A importante revolução atemporal de Grace and Frankie

e como a Netflix é feita de pequenas revoluções como essa.

Algumas histórias nunca são contadas. Não há interesse em saber a vida do sapateiro entediado com sua rotina e ninguém quer saber dos corações que foram quebrados para que Hank e Karen pudessem ficar juntos. Por vezes, é difícil imaginar a vida de quem não é o típico protagonista, e esse é o favor que Marta Kauffman (Friends) e Howard J. Morris (Eu, a Patroa e as Crianças) fazem ao criar Grace and Frankie: contar as histórias que merecem ser contadas.

A série, estreia do mês da Netflix, é um questionamento constante em torno da mudança de vida de duas famílias. Sol e Robert são sócios e amigos há anos e, durante 20 deles, amantes discretos. Suas famílias sempre se encontraram, e durante esses períodos suas esposas nunca se suportaram. Quando o Estado passa a permitir o casamento igualitário, eles decidem sair do armário e se assumir, o que coloca as mulheres em uma situação complicada. Com personalidades conflitantes, elas passam a morar juntas, em uma parceria sincera e engraçada durante esse difícil momento.

Ela ultrapassa a máscara do políticamente correto e belo, tão sem usada em relações homoafetivas ultimamente, e cresce dentro dos próprios limites impostos por sua comédia. São justamente esses valores que guiam a série pela história que ela realmente quer contar: o que fica para trás quando você não teve seu final feliz?

Esse diálogo funciona como um resumo, pois é a partir desse ponto que entendemos que o foco não está no humor por trás de duas mulheres que não se suportam mas precisam viver juntas, mas sim na rotina de duas pessoas que perderam uma parte de sua vida e hoje precisam recriar um futuro um tanto quanto assustador.

Em um mundo cego para qualquer um que tenha mais de 50 anos, elas lutam para provar aos outros e a si mesmas que, sim, elas existem. Podem não ser um lindo casal homossexual que assumiu uma relação corajosamente, mas seguem um dia após o outro achando significado na bagunça real que é estar vivo, apesar de tudo.

Não trata pessoas mais velhas como eternos ignorantes da tecnologia, mas sim os convida ao centro da discussão e faz de sua idade não sua maior característica, mas apenas peça da narrativa, que serve de encaixe para milhares de outros plots. Seu roteiro é tão bem trabalhado nessa perspectiva que, em determinado ponto, você esquece que está acompanhando duas mulheres de 70 anos e passa a similar apenas a continuidade do seu dia-a-dia, em descobertas e desafios.

A série ressalta o ponto que, dificilmente, o casamento é o final feliz da história. Muitas outras crônicas podem começar desse ponto, como a própria preparação do casamento e os pequenos monstros que ficam guardados na vida de solteiro. Ao exemplo, o casal Sol e Robert, mesmo depois de 20 anos de relacionamento secreto, ainda precisa resolver muitas coisas entre si; o próprio sentimento que eles descobrem sentir sobre suas ex-esposas, como colocá-las de forma adequada em outra período da sua vida e como seguir sendo um casal perante a sociedade

Enquanto séries como Girls trazem para a mesa debates sobre início da carreira e auto aceitação, Grace and Frankie estão na outra ponta, fazendo o favor de demonstrar que dúvidas existenciais não são privilégios de uma geração em particular, mas de todos que estão dispostos a existir por inteiro, e que a mente humana é turbulenta, confusa e atemporal.

Grace and Frankie ganhou a atenção da mídia por diversos fatores. Hoje, depois de uma temporada lançada, percebe-se que esses são títulos irrelevantes perto do potencial narrativo que a série possui. Da sua força própria e sutil em revolucionar uma crise existencial eterna sobre a verdade que nem mesmo a maior das crises pessoais tem data para acontecer, e que não há muito o que se controlar, além dos próprios sonhos e aspirações.


Originally published at www.sucodelimao.com on June 1, 2015.