Acídia

Em geral, aquilo que não é dito, aquilo que é omitido e esquecido, revela mais do que o abertamente enunciado. O desaparecimento de um conceito ou seu ocultamento por trás de um outro, semelhante mas inócuo, é sempre intrigante.

A acídia é um desses conceitos fugidios, que se escondem a ponto de não serem mais reconhecidos pelo nome. Trata-se do sétimo pecado capital, que mais recentemente passou a ser conhecido apenas como preguiça.

A idéia de pecado capital deveria ser levada a sério, malgrado seu significado religioso ou moralista. Trata-se de uma espécie de mapa dos pontos fracos e defeitos da alma humana.

O Catecismo da Igreja Católica, em sua versão moderna, apresenta como pecados capitais: soberba, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça ou acídia. Note-se o anunciado um tanto hesitante do sétimo pecado: preguiça ou acídia. Antes eraapenas a acídia, cujo sentido foi, pouco a pouco, se esvanecendo. Como resultado, ninguém mais sabe do que se trata e um pecadilho simpático e inofensivo como a preguiça é colocado em seu lugar, no mesmo nível da inveja e da avareza.

A verdade é que preguiça é mais sintoma que sinônimo de acídia. Se estudarmos o que o conceito originalmente significava, perceberemos que ele pode ser a chave para se entender os problemas espirituais modernos. De certa forma, a acídia é o vício moderno por excelência. Daí seu ocultamento; resumindo, o conceito de acídia foi reprimido.

Mas o que é a acídia? Segundo São Tomás de Aquino, é “o tédio ou a tristeza em relação aos bens interiores e aos bens do espírito”. O desânimo de quem não se julga capaz de realizar aquilo para que Deus criou o homem. Em outras palavras, uma sensação de vazio, de que “nada vale a pena”; a incapacidade de encontrar qualquer alegria no espírito, a negação que qualquer valor.

Segundo a visão medieval, um pecado é chamado de capital por ser a cabeça de diversos outros vícios, que o seguem como “filhas”. Assim, as filhas da acídia são: desespero, a negação de que haja quaisquer bens espirituais ao nosso alcance; a pusilanimidade, ou a recusa a qualquer esforço para atingi-los; o torpor, ou a falta de energia para tentar qualquer coisa; o rancor, ou a indignação contra os que nos encaminham a eles; a malícia, que ataca os próprios bens espirituais e a divagação da mente, o derramar-se do espírito em ninharias.

A divagação do mente, “evagatio mentis”, era considerada por São Tomás como a filha primogênita da acídia. A necessidade de tudo ver, não para apreender a verdade, mas a fim de se perder no mundo. Uma tentativa desesperada de preencher o próprio vazio. Ficar horas assistindo coisas como Big Brother é um bom exemplo moderno. Esse tipo de programa é atacado por razões erradas. O problema principal não é a lubricidade ou a grosseria (que são reais) mas sim a incrível indigência espiritual, o vazio posto como valor.

Desespero, pusilanimidade, torpor, rancor, malícia, divagação e tagarelice. Fica claro porque a acídia é mais atual do que nunca. E porque se esconde por traz da preguiça.

Esse texto foi inspirado na leitura do professor Luiz Jean Lauand da USP e de Josef Pieper, o grande filósofo tomista alemão.

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