais e sua apreensão de uma realidade a partir de um processo de atribuição de identidade a partir da diferenciação. O sentido colonial é entendido desde a particularidade do caso português, sempre procurando exaltar uma relação harmoniosa com povos descobertos e uma vocação civilizacional associada a uma intenção de ajudar a sair do estado selvagem. Nesta medida, a representação adquire sentido desde um discurso que vincule de alguma forma uma realidade com a quotidianidade.

Neste sentido, a I Exposição Colonial foi um processo de reconstrução do conhecimento territorial enquadrado na necessidade de apresentar os objetos com a maior veracidade possível. Foi assim como de maneira quase paralela surgem diversos trabalhos etnográficos referidos à vida quotidiana dos territórios coloniais, os quais deviam prover os insumos para que a apresentação fosse o mais próxima à realidade. Não obstante se observa, desde a própria fotografia como dos discursos oficiais, que a alteridade colonial sempre está ligada fora do sentido português, são unidades nacionais que estão no caminho civilizacional, e seu exotismo refletia sua condição.

O discurso governamental e sua construção de identidade nacional

O discurso nacionalista durante o Estado Novo caracteriza a construção da identidade a partir da missão civilizacional como consciência de seu papel dentro da história da humanidade. Se exalta a nacionalidade do povo português a partir dos logros históricos e sua importância para o desenvolvimento da humanidade. É assim que o sentido da nação desde uma ótica colonial, a missão civilizacional se converte em uma narrativa que procura justificar uma dupla visão do mundo, a reivindicação da posição dominante do colonizador (baseada numa missão ou finalidade superior que exalta sua condição civilizacional) e o determinismo cultural do dominado (baseado em uma postura evolucionista de atraso social frente aos grupos europeus).

Por outro lado, a construção nacional está imersa dentro da necessidade de exaltação (fosse como ego nacionalista ou como legitimação do regime), o qual gerará que os territórios coloniais sejam parte do constructo de esta grandeza. É assim que o uso da cartografia e a continua justaposição de territórios ultramarinos no espaço continental europeu procura recuperar a noção imperial, onde o slogan “Portugal não é um pais pequeno” adquire toda sua relevância.

Imagem tomada de http://pequenagrandeguerra.wordpress.com/2012/01/31/pneupp/ (Consultada o 12 de Março de 2012)

A memoria histórica como representação. Em procura do mito fundacional.

A implementação do regime político do Estado Novo, dentro das narrativas deste período, é visto como uma revolução que devia recuperar o sentido de grandeza da nação portuguesa para poder legitimar sua ideia de unidade nacional. É assim como a história aparece como o principal recurso para poder dar continuidade entre o passado, presente e projetar um futuro.

Um primeiro fator a considerar é a elaboração de discursos unidirecionais por parte do aparato estatal. É comum pensar que a nação e a concepção de identidade são construções sociais, produto de uma negociação contínua no tempo. Para o caso dos regimes autoritários essas designações são produto de um aparato propagandístico que se circunscreve a uma forma única de pensar uma realidade, a qual termina sendo imposta sobre a sociedade. Cunha define ressalta, de forma independente para qualquer contexto, que “todas as sociedades têm o seu regime de verdade, ou seja, uma «politica geral» que elege determinados tipos de discurso e os faz funcionar como verdadeiros. (Cunha, 2001: 1).

Esta ideia se pode evidenciar durante o Estado Novo do Decreto No 21.103, de 7 de abril de 1932 onde “o Estado, sem se arrogar a posse exclusiva duma verdade absoluta, pode e deve definir a verdade nacional — quer dizer, a verdade que convêm à Nação”. É assim que “a historia funciona neste período como uma verdade que o real apenas condiciona: entre o discurso e a verdade acontecida vai exata distancia entre o que é conveniente ser sabido e o que contraria as certezas profundas da nação” (Cunha, 2001: 63).

