Nim

Desde sábado à noite eu venho recordando as tantas histórias que minha memória já não tão boa guarda por insistência, e quando não lembro tento só imaginar aquelas cenas: a cidade que ele nasceu e que virou uma vila abandonada em Minas Gerais, o Tatuapé e o Parque são Jorge nos anos 40 com bondes, cinemas e campos de terra, os bailes e as tavernas do Brás, a vez em que foi preso com uma moça na praça da Sé à meia-noite (ok, essa eu evito imaginar :p), as viagens para o Guarujá com o carro atolando na estrada de terra (e todo mundo rindo, óbvio), os piquetes e fugas de emprego (que na época devem ter sido dramáticos, mas as histórias são ótimas), o casamento simples num domingo de missa na igreja do Cristo Rei, os dois enfartes, a voz rouca, e daí pra frente essas histórias se confundem com as minhas lembranças de vida, com direito a beijo na testa e muita cantoria.

Fiquei pensando durante os últimos anos (pois sabia que mais hora ou menos hora ele partiria) como seria um mundo sem o Nim, e nesse fim de semana o homem virou lenda: foi descansar no colo da sua mãe, como me veio em um sonho e é o que prefiro acreditar. Voltou pras suas histórias ao invés de continuar essa jornada dolorosa e arrastada que é ver o mundo se acabar, e se acabar junto com ele.

Tem tanta coisa nele em mim que, depois de sofrer um pouco por apego, percebi que o Nim está em todos nós, na forma de gesto, de cultura, de simplicidade, de alegria de viver, e portanto nunca deixará de estar, independente do que se acredite no pós-vida.

Hoje eu sou o último Garbulho que vive onde toda essa história começou, e para mim é uma honra devolver para aquele lugar a gentileza de um outro tempo, que existe em uma dimensão paralela debaixo dos prédios e do corte das novas ruas. Mora escondido no parque do Piqueri, talvez.

Obrigado por tudo Nim, mas principalmente por transformar minha maneira de enxergar o mundo existindo pra sempre dentro de mim.