Saborear Cachaça é Também Experimentar o Extraordinário
A pinga é uma experiência cultural antes mesmo de ser sensorial

Seis horas da manhã, acusam gravemente os ponteiros do relógio da cozinha. Como se estivessem de braços abertos, o pequeno no 6 e o grande no 12, eles exclamam meu habitual atraso naquele cômodo. Preventivamente, deixo tudo mais ou menos no lugar para tentar recuperar os preciosos minutos perdidos no campo de batalha dos lençóis. Um terrível combate do qual todas as manhãs saio com a estranha sensação de não ter sido vitorioso. A chaleira sai da pia cheia d’água para o fogão com a chama já acesa. Às vezes duvido que eu mesmo tenha acendido o fogão e colocado água na vasilha. O piloto automático comanda a consciência — primeiro a garrafa, depois o coador, seguido do pó e, por fim, a água. Enquanto isso os olhos não desgrudam dos ponteiros que vão fechando o cerco e espremendo o tempo. Antes deles se tocarem, batendo palmas, me expulsando a mesa, ainda preciso esquentar o pão e tirar a manteiga da geladeira. Estou com sorte, ainda ficou suco na geladeira (ou será que preparei agora pela manhã? Não me lembro).
Os ponteiros implacáveis já fazem um ângulo de 45 graus. Sento à mesa só. Não dá tempo de esperar pelos demais que ainda travam suas batalhas particulares contra o sono (ainda que pudesse esperar, o impiedoso relógio, lá de cima, quase encostado no teto, numa espécie de altar, nos constrange em fazer outra coisa senão acelerar a refeição). Antes de levar a xícara à boca, mais uma reverência ao relógio. Outra vez implacavelmente vencido pelo senhor do tempo. Os ponteiros já batem palma, hora de ir.
Café ainda fumegando goela a baixo. O pão, meio morno, me acompanha entre a mão e a boca enquanto levanto da mesa, despejo a xícara na pia junto ao restante da louça não lavada que adormeceu ali. Com dois passos ganho a porta da rua. Bato-a com o último pedaço de pão na boca. Espera! O suco… Ficou na geladeira ou nem fiz? Não dá mais tempo.
No caminho vou tentando lembrar do cheiro do café que engoli quase queimando a garganta e me entendendo com o gosto meio azedo do pão com manteiga ainda na minha boca. Forço a cabeça para lembra se fiz mesmo o suco. Aos poucos o gosto do pão de vai se dissipando, o aroma fumegante do café se esvai das minhas memórias e o esforço de lembra desses sabores e aromas é substituído por questões mais concretas, será que ônibus já passou? A apresentação para a reunião está aprovada? A prestação do apartamento está paga? Bom, pelo menos a fome está aplacada.

Ao cair do dia, algumas tarefas cumpridas e outras tantas acumuladas, decepções sofridas, angústias remoídas, raivas violentamente contidas. Mas, também, pequenas satisfações, algumas prestações pagas, um displicente cumprimento de aprovação (talvez tenha sido o reconhecimento por uma tarefa bem executada, espero), um sorriso sincero de gratidão de um colega.
Nessa rotina avassaladora de cumprimento de tarefas sobra o satisfatório, aquilo que nos constitui ordinário, o suficiente apenas para manter a marcha monótona do quotidiano. Comer para matar a fome, beber para não ter sede, trabalhar para fazer a roda da fortuna girar, álcool para anestesiar as dores da alma. No fim das contas o padrão é não ter falta, ser elementar e conveniente.
Felizmente, nossa vida marcada pela tediosa constância é eventualmente tomada de assalto por uma vontade imperiosa e sermos EXTRAordinários. São nos hiatos que se abrem na esteira do tempo-comum que buscamos nos reconhecer protagonistas da nossa história e perceber que o mundo que ferozmente nos cerca é também o mundo que gentilmente nos abraça.
É hora da cachaça.
Por que? Porque é a brasilidade engarrafada. Uma bebida carregada de significação histórica e carregada de histórias, causos, contos e lendas. Nossa pinga é uma das mais saborosas formas de contar ao mundo quem é o povo que se formou a nação “d’alémar”. Ser alcoólica, nesse caso, é adjetivo, qualidade das boas, diga-se da passagem, mas um adjetivo.

Por isso o exercício de perceber-se extraordinário, começa exatamente no momento em que resolvemos aplacar a ânsia de beber e, calmamente, olhar parar a garrafa de cachaça. Em seguida é preciso respirar fundo e enxergar através dela. Vamos aguçar a alma e descobrir na nossa pinga um portal. Nesse olhar de espírito afiado não vamos atravessar, alcançando outro lado da garrafa. Vamos, momentânea e deliciosamente, nos perder lá dentro. Esse olhar da alma vai transpor a barreira do tempo e enxergar ali as mil-mãos pretas, brancas, marrons, vermelhas, sujas, delicadas que vêm construindo a pinga ao longo dos nossos séculos de existência. E sim, agora somos parte dessa construção, contribuído com nossos vestígios demasiadamente humanos.
Perceber-nos extraordinário com a pinga é, acima de tudo, ignorar a ditadura do relógio, dar-nos conta de que a relação daquela branquinha com o tempo é diferente da nossa, ou melhor, a cachaça é indiferente aos nossos tempos e prazos. Ela é gestada continua e lentamente, não por uma safra, mas por centenas de safras ao longo de centenas de anos. Ao tomar a experiência da cachaça como um rito, é preciso entender que é bebida de construção social, que se constitui um mosaico de aprendizados e sabedorias que extrapolam a chegada das Naus à essa terra ainda desconhecida do velho continente.
O que se bebe é, então, pura e simplesmente o resultado, o recorte de um momento, apenas mais um capítulo da história desse grande povo brasileiro. Por isso é preciso prazerosamente desacelerar. Beber pinga é um ato de reverência. E, como em todo rito, para que sua mística seja alcançada, é preciso que nós nos percebamos inteiros, que sejamos, completos. Ao conseguirmos frear a rotina que nos consome e contemplar a riqueza cultural daquela bela bebida, somos capazes de nos destacar na nossa própria vida-média. Nesse momento estamos mais sensíveis e comovidos às complexidades sensoriais daquele recorte no espaço-tempo que, carinhosamente chamamos de pinga, cachaça, branquinha.

Conscientes da riqueza cultural aportada na cachaça, estamos preparados para nos lançarmos à deliciosa tarefa de apreciar toda a sofisticação de aromas que uma cachaça de verdade nos presenteia. Este momento de verdadeira contemplação nos permite acessar as mais íntimas sensações e lembranças. Os olhos fechados nos despertam para o mundo interior. Os cheiros que acariciam as narinas vão chacoalhando a memória e nos trazem discretos sorrisos. Há um calor gostoso no peito, não sabe-se ao certo se é efeito do álcool ou das emoções. Pouco importa. É momento de ligar-se ao melhor que o mundo pode nos dar. Eventualmente nos lembramos da ditadura do tempo. Quanto tempo se passou? A resposta se perde entre os segundos do gole e os séculos da pinga. A referência do tempo não é mais medida em segundos, ou séculos, mas sim pelas nossas mais afetivas memórias e a pela densa história que vem constituindo esse povo-brasil.
Por fim, não há fim. Há um espiral de cultura no qual nossa bebida vai mudando, vai apurando, vai se ajeitando e se moldando a nossa cara. E cada investida nossa na cachaça cultural com o desejo de experimentar momentos sensorialmente extraordinários, acabamos por compreender a força histórica que estabelece a orbita cultural a que estamos presos e nos eternizamos um pouco pinga.
À sua saúde…
Cachaça!
