Domingo de Verão — Maria Clara Alencar

GastrôLité
Jul 27, 2017 · 3 min read

Às 6h, ela desperta, levanta da cama e já se arruma para começar seu dia. A primeira produção contém farinha, ovos, fermento, sal, açúcar e manteiga construindo nosso alimento sagrado. Enquanto o pão assa, o caseiro chega com leite de saquinho, pão francês — porque um tipo de pão não é o suficiente — as contas da casa, papéis da mega sena para nós preenchermos e frutas colhidas recentemente do pé. Os cheiros começam a se misturar quando o pão já anuncia sua prontidão ao exalar seu amanteigado e o café, recém-filtrado na cafeteira de alumínio, acaricia os pulmões com seu perfume doce e torrado. Silenciosamente, compartilham entre eles essa revolução de aromas em suas almas enquanto distribuem pratos, copos e talheres sobre a mesa.

O relógio da cozinha badala 7h. Hora de despertar a casa. A máquina de espremer laranjas, com seu estrondoso e marcante som, faz cada um se despedir da cama mais cedo do que gostaria.

Os adultos compartilham a primeira comunhão do dia saboreando aquela construção poética e cadeiras vão sendo ocupadas à medida que cada rosto sonolento aparece tornando a refeição cada vez mais especial. Enquanto isso, ela participa da cena sem deixar de analisar sua produção e se está funcionando exatamente como segue seu script.

As crianças já de pé anunciam a hora da piscina. E dos salgados. Pastéis de carne, risoles e croquetes compõem a colação e ocupam seus estômagos enquanto o almoço é finalizado. Ao fundo, sons do trampolim, risadas e corpos na água constroem a trilha sonora da produção do meio dia. Empadões, carne assada, feijão e seus adereços, arroz branco, farofa da deliciosa Farinha de Suruí, salada avinagrada de alface com tomate e cebola em rodelas já são postos sobre a mesa roubando a possibilidade de o estômago descansar da comilança anterior.

A instantaneidade do momento é tanta que, ainda na última garfada, o pudim de leite irrepetível, o brigadeirão, o merengue com morangos e o sorvete caseiro — com calda de cacau da sua horta — já substituem os pratos salgados e são partidos e servidos em pequenos pratos de louça mal dando tempo de analisar tal situação e pensar racionalmente se ainda há espaço para tamanha gordice. O olhar docemente fuzilante para aquele que pensa negar uma prova faz qualquer um aceitar e acabar degustando a pequena grande produção de doces do céu.

Café da tarde, janta, lanche da noite e sopa quente antes de dormir estruturam ainda essa extravagância gastronômica, mas, além dos kilos a mais, como consequência, ganhávamos dela todo seu cuidado, carinho, zelo, seu ‘eu te amo’ a partir de cada prato que executava. Ao separar um pouco da comida para levarmos na viagem de volta para casa, colocava um pouco de si nos potes, um pouco da sua gratidão pelo grandioso dia.

Sidney Mintz disse que “ A ‘bagagem gustativa’, acumulada ao longo da vida, nutre o comportamento alimentar e nos liga diretamente à nossa identidade e ao sentido de nós mesmos.”. Com a sua comida, ela conseguiu construir personalidades distintas, inúmeras memórias, admirações e uma gratidão sem tamanho. Alimentou seres, sonhos, ideologias, motivos para seguir em frente e recarregou energias que hoje não conseguem encontrar formas de agradecê-la pela vida incrível que proporcionou.

Hoje sou cozinheira para espalhar seus ensinamentos e cuidados e mantê-la presente nas gerações futuras. Minha avó, aos seus 91 anos, ainda insiste em fazer seu clássico pudim de leite cremoso para quem quiser e se mostra lúcida, saudável e graciosa quando sua calda de caramelo ainda se mantém perfeita junto ao creme de leite condensado que ninguém consegue fazer igual.

A comida se apresentou como elemento decisivo na minha identidade e como instrumento primordial de comunicação da minha avó com o mundo.

Que sorte a minha ser intérprete desse discurso e poder eternizar em palavras tamanha felicidade.

Texto de Maria Clara Alencar, chef de cozinha carioca e colunista do GastrôLité ❤ — Junho 2016

    GastrôLité

    Written by

    Gastronômico | Literário | Coletivo — Entre verbos e garfos, as melhores memórias e receitas sobre cozinha ❤

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade