Das pequenas omissões até os grandes desastres

Fernanda Lobato
Aug 8, 2017 · 5 min read

Esse texto é o reaproveitamento de outro texto, que eu ia falar das relações entre o desastre de Mariana e as cápsulas de café. Mas o tempo passou e, apesar de eu ainda odiar de morte as tais cápsulas, resolvi pegar parte do texto e fazer outra coisa.

Dois anos atrás eu estava acampada na casa de amigos, fazendo as disciplinas obrigatórias do doutorado. Meus amigos só tem TV aberta o que dá a oportunidade de ver como as pessoas normais (eu não sou) recebem as informações e processam notícias.

Passava o desastre em Mariana no jornal matinal e a única coisa que me passava na cabeça era como alguém imaginava que fazer piscinas de barro tóxico era uma boa ideia.

Falei com meu amigo — Como como pode? Como pode alguém achar isso uma boa ideia. E meu amigo — que está tendo aulas de sustentabilidade e está estudando Mariana, disse que era assim mesmo que a coisa era feita.

Não era bem o que eu queria ouvir, talvez porque não tivesse feito a colocação correta. O que eu queria dizer é — como humanidade (o todo) — nós deixamos essas coisas acontecerem?

Um cara engravatado chegou no prefeito e disse?: — "Olá eu represento a Samarco, Nós vamos cavar um buraco enorme aqui e encher ele com lama tóxica. Mas não se preocupem, nossa mineradora dará incentivos e empregos a população. Por favor assine aqui". — "Mas e essas letras miúdas?" — "Ah, não se preocupe, isso é no caso da barragem arrebentar". — "Mas, ela vai arrebentar?" — "Hum, eventualmente ela vai encher. Mas não se preocupe, tomaremos todas as medidas necessárias. Pense nos empregos, no seu legado, na reeleição".

Coisas semelhante pode ter acontecido em Fukushima. — "Mas é seguro construir uma usina nuclear numa região propensa a terremotos?"- "Claro que sim, tomaremos todos os cuidados necessários. Assine aqui".

E as pessoas aceitam, pelos mais diversos motivos. Ou porque simplesmente acham que as coisas são assim e não é da sua conta. O outro que pense a respeito. Douglas Adams brincou com esse comportamento chamando de POP — Problema de Outra Pessoa.

Um POP é alguma coisa que não podemos ver, ou não vemos, ou nosso cérebro não nos deixa ver porque pensamos que é um problema de outra pessoa. É isso que POP quer dizer: Problema de Outra Pessoa. O cérebro simplesmente o apaga, como um ponto cego. Se você olhar diretamente para ele, não verá nada, a menos que saiba exatamente o que é. A única chance é conseguir ver de soslaio.

Fui procurar na rede e achei esse artigo, que explica de forma rápida do porquê das piscinas de barro, mostrando alternativas a essa prática.

Tempos depois a mãe de uma colega minha de escola foi processada por calúnia. Minha colega perdeu um dos irmãos no incêndio da boate Kiss. Mas parece que, no Brasil, um juiz se sentir confortável e feliz com seu desempenho é mais importante que dar conforto e ajudar uma mãe a fechar um capítulo na perda de um filho.

Boate Kiss é algo que me incomoda. Sim, eu sou de Santa Maria, conheço a dinâmica social da cidade e durante anos depois da Kiss disse que era de Porto Alegre para evitar perguntas.

A tragédia não me afetou diretamente. Não tinha primos, nem conhecidos próximos. Mas sei de amigos, colegas, vizinhos de meus pais que foram afetados.

Era algo que ia acontecer. Algum dia.

Todos os anos, para levantar dinheiro para a formatura dos diretórios acadêmicos fazem festa. As festas ocorrem em boates, quanto mais badaladas, melhor. Só que a boate cobra um "X"de ingressos que é dela e o que é vendido depois disso vira o lucro da festa que vai para a "caixinha" da formatura.

Trabalhei no diretório acadêmico do nosso curso alguns anos. O que as boates cobram costuma ser alto. Me lembro que as vezes era mais fácil levantar dinheiro na sinaleira que numa festa. Muitas festas deram no vermelho.

Cursos grandes como medicina e direito se viram bem. Cursos menores — como era o nosso — costumam se juntar para arcar com os custos da festa e o que sobra é muito pouco.

A solução? Superlotar.

Não que isso já acontecesse mesmo sem a festa de um curso. Cansei em estarem boates em Santa Maria onde era impossível andar. Um dia, dentro de uma boate cheia de forração, cheirando a fumaça e lutando para levar meu copo a boca sem levar um direto no queixo, me dei conta da ratoeira em que estava e deixei de frequentar o local.

Mas a maioria das pessoas prefere o contato com outros seres humanos. E a boate continuou cheia até abrir outra e ela deixar de ser "o point". Pessoas gostam de estar com outras pessoas e confiam que o dono do estabelecimento está tomando todos os cuidados necessários para garantir a segurança de todos.

POP

Já o dono do estabelecimento tem um sócio e eles tem que lidar com algo chamado alvará. Há anos em alguns lugares alvarás são dados dependendo das circunstâncias, e estas circunstâncias pouco tem a ver como itens técnicos como saídas de emergência, extintores e o que acontece com o forro se ele for queimado. O forro anti-chama é bem mais caro que o convencional, que mal fará economizar uns trocados? Até quando essa boate vai durar mesmo? É só ninguém, sei lá…acender um lança chama lá dentro. E o fumo está proibido de qualquer forma.

POP

A pessoa que dá o alvará de funcionamento tem contas a pagar e quer ter alguns pequenos luxos vida. Ela confia que tudo vai dar certo e que o proprietário não vai ser maluco de tocar fogo no próprio estabelecimento com pessoas dentro.

(Nesse ponto tenho que abrir um parênteses. Santa Maria tem um histórico de proprietários piromaníacos que gostam de expulsar inquilinos incômodos a base de fogo — pelo menos reza a lenda).

POP

A boate tem que dar lucro, para tanto tem que ter atrações. A banda contratada gosta de apresentações com fogos. Mas fogos de uso interno custam umas 10x mais que fogos comuns. Eles acabam comprando os fogos de uso externo, afinal o que pode dar errado? A casa tem alvará, e a banda tem custos e as apresentações tem que — pelo menos — garantir o almoço do dia seguinte.

POP

Nesse ponto, acho que entendemos. Todos nós sabemos os culpados das tragédias de Mariana, Fukushima e da boate Kiss. No entanto, é importante lembrar que foram uma cadeia de omissões, algumas pequenas, outras maiores, que resultaram nessas tragédias. Nenhuma pessoa em particular pode ser culpada integralmente por esses desastres, mas podem ser responsabilizadas pelo papel que exerceram em cada uma.

Nossas decisões erradas, quer por preguiça, quer por comodidade ou outro fator, podem encadear-se a outras decisões erradas e desencadear desastres tão grandes quanto esses que citei.

Chego a conclusão que a melhor forma de evitá-las é fazer o que é certo. parece simples, e é. É dizer não quando a oferta tentadora não cheira tão bem, é usar o material correto na obra ou no produto, é pagar o justo, é fiscalizar de fato, é punir os infratores. É simples, mas talvez seja difícil. O jeito é começar com cada um, nas pequenas coisas.

Porque, se algo der errado, pode ser uma tragédia.

PS: É estranho que no caso da Kiss, dos 28 arrolados no processo, apenas 4 estejam em julgamento. Nenhum deles do poder público. Isso não está certo.

Fernanda Lobato

Written by

Desenhista, cabeça dura. Chutando baldes e bundas desde 1975.