Considerando a unidirecionalidade discursiva, o mito fundacional que devia dar forma aos “outros” coloniais esta circunscrito no conceito de missão civilizacional, o qual é produto de uma aproximação à historiografia dos descobrimentos, exaltando a experiência portuguesa como contributo para à história da humanidade. Nesta medida, se reinterpreta a história colonial a partir da ideia do século XIX (associada a fundação do Império Africano) na qual existia “a crença de que as colónias tinham uma riqueza imensa não explorada. Uma vez explorada por Portugal, o país podia recuperar o estatuto de grande potencia. “(Almeida, 2005: 150). Esta visão seria complementada por um elemento de sacralização da ideia imperial como uma grande necessidade para recuperar o papel da nação portuguesa nas dinâmicas mundiais e justificando o domínio colonial como “uma herança sagrada e, portanto, indivisível ou inalienável. Portugal era apresentado não apenas como o «historiador do Mundo»; Portugal era também «criador de povos» (Almeida, 2005: 150)

Este mito fundacional também devia encontrar sua particularidade, não podia adotar as mesmas premissas que existiam dentro da historia, particularmente com as correntes liberais do século XIX[8]. Para o Estado Novo as colonias e o território continental eram uma unidade nacional que devia emular nos territórios periférico o modus vivendi da metrópole, a partir da promoção de uma ideia de unidade que contemplava os territórios coloniais como extensões do solo da “mãe pátria”.

A I Exposição Colonial Portuguesa. Idealização e exaltação da missão civilizacional.

“Portugal, o mais antigo dos países colonizadores, o país que atravez das suas descobertas deu novos mundos ao Mundo, vai a apresentar na sua Exposição Colonial Nacional, não só os resultados brilhantes do seu esforço e atividade modernos, como também os seus métodos coloniais originalíssimos, reorganizados e valorizados por uma Política de ressurgimento nacional”[9]. A expressão anterior era parte dos cartazes propagandísticos da I Exposição Colonial Portuguesa, onde se podem evidenciar vários elementos que já foram mencionados durante este trabalho como são a promoção do destino histórico colonial, a missão civilizacional vista desde seus resultados, e a ideia de ressurgimento própria do Estado Novo.

A Exposição foi realizada na cidade de Porto em 1934, instituída pelo Decreto No. 22.987 de 1933. Tal como o manifesta o documento em seu artigo numero dois “A exposição será organizado com critério essencialmente prático, mostrando a extensão, intensidade e efeitos da acção colonizadora portuguesa, os recursos e atividades económicas do Império e as possibilidades de estreitamento de relações comerciais entre as várias parte da Nação”[10] Sua organização foi conferida a uma Comissão Organizadora a qual estava composta por representantes das autoridades coloniais e propagandísticas do governo central e por representantes do grémio comercial da cidade de Porto. Em quanto ao local onde se realizaria, foi escolhido o Palácio de Cristal onde se situariam o pavilhão principal e as simulações das aldeias coloniais.

Como se pode observar no plano da exposição (imagem esquerda[11]) as principais representações estavam focalizadas em apresentar uma narrativa do que era a presença portuguesa nos territórios coloniais, partindo de uma história ligada às explorações e os descobrimentos, passando por a obra das missões religiosas e as redes comerciais com a metrópole, as quais refletiriam o progresso colonial em aspetos ligados às infraestruturas de transporte, condições de saúde e higiene, e o ensino.

Por outro lado, a Exposição apresentava as particularidades de cada território a partir de imagens que ressaltavam o exotismo de cada região, procurando mostrar in situ as diversas práticas quotidianas dos grupos sociais, especificamente a população indígena. Nesta forma, replicando o modelo da Exposição Internacional das Colonias realizada em Paris em 1931, o Estado Novo recreou as aldeias mais representativas dos territórios coloniais, as quais estavam ligadas com a população de Guiné e de Moçambique. Destas apresentações o que mais chamaria a atenção do publico e dos principais meios de comunicação seria a imagem de “Rosinha”, uma indígena Guineense, que se tornaria em um dos principais ícones da exposição por mostrar uma “particular” beleza (ligada ao exótico), que a converteria além de ser símbolo de um grupo social, também em imagem publicitaria (ver imagens inferiores[12]).

Imagens tomadas e modificadas de http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/10/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos.html (Consultada o 11 de Março de 2012)

Outro elemento que devemos ressaltar são as representações dos principais governantes das colonias, e sua vinculação com o que deve ser entendido como tradição e aculturação. Esta temática é refletida por Hobsbawm, entendendo que as tradições, na maioria dos casos, estão sempre estão ligadas a uma estrutura mais rígida, a qual não lhes permite adaptar-se às novas exigências do contexto social devido a una evidente perdida da própria identidade, função e uso. As imagens contrapostas do Príncipe Abdulah e do Rei Mamadu Sissé evidenciam este conflito, principalmente em um contexto que está enquadrado um processo de assimilação. Como se observa, o rei está rodeado de elementos primordialmente nativos, próprios de seu contexto, conferindo-lhe uma identidade baseada na diferença, caso contrario do retrato feito por Eduardo Malta do príncipe que evidencia um acoplamento à representação de um modelo europeu.

