bom, talvez eu não estivesse pronta para falar disso mesmo. normalmente levam três dias para eu entender as coisas que acontecem. e eu falo desse tipo de coisa que te deixa sem chão. acontece que já se passaram mais de dez e nada saiu da ponta dos meus dedos. eu queria ter deixado escrito que eu sinto muito, que doeu horrores, que andei chorando antes de dormir, mas acontece que as únicas lágrimas que caíram foram logo após o baque de eu não o ver batendo a porta, e sim me jogando um beijo antes de entrar no elevador. a gente foi ensinados que os finais são barulhentos, portas batendo, louças quebrando, tudo faz parte de um show de horrores enquanto um sai porta àfora e o outro se coloca ao chão em prantos. acontece que na terça-feira de noite ele veio até minha casa me mostrar que não precisa ser obrigatoriamente assim. e eu que sempre tive medo de ter que espiar essa marcha fúnebre em direção à rua do olho mágico da porta estava ali, posta no corredor, acompanhando cada movimento e retribuindo beijos jogados ao ar. nem todo término ocorre aos gritos. ele veio até aqui para me ensinar isso. e sentou na minha cama e brincou com meu cachorro e me aninhou em um abraço enquanto deslizava os dedos nos meus cabelos, como sempre fez. me falou suas verdades e escutou as minhas com cuidado e mesmo um pouco relutante calçou os sapatos e teve de ir. assim como eu já fui tantas outras vezes. abri a porta para que pudesse voltar. não que eu ache que volte, duvido muito retornarmos a dividir a mesma cama. mas eu não gosto de trancar as portas.
eu sinto muito, de verdade, porque eu achei que tinha encontrado. e em alguns momentos eu sei que ele achou que havia encontrado também. mas a gente não encontra nada que não procura. então talvez tudo isso tenha sido um passatempo, uma boa possibilidade, mas nunca foi um real encontro. uma parte de mim quer ficar triste por ter de lidar com a perda e com o vazio que toda partida deixa, enquanto a outra só quer seguir a vida. go ahead. segue o baile. é isso aí.
as histórias bonitas também chegam ao fim.
