dia 07 — Yoga

O pensamento navegava tranquilo enquanto Isadora relaxava o ventre de pernas cruzadas no chão de um galpão branco em alguma altura da Vila Mariana. Sete horas da manhã e ela de coluna ereta a respirar calmamente, o pensamento determinado a não pensar.

— Isa… Isa!! Olha esse cheesecake maravilhoso, hum! — diz o pensamento serelepe puxando aquela lembrança de ontem que ficou escondida da dieta — Diz aí? Topa o rolê até a padaria? Hoje ninguém vai saber!

— Para de pensar, para de pensar! — pensa em alta respiração, para o horror das companheiras zen — É só lembrar da paisagem, relaxar, ninguém vai perceber, ufff, ufff — soltando jatadas de ar sedentas de açucar.

— Ok, ok, você venceu, solta a música clássica! — começa a playlist mental com o Quebra-nozes— agora acompanha essas tomadas incríveis que eu guardei da calda de framboesa escorrendo da colher enquanto aquela gordinha feliz da vida morde a massa cremosa, isso sim é arte.

— Meu Deus, por que? — pânico em silêncio — eu só quero um pouco de paz!

— E eu tô aqui pra isso, eu sou você, sua linda, só que mais divertido! Aliás, antes de você entrar aqui você tava achincalhando o pobre do Matheus, e agora tá achando que o esgoto vai pelo ralo? Tá tão doido aqui dentro que eu sou capaz de jogar a Dercy Gonçalves pelada em cima desse cheesecake!

Isadora começa a tensionar a ponta dos pés e sua vizinha que já tinha aberto os olhos se sente à vontade para cutucar a cutícula com cuidado cirúrgico.

— Tá vendo só, Isa? Parece que o sexo tântrico também não tá resolvendo a vida da Ana, ho ho ho — o pensamento de Isadora tem uma risada burguesa — Se bem que zerar o Netflix também não te ajudou a enfrentar essa segunda-feira. Sabe o que realmente resolve o problema das pessoas? Cheesecake. E sexo também, só que às 07 da manhã com o Matheus no trabalho, você vai precisar ser mais ousada que o habitual. Bom, por que não né?

— Escuta só, seu demônio! Eu não vou sair transando nem comendo cheesecake, até porque eu já pago 150 reais por hora nessa sala de reboco pra ter paz, saaaaaai!

— Menina, que horror, esqueceu que você sou eu? Que auto-estima é essa? Acho que só sexo e cheesecake tá pouco, você tá precisando de um baseadão, tipo aqueles da faculdade que você fumava com o Joaquim. Se bem que naquela época valia a pena pra aguentar os amigos sujinhos que passavam mais tempo com ele do que você.

— O Matheus não quer mais que eu fume, e agora eu só quero pensar em nada, nada, nada… — e a cara já estava toda franzida.

— Você teve bastante tempo pra pensar em nada esse fim de semana esperando o Matheus chegar do churrasco e brochar logo em seguida, não? Foi aí que eu nasci, ihull! Agora estou aqui fazendo um carrossel de cheesecake, Dercy Gonçalves, baseado e sexo ilegal na sua mente.

— Gente, como eu posso ser isso?

— Eu é que pergunto, como você pode ter essa vida de merda e ainda vir relaxar às 07 horas da segunda? Você tá precisando é de um descarrego!

— AAAAAAHHHHHH!! — esse grito foi real.

E assim Isadora levantou, quebrou o mensageiro dos ventos, jogou na fonte de Feng Shui e saiu correndo. Comeu um cheesecake inteiro e saiu chorando de culpa, no que de repente se deparou com uma igreja nova, com um altar em formato de prancha de surf.

Hoje Isadora continua com o demônio do cheesecake, mas quanto mais ele incomoda, mais alto ela canta o louvor. O silêncio é difícil demais.

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