Imagens tomadas e modificadas de http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/10/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos.html (Consultada o 11 de Março de 2012)

Observando estas particularidades, a frase de Almeida, na qual as representações “deviam contar a nossa história de modo a que os membros nacionais se pudessem identificar com eles”(Almeida, 2005: 117), adquire maior sentido na medida que a alteridade colonial termina sendo um bricolage de elementos tradicionais imersos em um processo civilizacional. Nesta medida, a chamada missão civilizacional enquadrada em um discurso nacionalista pode ser vista como uma estratégia de acoplamento de aqueles elementos identitários e sua função respeito à metrópole. Igualmente, o sucesso da missão consiste precisamente em ligar o destino português através de sua história com os mecanismos de grandeza e reconstrução imperial, noções que como se observa estão vinculadas a manter uma diferencia a partir da identidade local, mas que não conseguem se incluir dentro de uma perspetiva da nação. Sendo assim, a alteridade colonial é uma invenção durante o Estado Novo de reconhecer os “outros” coloniais como objetos que sustentam uma grandeza passada, o qual é entendido desde diversas correntes de pensamento lusitano como a “saudade” do império. Finalmente o caso do príncipe deve considerar-se na medida que enfrenta os processos de aculturação e suas repercussões dentro dos discursos, mostrando um ponto identificação com novos elementos e estruturas mentais.

5. Bibliografia Geral

Aproximações à Historia Cultural

ü Chartier, Roger. A história cultural : entre práticas e representações, Lisboa: Difel, 1988.

ü Habsbawm, Eric. A invenção das tradições, São Paulo: Paz e Terra, 1997.

Exposições

ü Acciaiuoli, Margarida. Exposições do estado novo: 1934–1940. Lisboa : Livros Horizonte, 1998.

ü Almeida, José Carlos. Celebrar Portugal: a nação, as comemorações públicas e as políticas de identidade. Lisboa : Instituto Piaget, 2005.

ü Corkill, David; Pina Almeida, José Carlos. “Commemoration and Propaganda in Salazar’s Portugal: The Mundo Português Exposition of 1940” In Journal of Contemporary History July 2009 vol. 44 no. 3 381–399. Versão online disponível em http://jch.sagepub.com/content/44/3/381.abstract (Consultada o 30 de Janeiro de 2012).

ü Çelik, Zeynep; Kinney, Leila. “Ethnography and Exhibitionism at the Expositions Universelles” In Assemblage, No. 13. (Dec., 1990), pp. 34–59. Versão online disponível em http://erikbenjamins.com/Main/erik_benjamins_files/celik%26kinney_EthnographyandExhibitionism.pdf (Consultada o 5 de Fevereiro de 2012).

ü GALVÃO, Henrique. Álbum Comemorativo da Primeira Exposição Colonial Portuguesa, Porto, Litografia Nacional, 1934.

ü Geppert, Alexandre; Coffey, Jean; Lau, Tammy. International Exhibitions, Expositions Universelles and World’s Fairs, 1851–2005: A Bibliography. Versão online disponível em:

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ü Léonard, Yves. “Le Portugal et ses “Sentinelles de pierre”: L’Exposition du Monde Portugaise en 1940” In Vingtième Siècle. Revue d’Histoire, No. 62 (Apr-Jun) 1999, pp 27–37.

ü Lira, Sérgio. Museums and Temporary Exhibitions as means of propaganda: the Portuguese case during the Estado Novo. Dissertação de Doutoramento em Museum Studies no Department of Museum Studies da Universidade de Leicester, 2002. Versão online disponível em: http://www2.ufp.pt/~slira/ (Consultada o 29 de Janeiro de 2012).

