Inventário de uma separação
Então, separaram o Brasil.
Então, separaram o Brasil.
O Sul e o Centro-Oeste, mais São Paulo, formaram o Reino do Brasil do Sul, tendo por primeiro ministro Aécio Neves e por rei honoris causa Fernando Henrique Cardoso, enquanto o Norte, o Nordeste e o resto do Sudeste constituiram a República Lulopetista do Brasil do Norte, presidida por Dilma Rousseff. A separação se deu sem maiores percalços e a sugestão de construção de um muro separando os territórios foi rapidamente dispensada: não haveria necessidade. O divórcio foi, por assim dizer, consensual.
De fato, a animosidade entre os dois novos Estados soberanos se provou tamanha que, passados os inevitáveis movimentos migratórios iniciais, com caráter de ajuste – aecistas do norte e dilmistas do sul, feito andorinhas, migrando de seus antigos lares para as terras que passaram a melhor acomodar seus alinhamentos políticos –, logo se consolidou a verdadeira ojeriza mútua e a larga fronteira entre os países já não recebia nem mesmo a visita ocasional dos pais e dos filhos com parentes nas terras inimigas. Em seus respectivos círculos, os sulistas se referiam aos rivais como Nova Cuba, enquanto estes, em represália, chamavam os vizinhos de Quarto Reich. As relações diplomáticas, como se poderia imaginar, eram nulas. De um modo geral, a cisma havia sido um absoluto sucesso.
Alguns problemas, porém, foram de difícil solução.
Logo de cara, o primeiro dilema foi justamente Brasília, capital do antigo Estado. Pelos resultados das eleições, o Distrito Federal deveria mesmo ficar com o restante do Centro-Oeste, perfeitamente integrado ao Reino do Brasil do Sul, mas, para constrangimento geral, Dilma bateu pé, disse estar muito bem instalada no Planalto e afirmou categoricamente que de lá não sairia, de lá ninguém a tiraria. Se a birra parecia injusta (afinal, o que fora votado era a completa separação entre estados petistas e estados antipetistas, sem exceções – e o que é democraticamente votado, sabe-se, não deve ser contestado depois), ela enfrentou menos resistência do que se poderia supor, ainda mais porque São Paulo viu com bons olhos a chance de se tornar capital. Os membros do PMDB, chefes de facto locais, também tinham especial carinho pelo Distrito Federal — gostavam muito de concreto armado, aliás —, aumentando o impasse.
No fim das contas, Michel Temer e Eduardo Cunha não conseguiram chegar a um consenso e optaram por uma solução já consagrada pela História: Brasília seria uma cidade dividida, metade para cada país. A simetria do Plano favorecia a cisão e, de todo modo, o Aécio não fazia questão de ficar muito por ali, como seus tempos de senador já bem indicavam.
Aécio este, aliás, que viveu uma situação difícil, também, nos primeiros dias da separação. Fácil imaginar o trauma que o primeiro ministro – mineiro de sangue e carioca de criação – sofreu ao ver seus dois estados mais queridos se desvincilharem dessa maneira rumo ao lado vermelho da fronteira. Nada há que se temer, porém, que o homem se resolveu sem demora. Goiânia fez logo as vezes de BH, enquanto Florianópolis se provou capaz de substituir à altura os prazeres fluminenses.
Em outros aspectos, também houve consenso de que a divisão foi relativamente paritária. Na literatura, ouso dizer que os sulistas saíram perdendo, tendo que transferir Machado, Cecília Meireles, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Jorge Amado, João Ubaldo e Graciliano Ramos [1] para as classes de Literatura Estrangeira, embora seja bem verdade que mantiveram como nacionais Clarice, Lygia, Mário Quintana, Veríssimo, Mário e Oswald de Andrade e grande elenco. Na música, os sertanejos goianos foram o grande trunfo, especialmente em termos quantitativos, do Reino, embora o Nordeste e o Rio não tenham deixado por menos. Mas, embora a coisa tenha ido mais ou menos nessa toada em outros aspectos tantos, fato é que, enfim livres do imperialismo cultural imposto pela mídia carioca, as culturas do sul puderam receber o destaque que sempre mereceram. E se assim não fosse, nada importaria: tendo se livrado de petralhas notórios como Chico Buarque de Holanda, que falta poderia fazer um Vinícius a mais ou um Gonzaga a menos?
