dia 11 — 51 anos de oposição

Gosto muito de ler sobre política e estava com esse enredo todo na minha cabeça, então decidi gastar umas horinhas de pesquisa para escrever por extenso.

A história é a seguinte: estamos nos anos 60 e um regime de repressão militar é instaurado no país. Grupos de estudantes se organizam politicamente para demonstrar resistência a um regime que de início se propõe a proteger o país de uma “ameaça comunista” com as amizades de Jango na guerra fria. Esses grupos organizam protestos e são reprimidos violentamente por expressar uma opinião contrária ao poder do estado.

Alguns desses grupos passam a existir clandestinamente, e quando a repressão recrudesce, decidem alguns por um enfrentamento armado aos moldes de outras iniciativas na américa latina, enquanto outros procuram disseminar conhecimento nas bases camponesas e operárias, de modo a fortalecer a luta de classes. Muitos desses grupos são dedurados e o que vemos são pessoas torturadas, desaparecidas, mulheres violentadas, lideranças exiladas. Nesse momento, a população se cala com medo, e a diplomacia internacional tenta se envolver nos acontecidos, sem muito sucesso, devido a uma blindagem que graças aos documentos revelados recentemente, era suportada pela diplomacia norteamericana.

Nesse momento, independente da verve política e da intensidade do radicalismo, todos estão afrontando o regime: José Serra, presidente da UEE-SP, exilado no Chile; José Dirceu, sucessor na presidência da UEE-SP, preso e exilado em Cuba; Aloysio Nunes, guerrilheiro pela ALN e filiado ao PCB, exilado na França; FHC, acadêmico da sociologia, exilado no Chile; Dilma, guerrilheira no grupo VAR-Palmares, presa e torturada;

Passam-se os anos 60 e 70 e o que se vê é uma primeira dança da cadeira: em 1980 é fundado o PT, com a união de intelectuais de inclinação marxista com sindicalistas, que promoviam a ideia de um socialismo antistalinista com algumas dissidências inclinadas à aceitação da ordem burguesa, e José Dirceu volta após uma longa estadia na clandestinidade. Dilma trabalha em órgãos relacionados ao MDB (oposição no bipartidarismo promovido pelo regime militar e futuro núcleo formador do PMDB) promovendo palestras e posteriormente se engaja na formação do PDT ao lado de Leonel Brizola. Aloysio Nunes volta à vida política pelo PMDB como deputado, assim como José Serra, que se envolve no governo pemedebista de Franco Montoro. FHC também é figura proeminente do PMDB.

Lula, um sindicalista que se destaca pelo poder de mobilização nas grandes greves do ABC no início dos anos 80 surge como figura proeminente do PT, e passa a se envolver na política, sendo eleito deputado federal em 1986 e participando da Constituição de 1988. Nesse mesmo ano dissidências do PMDB decidem fundar um partido de centro-esquerda chamado PSDB, agregando Serra, FHC e outras lideranças do PMDB pelo Brasil (Aloysio Nunes acaba se juntando posteriormente), mas sem relação com movimentos de base.

Daí temos a derrota de Lula para Collor em 1990, a crise econômica instaurada pelo acúmulo da dívida deixada pelo governo militar somado a ineficiência do governo Sarney em controlar as crises dos anos 80, e a inflação fora de controle. Após o impeatchment, Itamar Franco assume com apoio da maioria dos partidos, exceto o PT que decide assumir a figura de oposição. FHC assume o ministério da Fazenda e junto a sua equipe desenvolve o Plano Real, que institui nossa nova moeda, e consegue conter o ímpeto inflacionário.

FHC é então eleito, consegue modificar a constituição para aprovar a reeleição, permanecendo até 2003. Seu governo é marcado por políticas econômicas neoliberais, o que acarreta na privatização das empresas de telecomunicações, estradas, ferrovias. A orientação econômica acirra as discussões com a oposição, formada em especial pela bancada petista em parceria com outras dissidências de esquerda como o PDT. Os dois partidos chegam a formar uma chapa para a presidência em 1998 mas perdem a eleição.

Em 2002, o PT se coliga com o PL, PCB, PC do B e PMN, e mostra maior flexibilidade no discurso. Lula se torna o “Lulinha Paz e Amor”, e passa a adotar um discurso que valoriza o diálogo. Lula ganha a eleição com ampla vantagem sobre José Serra, e realiza uma transição pacífica do governo FHC.

