Conflitos internos: ajudando a narrativa

A ação costuma ser superestimada nas histórias de super-heróis. O público nerd adora valorizar cada ato em que tal personagem fez um estrago, na tentativa de validar o quão fantástico é aquele ser.

Ótimo. Pessoas se inspiram até nos feitos de personagens fictícios, mas a tendência de levar o combate como essencial e único para caracterizar um personagem, faz linha direta ao herói genérico, difícil de se conectar e entender o que o move, qual sua obrigação e propósito com a luta. Em outras palavras, é o personagem sem complexidade emocional.

Por mais que com grandes poderes venha o distanciamento da própria humanidade por alcançarem limites sobre humanos, esses personagens não perderam a sua capacidade de sentir. Alegria, raiva, tristeza, paixão, angústia, receio, etc, continuam coexistindo com o resto do herói. Nada se perdeu, apenas se transformou e é normal. Melhor ainda é o potencial da fantasia em concretizar sentimentos sobre o que estiver ao alcance da imaginação e habilidade do autor.

Em Avatar, Ming-Hua era uma importante membro do Lótus Vermelho. Sem os dois braços, usava a dobra d’água a fim de suprir o espaço vazio por tentáculos. Ainda que saiba usar seus poderes com muita técnica nos combates, o laço que Ming cria com a dobra traz uma complexidade emocional gigantesca, pois ela vira literalmente uma extensão de seu corpo, ganhando mais liberdade.

Harry Potter, o prisioneiro de Azkaban, introduziu os Dementadores, criaturas sombrias que sugam a alma de suas vítimas, sendo a forma da autora representar a depressão naquele mundo.

Também vimos a amizade do trio se fortalecer quando Harry e Rony vão salvar a Hermione de um trasgo, já que mesmo capaz de se defender sozinha, não estava em uma boa ocasião, assim como a conexão entre mãe e filho mais forte que um Avada Kedrava. Amar tanto alguém que você se dispõe a ver ela com outra pessoa, pois é o que a faz feliz.

Estes, entre outros casos, são experiências voltadas a conflitos internos dos personagens, e não são ruins por não participarem do enorme problema externo. Pelo contrário, é o que deixa a ação boa, por ir criando uma carga emocional que reaparece com força no clímax, cheia de significados construídos aos poucos desde o começo da aventura.

Logo, não é a ação que sustenta a obra. A ação que é sustentada. Momentos marcantes como Buffy lutando contra Angel, Mulher Maravilha contra Hades, Jessica Jones indo dar uma surra no Kilgraver, só são marcantes por várias outras cenas demonstrarem o que este conflito final representa para a protagonista e o povo ao seu redor. Sério, seria tão legal assim se a Buffy simplesmente matasse o Angel na primeira oportunidade, sem os dois terem se relacionado, com uma baita metáfora sobre o cara psicótico que persegue a ex? Seria plausível ver a Jessica dando uma surra no Kill, sem antes ver o que ele causou a ela, e como ele virou aquele monstro? Mulher Maravilha descobrindo logo quando virasse adulta que era capaz de matar o grande mal e o filme acabando aí? Não. É impossível escapar do desenvolvimento e vida pessoal se você quer cenas memoráveis, ou uma jornada que valha a pena de se acompanhar. Pegar um personagem e evoluir ele como pessoa, faz parte do que é necessário para vencer, tanto suas inseguranças e inimigos.

Enquanto havia o desespero – as perguntas que assolavam o herói -, ele ainda não conseguia vencer, mas ao resolver seus conflitos internos ele evolui, e conquista a prontidão. O momento em que Luke usa a força pela primeira vez e destrói a estrela da morte, é magnífico pela capacidade dele de usar a força, e também por ser a primeira vez que ele consegue, depois de tanto treino e esforço. Vimos ele com o Obi-Wan, no começo recusando ao seu chamado acreditando que aquilo não era para ele, insistiu e logo no primeiro filme teve algum resultado, um passo para que depois ele se tornasse um jedi poderoso, frente a frente com Darth Vaider.

Nesse meio você pode ter qualquer coisa. Sexualidade, família, amigos, problemas com autoestima, transtornos mentais, depende da mensagem a ser passada para a audiência. Acredite: roteiristas colocam estes atributos a um bom tempo nos personagens, antes mesmo de você aprender o discurso do “querem enfiar essas minorias SJW nos quadrinhos/cinema/jogos”.

Existe nos X-Men. Existe em Star Wars. Existe em Star Trek. Existe em StarCraft, toda uma franquia Mass Effect, nas animações da Liga da Justiça, produções da Disney, e, inclusive, no seu mundo real. Pessoas diferentes com características diferentes. A ficção só tá repassando o que você ainda não viu, ou não quis aceitar.

Aquele canon que você respeita.