E quanto ao povo? Bem, o povo se adapta.
Pesquisas de opinião revelaram que os gaúchos, se não totalmente satisfeitos com o arranjo, acreditaram sim que aquilo havia sido para melhor. Uma coisa de cada vez, disseram. Mais pra frente a gente se separa do resto.
Os paulistas sofreram mais do que gostariam de admitir, a falta d’água agravada, ainda por cima atrapalhando a indústria do estado e prejudicando o PIB do novo país, para imensa vergonha dos locomotivos (novo gentílico adotado especialmente para a ocasião). No entanto, os paulistanos contavam agora com o duplo prazer de ratificar seu NON DUCOR DUCO por meio do novo status de capital, e de não fazer mais parte do mesmo país que o Rio de Janeiro – uma demanda antiga da cidade, que certamente só não fora atendida com mais presteza em razão da inação criminosa do PT.
Pra completar, expurgaram de vez do novo país a ameaça sombria dos que falam “biscoito” no lugar de “bolacha” e, com a ANA fora da jogada, a SABESP adquiriu total liberdade para desviar totalmente as águas do Paraíba do Sul, secando de vez o Rio de Janeiro, para deleite desvairado da pauliceia.
Já os cariocas, ainda que sem água, celebraram o novo protagonismo do Estado: enfim o mais rico e de maior congestionamento de seu país. A isso acrescendo-se, claro, na opinião modesta de seus viventes, ainda o título de mais belo estado do norte – nem os protestos vindos de Jericoacoara e Fernando de Noronha podendo convencê-los do contrário.
Na Bahia, Mc Eddie Murphy foi outro que comemorou a notícia. Minha música nunca tocou tanto no estrangeiro, revelou o autor do novo hit do carnaval. Todos, como se vê, bastante satisfeitos com o resultado do cisma.
Mas no Piauí – num sertão esquecido do Piauí –, uma Maria foi encontrada alheia ao processo todo, para indignação coletiva do planeta. Fora contra a separação, para falar a verdade, mas também não lhe incomodou muito que sua opinião tivesse sido derrotada. Tinha parentes no sul, contou, mas não é como se fosse conseguir se encontrar com eles, de qualquer jeito, ainda que fossem as coisas diferentes. Outros assuntos que pautaram a discussão e a indignação públicas também lhe eram igualmente indiferentes. Medidas assistencialistas tinham lhe permitido se separar do homem com quem se casara aos dezesseis e levar os filhos para longe das agressões do pai, mas, para revolta da população melhor informada do Reino do Brasil do Sul, ela não entendia muito bem por que essa vantagem devia ser contrabalanceada com a perda do direito ao voto. De todo o país – de todos os dois países – vieram manifestações de comoção e desagrado.
Cidadãos de ambas as pátrias, inconformados, questionavam tamanha passividade diante do fervor que tomara as ruas da antiga nação depois das eleições. Não era possível aquilo; ou se estava de um lado, ou se estava do outro. Houve inclusive quem sugerisse uma nova separação pela qual se criasse agora a República Itinerante da Maria, sem território fixo e composta por ela, apenas, pela Maria.
Nossa reportagem bem que tentou extrair alguma resposta da vilã alienada, mas todos os esforços empreendidos se provaram vãos: sem nunca tirar o sorriso do rosto, ela balançava a cabeça, muito quieta, olhava pra baixo, escondia as mãos. O senhor me desculpe, disse, com prosódia própria. O senhor me desculpe se eu não falo muito, mas agora não posso, mesmo. O senhor sabe: eu tenho muito, tenho muito que trabalhar.
[1] Nenhum rol, claro, se pretendendo exaustivo.