ü Lira, Sérgio. O Nacionalismo do Estado Novo e a Arte Popular: reflexões sobre a obra de Rosa Ramalho. Comunicação apresentada para às II Jornadas de Olaria — Figuras & Figurado — Rosa Ramalho, realizadas no Museu de Olaria (Barcelos) os dias 28, 29 e 30 de novembro de 2002. Versão online disponível em: http://www2.ufp.pt/~slira/artigos/rosa_ramalho.pdf (Consultada o 29 de Janeiro de 2012).

ü Lira, Sérgio. “Politics and Propaganda in Portuguese Museums and Temporary Exhibitions during the Estado Novo” In Museological Review, Issue 7, 2000, pp 42–55. Versão online disponível em: http://www2.le.ac.uk/departments/museumstudies/documents/museologicalreview/MR-7-2001.pdf (Consultada o 20 de Janeiro de 2012).

ü Sánchez-Gómez, Luis Ángel. “Imperial faith and catholic missions in the grand exhibitions of the Estado Novo” In Analise Social Vol XLIV (193), 2009, pp 671–692. Versão online disponível em: http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/aso/n193/n193a02.pdf (Consultada o 15 de Janeiro de 2012).

ü Vargaftig, Nadia “Les expositions coloniales sous Salazar et Mussolini (1930–1940)” In Vingtième Siècle. Revue d’histoire No. 4/2010 (n° 108), p. 39–52. 
 Versão online disponível em: www.cairn.info/revue-vingtieme-siecle-revue-d-histoire-2010-4-page-39.htm (Consultada o 16 de Dezembro de 2011)

Ideologia, identidade e imaginário imperial

ü Cabral Villaverde, Manuel. “The aesthetics of modernism and authoritarianism in early Twentieth-Century Portugal” In Luso-Brazilian Review Vol 6, No. 1 (Summer ,1989) pp 15–43.

ü CALAFATE, Margarida Ribeiro; FERREIRA, Ana Paula. Fantasmas e fantasias imperiais no imaginário português contemporâneo. Porto : Campo das Letras, 2003.

ü Calafate, Margarida Ribeiro. Uma história de regressos : império, guerra colonial e pós-colonialismo. Porto: Afrontamento, 2004.

ü Cunha, Luís. A nação nas malhas da sua identidade : o Estado Novo e a sua construção da identidade nacional. Porto: Edições Afrontamento, 2001.

ü Malheiro da Silva, Armando. “La Nation Portugaise. Mythanalise et récurrence” In Congrès Journées d’Étude Mythe et Nation, Université de Grenoble, 1995, No. 15, p. 89–142. Versão online disponível em: http://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/52279 (Consultada o 27 de Janeiro de 2012).

ü Sapega, Ellen. “Image and Counter-image: The place of Salzarist images of national identity in contemporary portuguese visual culture” In Luso-Brazilian Review, Vol 39, No 2 (Special Issue: Portuguese Cultural Studies) 2002, pp 45–64.

ü Valentim, Alexandre. “A África no imaginario político portugués (Seculos XIX-XX)” In Penélope: revista de história e ciências sociais No. 15, 1995, pp 39–52.

ü Valentim, Alexandre. “Ideologia, economia e política: a questão colonial na implantação do Estado Novo” In Analise Social, Vol. XXVIII (123–124), 1993(4.°-5.o), pp 1117–1136.

Nacionalismo, identidade e propaganda

ü D’Almeida, António Jorge; Coutinho e Lemos Ferreira. O ideal portuguez : bases de reorganisação tradicional da nação portugueza. Porto : s.n., 1917.

[1] O conceito de alteridade colonial é entendido como o processo de construção, desde a metrópole, da imagem dos povos coloniais, atribuindo-lhes uma categoria de “outros”.

[2] Programa Académico da Aula Estruturas Culturais e Religiosas 2011–2012. Tomado de http://sigarra.up.pt/flup/disciplinas_geral.FormView?P_CAD_CODIGO=MHP005&P_ANO_LECTIVO=2011/2012&P_PERIODO=1S (Consultado o 7 de Março de 2012).

[3] Esses conceitos foram apanhados do texto de administração colonial, difundidos durante finais do século XIX. Durante este período a reformulação da administração colonial tive como principal lineamento a necessidade de conhecer os territórios e o processo de capacitação dos administradores públicos. Em esta medida se desenvolveram diferentes manuais cuja função era ensinar as diversas teorias coloniais, entre os quais encontramos o manual do professor Silva Pelico elaborado na Universidade de Coimbra. Este pode ser consultado em Pélico, Silvio. Administração colonial e direito colonial : apontamentos extrahidos das prelecções do sr. dr. Marnoco e Sousa, Coimbra : Typ. Lusitana, 1911.