O governo Lula adota políticas econômicas semelhantes às do governo anterior, evitando entretanto processos de privatização e focando no assistencialismo social, com enfoque no combate à miséria através do programa Bolsa Família (que já existia no governo FHC, mas ganhou verba e visibilidade no governo Lula). José Dirceu assume como ministro-chefe da Casa Civil e Dilma se torna Ministra de Minas e Energia.

Em 2004/2005 é revelado o esquema do mensalão, em que políticos de diversos partidos (em especial do PTB e PL) recebiam propina para votar a favor do executivo. A denúncia custou a cabeça de José Genoíno (PT), que renunciou após o assessor de seu irmão ser pego com dinheiro escondido na cueca, e de Delúbio Soares, tesoureiro do partido acusado de realizar as manobras do esquema.

Para se manter competitivo nas eleições de 2006, o PT fortalece a aliança com o PMDB, maior partido do Brasil, e Lula vence novamente as eleições, alavancado por bons índices de crescimento no país, baixo desemprego e diminuição da pobreza extrema. José Dirceu é demitido do governo, e torna-se figura principal no julgamento do mensalão, no qual é condenado, embora não houvesse qualquer prova de enriquecimento pessoal.

Dilma torna-se Ministra da Casa Civil e Lula enxerga nela a possibilidade de renovar a disputa presidencial, dado que boa parte das figuras principais do PT estavam com a imagem desgastada. Dilma torna-se a mãe do PAC (Projeto de Aceleração Econômico), é elogiada internamente pelo conhecimento técnico e proatividade e em 2010 é eleita com o enredo de continuidade do projeto político de Lula, e surfando em uma imensa popularidade do então presidente.

Chegamos finalmente às 2 eleições de Dilma. Na primeira, uma vitória inconteste sobre José Serra, e um governo marcado por programas de habitação (Minha Casa, Minha Vida), educacional (PROUNI), de obras de infra-estrutura (PAC), mas com uma volta da ameaça da inflação e queda nos índices de emprego e desenvolvimento econômico.

Em 2013, tudo mudou. Protestos se iniciam em São Paulo e Rio a princípio com movimentos de reivindicação do Passe Livre (MPL) e crescem de proporção ao se fundirem de maneira difusa com uma pauta de fim da corrupção, com o crescimento da participação de setores conservadores da sociedade (em especial da classe média), e com o afastamento dos movimentos de reivindicação popular.

Essa pauta é motivada por mais denúncias de esquemas de corrupção que ocasionam na mudança de várias pastas do ministério, e com o julgamento do mensalão, que ocasiona na prisão de José Dirceu, colocando definitivamente a credibilidade do PT em cheque.

Os protestos se agravam com a realização da Copa do Mundo, em que gastos exorbitantes foram autorizados para a finalização da construção dos estádios, em alocações questionáveis em questão de uso. A Copa é realizada com sucesso e os protestos cessam.

As eleições chegam e o PSDB (agora declarado como oposição) escolhe Aécio Neves, governador de Minas Gerais, para disputar a eleição. Aécio manteve boas relações com o presidente Lula ao longo de seus mandatos, e iniciou a disputa com tom ameno e conciliador para tentar conquistar a adesão dos eleitores lulistas.

A campanha se inicia com ampla maioria de Dilma e Marina Silva (içada pelo PSB após a morte de Eduardo Campos), e Aécio cresce ao criar uma polarização com a imagem de Dilma, o que acabou por enfraquecer a campanha de Marina ao permanecer no centro do debate.

No segundo turno Aécio voltou suas armas para os escândalos de corrupção e apresentou uma pauta conservadora, com base no retorno de mais políticas neoliberais (como na proposta de privatização dos presídios), enquanto Dilma se apoiou nos grandes programas do governo e na defesa de que todos os escândalos estavam sendo investigados pela Controladoria Geral da União, além de trazer à tona escândalos como a construção do aeroporto em Claudio (MG), nas terras do tio de Aécio.

Dilma ganhou com um vantagem muito pequena, e a eleição deixou marcas pesadas no embate dos dois partidos, que trocaram acusações entre os governos anteriores (FHC e Lula), instigando uma polarização que existira nas bancadas enquanto ambos foram oposição, mas que nunca tinha ganhado tamanha rivalidade.

A pequena diferença motivou protestos populares apoiados pela mesma pauta de fim da corrupção, e com crescimento amplo do conservadorismo extremo (volta do regime militar é uma entre as pautas). A princípio o PSDB se mostrou reticente em apoiar esses movimentos, mas assim que as denúncias da Operação Lava Jato (capitaneadas pela Controladoria Geral da União) atingiram mais integrantes da base governista, resolveram aderir ao contraponto. Aécio Neves assumiu uma das lideranças do partido e esforça em se mostrar como oposição.

