Admirável escapatória

Shakespeare nunca erra.

No Rei Lear, ato 1 cena 2, uma de suas criações mais assustadoras, o vilão Edmund, psicopata frio e brilhante, pensa consigo:

This is the excellent foppery of the world that when we are sick in fortune — often the surfeit of our own behavior — we make guilty of our disasters the sun, the moon, and the stars, as if we were villains by necessity, fools by heavenly compulsion, knaves, thieves, and treachers by spherical predominance, drunkards, liars, and adulterers by an enforced obedience of planetary influence, and all that we are evil in by a divine thrusting-on.
An admirable evasion of whoremaster man, to lay his goatish disposition to the charge of a star!

Essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem — muitas vezes por culpa de nossos próprios excessos — pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas estrelas, como se fôssemos celerados por necessidade, tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbedos, mentirosos e adúlteros, pela obediência forçosa a influências planetárias, sendo toda nossa ruindade atribuída à influência divina.
Admirável escapatória para um mestre da devassidão, responsabilizar as estrelas por sua natureza de bode!

Esses versos de Shakespeare resumem perfeitamente a mensagem do livro de Theodere Dalrymple, Admirable evasions. Theodore Dalrymple é o pseudômino do Dr. Anthony Daniels, médico e psiquiatra britânico que escreveu artigos e livros com críticas arrasadoras aos modismos e tolices da cultura conteporânea, “the excellent foppery of the world”.

O Dr. Daniels trabalhou como médico residente em penitenciárias inglesas, atendendo a todo tipo de desajuste, sociopatia e vício em drogas. Não é, portanto, um teórico ingênuo ou acadêmico pretensioso. Ele sabe do que está falando, e o quadro que apresenta sobre as “ciências humanas” é, no mínimo, desalentador.

A psicologia moderna aparece como a busca incansável de novas e renovadas formas de se eximir de responsabilidades. Para todo problema, a culpa é do inconsciente, da família, de reflexos condicionados, da “baixa auto-estima”, da genética, de desiquilíbrios químicos no cérebro, de fatores evolucionários, e assim por diante. Em resumo, agora tudo é doença, e tudo pode ser resolvido com terapia ou medicamentos. Ninguém nunca tem culpa de nada. Perdeu-se a noção de responsabilidade individual, de vícios a controlar e virtudes a cultivar. Perdeu-se também a capacidade de aceitar qualquer tipo de sofrimento ou angústia como algo inerente à própria condição humana.

Basta trocar, na fala de Edmund, os termos astrológicos pelas baboseiras psicológicas ou sociológicas da modernidade. No fundo, para entendimento dos problemas humanos, é tudo pseudo-ciência.

O ponto principal é que, apesar de todo progresso científico e técnico, nossa compreensão da natureza humana não avançou minimamente em séculos. Santo Agostinho, Shakespeare ou Montaigne sabiam mais que gerações de psicólogos e sociólogos. Mais de cem anos de teorias não nos ensinaram nada que não possamos encontrar nos textos de grandes escritores e filósofos do passado. E muito mais bem escrito.

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