O que aprendi no tempo que trabalhei no governo (parte 1).

Fernanda Lobato
Aug 22, 2017 · 2 min read

Ultimamente pessoas tem expressado sua curiosidade sobre o tempo que eu trabalhei no governo, foram praticamente 10 anos, e acho esse interesse legal, pois sei que as pessoas são cautelosas em expressar sua curiosidade.

A primeira coisa é que eu mudei alguns pontos de vista radicalmente. Ouvi de algumas pessoas que eu tinha mudado porque Brasília é uma ilha da fantasia, isolada do resto do país.

Sinto discordar.

(primeiro, amigas, vocês nunca saíram de sua cidade. Como, se nunca sairam do interiorzão do Rio Grande do Sul, vocês podem achar que eu que vivia numa ilha)?

Sim Brasília é longe dos grandes centros. A dimensão em que foi construída deixa qualquer manifestação popular, por maior que seja, parecer uma festa de São João na escola do bairro.

Mas está longe de ser uma ilha isolada. Brasília te lembra todo o dia o que é o Brasil e trabalhar no governo — se você for atento o suficiente — te dá uma dimensão de quão esmagadoramente grande e diverso o Brasil é.

Brasília é a Belíndia de Verissímo: o vai e vem dos funcionários da cidade-satélite-Esplanada-cidade-satélite, a divisão de classes, quase em castas. Quando cheguei o metrô fazia o seu serviço apenas nos dias de semana, e funcionava no sentido cidade-satelite-Esplanada apenas até as 19h. Parecia dizer “Só queremos vocês, candangos, para o trabalho, após isso recolham-se as suas caixas”.

Uma vizinha tinha uma escrava em casa. Sim, era uma empregada doméstica sem documentos que trabalhava da hora de acordar até a hora de dormir. Quando descobri, tentei intervir, mas o pai da moça sumiu com a senhora e se mudaram logo depois.

Também conheci pessoas legais, que tinham nascido em Brasília (candangos, brasilienses), ou a adotado como sua cidade. Pessoas que odeiam quando dizem que em “Brasília só tem ladrão”. Calma lá! Nós elegemos esses ladrões e os enviamos ano após ano para lá. Não culpem os candangos pelo conjunto da obra.

Outra coisa ruim de se ouvir: “Tem que jogar meteoro em Brasília”. Até concordo, mas só se for de terça a quinta — quando aqueles que vc quer atingir, trabalham e — AH! Tem que ser pauta polêmica, os os piores também costumam ser os mais faltosos.

Mas aconselho, mesmo, que deixe Brasília em paz e vá procurar seu desafeto no seu próprio quintal. Ou melhor, se informe antes de votar. O voto é secreto e votar em deputado, vereador, senador, não é algo de se fazer por troça ou brincadeira. Quem votou no Tiririca levou o Capitão Augusto de brinde.

Por fim, uma coisa muito legal que descobri lá foi a Lei da Transparência e as ferramentas para sua implementação. Também aprendi o que era PLOA, LOA. Entre tantas outras coisas.

Quem ficam para o próximo texto.

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Fernanda Lobato

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Desenhista, cabeça dura. Chutando baldes e bundas desde 1975.