Eduardo Cunha, última figura desse compêndio de história, assumiu a Câmara dos Deputados devido à insatisfação do PMDB com a concentração de poder da coligação no PT, e sendo desafeto dos petistas, esforça-se em promover pautas que contrariam aos interesses do governo, como causas sociais (Maioridade Penal), e o ajuste fiscal.

O governo Dilma atualmente esforça-se em reverter uma crise instaurada pelo descrédito no Brasil motivado pelas denúncias que envolvem o alto empresariado, desaceleração da economia chinesa, alta da inflação, e queda brusca nos índices de desemprego. A crise era anunciada, porém aparentemente o governo protelou medidas para este ano, evitando que efeitos mais pesados dos ajustes (como a alta do câmbio) fossem sentidos em época de eleição.

Portanto, questões e conclusões que eu consigo tirar desse rápido e razoavelmente raso estudo histórico:

1– Por que as pessoas querem combater o raio do comunismo? O PT nunca foi comunista, e FHC é um grande estudioso do marxismo. Programas sociais são necessários para equalização de classes, porque o Brasil ainda tem pessoas com necessidades mais básicas do que consumir (tipo comer 3 refeições ao dia). Isso nenhum partido com um pouco de bom senso nega.

2- Salvo algumas tentativas de influência, o governo de fato deixou as investigações correrem e condenou membros do próprio partido, o que é uma atitude interessante, até porque ela traz o caos para o próprio partido ao incomodar aliados como o PMDB.

3- Por que as pessoas se apegam tanto à imagem da Dilma? Ela comprou um angu de caroço ao abraçar uma eleição (2010) no meio de dúzias de escândalos, de um partido do qual ela nem fazia parte há muitos anos. Para mim é uma espécie de bullying, como se a galera batesse porque ela não sabe revidar direito (ela é péssima de discurso, e não tem um temperamento muito afável).

4- Extensão do ponto anterior: por que Dilma topou abraçar o PT já no meio da falência moral do partido? Ela que era parça do Brizola e passou anos escondida em cargos de pouca visibilidade, e poderia continuar ganhando seu salário no Rio Grande do Sul honestamente.

5- Por que Dirceu não fugiu da prisão ou das outras condenações? Ele já fez isso com certa prática das vezes anteriores, indo pra Cuba e até realizando operações plásticas.

A Conclusão final é que os anos 60 ainda estão latentes na nossa política, e essa não é uma disputa por dinheiro, e sim por poder. O presidente do PT, Rui Falcão, foi companheiro de Dilma na VAR-Palmares, e os dois participaram de grupos de discussão política ao longo dos anos 70 e 80. Dilma é parte de um projeto de poder traçado em amizades antigas, pautadas por causas e ideologias comuns. Ela não está ali por acaso, e não aguenta toda essa bucha por acaso.

José Dirceu não resistiu à prisão porque na minha visão se considera um preso político: tentou negociar o poder com o inimigo (mensalão) e perdeu. Agora existem provas de enriquecimento do mesmo, o que mostra que este poder não é tão ileso do benefício próprio.

Lula se distanciou de antigos colegas (leia-se bem, colegas) como FHC e Serra ao assumir a coroa do seu partido, e é difícil saber o quanto ele domina o projeto do partido, mas é certo que seu tino político continua potente ao tentar se descolar do mandato de Dilma, fazendo críticas e ações políticas com o Instituto Lula. Entretanto, é ele que deixou a maior marca ao se dispor a negociar com opositores antigos (Sarney, Collor), restos do regime entre outras coisas, criando uma coalisão de poder surreal.

Para Aécio crescer, foi preciso abafar lideranças como Serra e Aloysio Nunes, que repudiam bizarra a aliança do PSDB com segmentos de extrema direita (aliança esta que não é direta, mas que fica implícita em votações e na insistência do processo de impeatchment, para o qual não há provas ainda).

Daí refundamos o bipartidarismo pós-Guerra Fria, com dois partidos que possuem atualmente a mesma base econômica, filosófica e aliada (vide doações de campanha e partidos de apoio nos mandatos), mas que se mostram diferentes nos artifícios. Muito parecido com os anos 1960, com a diferença que ninguém mexe com o status quo do “velho poderio”, deixando o extremismo versar livremente valores do TFP (Tradição, Família e Propriedade), e se valer de recursos altamente duvidosos para que a briga continue.

Ah, e os verdadeiros movimentos populares não tem mais qualquer representatividade no grosso da política, independente do lado (se é que lado existe).

A história é fascinante e dava um ótimo seriado, só espero que o fim não seja trágico para todos nós.