O melhor das séries são esses personagens

“Nosso apetite por estórias é um reflexo da necessidade profunda do ser humano em compreender os padrões do viver, não meramente como um exercício intelectual, mas como uma experiência pessoal e emocional.” (STORY, Robert McKee)

A primeira batalha que um escritor enfrenta é encontrar sua própria voz; em seguida, seu desafio se estende em encontrar a voz de seus personagens. Criar fragmentos de vida que dialogam entre si vivenciando situações baseadas nas suas próprias experiências, ou que deem movimento ao texto, é tão difícil quanto criar uma história consistente. É preciso que o personagem tenha coerência, faça sentido à sua própria conduta e esteja adequado à vida que leva. Do contrário, ele se torna uma armação moldável a qualquer situação ou, pior, a todas as situações.

Autores falam que a criação do personagem requer que o escritor o conheça inteiramente, escrevendo todas as fases de sua vida. Fazendo isto, ele próprio definirá sua reação dentro do enredo. Podemos notar essa diferença comparando personagens de seriados voltados para o mesmo público, como The OC e Gossip Girl: qual a reação que Blair teria ao encontrar um forasteiro na cidade? No caso, vemos como ela trata “Dan”, e como Marissa recebe Ryan. As experiências que ambas passaram, somadas ao ambiente em que estavam envolvidas, determinaram a coerência da história.

Outras dicas para criação de personagem são: ele precisa ter defeitos. Ninguém é perfeito e as pessoas se identificam mais com pessoas que também erram.

Matt Murdock: quanta vezes vemos Daredevil cair antes de limpar o sangue das mãos?

Indivíduos fortes e com apelo ao público são formados por essa “voz verdadeira” que o escritor lhes dá, como no caso Tyrion Lannister, de Game of Thrones. O anão exibe quão bem escrita a série é: vemos a dificuldade em demonstrar sentimentos do personagem, ao mesmo tempo que sabemos que sua mãe morreu em seu nascimento, sua irmã e seu pai o odeiam (bem, não é amor, pelo menos) e ele sofre preconceito por todos que o conhecem, pois é considerado uma “aberração”. Assim, o escritor criou um personagem inteligente (de uma astúcia única de quem precisa cuidar de si mesmo), engraçado (como se o humor e a sinceridade fizessem parte de sua própria aceitação) e diferente do resto da família.


A Lannister always pays his debts.


Joseph Campbell também inúmera alguns passos que levam o protagonista da história a “escrever seu destino” (leia-se: criar uma superprodução como Harry Potter). A Jornada do Herói, como é chamada, aborda o conceito de um caminho cíclico a ser perseguido pelo protagonista, o qual é retirado de sua rotina tediosa e levado à uma descoberta de si mesmo e do mundo, passando por adversidades e retornando como uma pessoa transformada. Porém, o personagem precisa ser interessante e verdadeiro. Por exemplo: se Dexter não tivesse a profundidade necessária, teria se tornado apenas outro psicopata serial killer, gerando antipatia pelas pessoas.

O sucesso de grandes seriados dependem do seu tema, da sua fotografia e direção. Mas, acima de tudo, das pessoas que dão forma ao seu enredo. As pessoas não gostam de estórias apenas pelo entretenimento que elas trazem, mas por uma espécie de fuga da realidade; uma representação de mudança de suas próprias vidas.

Texto originalmente postado em: Suco de Limão.