[4] O conceito de identidade nacional é entendido como uma “expressão ideológica que reforça uma dominação política e económica. […] elas afirmam como indiscutível, objectivo, natural, aquilo que é construído” (Cunha, 2001). Nesta medida, a identidade nacional pode perceber-se como uma forma de representação social, constituída desde um discurso hegemónico que procura atribuir um sentido, diferenciação, unidade e coerência à organização social estabelecida em um território. Igualmente se deve considerar que “as identidades nacionais são negociadas através do discurso, em que são mobilizados repertórios de símbolos, discursos e significados adequados às novas necessidade ou experiências históricas” (Almeida, 2005: 13)

[5] A cultura política é entendida a partir da relação entre identidade e as estruturas de relacionamento em uma sociedade. Em esta medida “a identidade está feita da forma em que nós os representamos em relação com os outros, a outredade. Estas representações estão feitas de significações atribuídas a nós e a os outros. A cultura política é uma expressão dessa identidade na medida em que abarca os significados, valores e as prácticas que se consideram aceitáveis dentro de uma sociedade ou um grupo social.” (Cunha, 2001).

[6] Roger Chartier em sua aproximação à cultura durante o Antigo Regime em França, onde “a cultura politica popular seria assim […] inscrita nas formas que a produzem, e nada mais do que a justa percepção ou a correta compreensão das encenações, das passagens a rito, a imagem, a texto, do poder soberano, dos seus atributos e dos seus detentores.[…] essas representações do poder que devem forçar a adesão popular, não têm locais determinados e podem inscrever-se em qualquer forma, em qualquer género, colocado deste modo ao serviço da persuasão” (Chartier, 1988: 194–195).

[7] O uso do termo “autogoverno” para este trabalho é entendido como a capacidade de um território colonial de exercer de maneira autónoma as principais decisões administrativas. Este elemento é relevante para o entendimento da alteridade colonial na medida que o exercício do poder precisa de um processo de autodeterminação que geralmente é baseado na consolidação de uma identidade, que para o caso colonial são vínculos com a metrópole

[8] Durante o século XIX o conflito ideológico ligado à questão colonial enfrenta o outro colonial a partir de sua diferenciação e especificidade, os quais são elementos fundamentais para o mantimento do império. O liberalismo se caracterizou por propor uma visão baseada no reconhecimento da autonomia do individuo, posição que se materializaria durante a I República e a reforma administrativa de 1914. Para ilustrar as principais características de esta aproximação é pertinente revisar a aproximação de Moura, na qual “cada colonia tem a sua diferenciação geographica, economica e ethnica, e como o direito moderno não é uma concepção methaphysica e absoluta, mas uma forma reguladora de adaptação progressiva ás necessidades da vida, é anti-scientifico pretender adaptar a todas as nossas diversas colonias a mesma foma legal de administração, pois que, só depois do estudo das circunstancias especiaes de cada uma d’ellas, é que se pode legislar ou egula sobre o respectivo funccionamento legal da vida económica civil, fiscal, commercial e militar. […] Não se deve atrophiar a expansão das colonias, antes está na sua livre iniciativa a expansão a grandeza que as póde tornar úteis á metropole. A uniformidade legal, os formalismos burocráticos, são portanto adversos ao progresso colonial. “(Moura, Carneiro de. A administração colonial portuguesa, Lisboa: Livraria Classica Editora, 1910.)

[9] Propaganda da I Exposição Colonial Portuguesa. Disponível no website http://purl.pt/22849/2/ct-5720-v_PDF/ct-5720-v_PDF_24-C-R0150/ct-5720-v_0000_1-2_t24-C-R0150.pdf (Consultado 12 de Março de 2012).

[10] Boletim Geral das Colónias . X — 109 [Número especial dedicado à Iª Exposição Colonial Portuguesa, PORTUGAL. Agência Geral das Colónias. Nº 109 — Vol. X, 1934.

[11] Imagem tomada de http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/10/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos.html (Consultadas o 11 de Março de 2012).

[12] Imagens tomadas e modificadas de http://doportoenaoso.blogspot.pt/2010/10/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos.html (Consultada o 11 de Março de 2012)