dia 01 — Nirvana


Metade do dia e ele já estava testando a plasticidade do rosto molhado em frente ao espelho. O cansaço escorria pelos veios escurecidos e cansados daquele rosto que lembrava um pouco menos a figura que se olhava ontem. Algo que sustentava a cabeça ruiu, e de repente o cotidiano turvou, e suas tormentas se despejavam em pancadas de água da torneira para acordar.

A vida, essa entidade que nunca se segura. Os momentos como água que escorre e hoje são mágoas daquela mesma pessoa, ela que ditou os objetivos, ela que te disse para continuar, ela que disse que não era mais isso. Ícaro se lembra do monólogo silencioso que fazia toda noite para desapregoar da sombra da mulher que ocupou sua cama durante anos, e então decide voltar a trabalhar.

Olhares ressoam como sussurros, trincando o passo pesado de Ícaro até a mesa que o protege da pena dos amigos do trabalho. Usa o monitor como um escudo de imersão, para evitar encarar a verdade de frente. Lá se encontra com uma ex-BBB que empinou a bunda na praia, com dicas de como emagrecer, ser mais feliz. Até o anúncio tem pena de Ícaro, e oferece uma viagem em um paraíso caribenho, em uma promoção personalizada.

“A tecnologia quer resolver meu problema de qualquer jeito”, pensa. “Como se todo problema precisasse de uma resolução final”. Para Ícaro, aquilo tudo parecia uma vitória mórbida, um despertar para uma nova vida a base de um trago muito ruim. Uma vida sem soluções, e sim com perguntas pautadas por um olhar mais criterioso para os acontecimentos. Mas para virar critério, a ferida tinha de parar de arder.

Ícaro decide triturar essa dor, destrinchar a carne morta para cauterizar. Com o dedo firme e carinhoso no mouse, ele clica na praia paradisíaca e nesse momento atende aos desejos estatísticos da internet de saber exatamente o que ele queria. Talvez porque ele já não quisesse mais nada.

Ícaro foi então lentamente apagando, deitando sobre a mesa. Abriu os olhos e estava lá, Bahamas por todos os lados. Todos os lugares diziam algo que ele tinha que querer, e por já não querer mais nada, queria tudo. De tudo em tudo, Ícaro nunca mais precisou acordar.