Padaria onde é proibida a entrada da farinha

Não é aquela farinha que a gente pensa. Da boa! Aquela que em vez da faca para cortar o pão precisamos de uma carreira e um canudo. “Ôxente minino”, que pensamento maldito! Falo mesmo é do pão, tá, do pão! Se quiser estas coisas, indico a Cracolândia, ao redor da Estação da Luz, grande bairro paulistano, que além de oferecer droga é uma droga. E o mesmo bairro ficou semelhante às regiões belíssimas de Amsterdam, na Holanda (onde a droga é liberada), só que nos entorpecentes e não na estética. Quem foi ou for viu ou verá. A farinha de que estou me referindo é a de trigo, bem entendido. Só que, nesta padaria, não entra o tal do trigo. Como se fazer um pão sem trigo? Mariana Pierre sabe (foto). Montou neste ano de 2014, a Padaria Lilóri. Aveia, cevada, centeio, malte também não entram. Tiro certo para as pessoas que sofrem de doença celíaca que não toleram o glúten e teriam que fugir das Padocas (como se diz na linguagem elementar paulistês), como alcoólatra da AAA. Mariana usa farinha de arroz, de mandioca, fécula de batata, fubá, quinoa em flocos para fazer vários tipos de pães, bolos, tortas, doces, cremes livres de glúten, de lácteos e de conservantes.
Por que, afinal, uma padaria dessas?

Reposta 1: É uma das vantagens de uma cidade como SPaulo, onde há novidades do cacete.

Resposta 2: Porque ela é mãe de filho intolerante ao glúten e alérgico à proteína do leite e à de soja. Então, simplesmente deixou uma carreira vitoriosa como advogada, com passagens por grandes escritórios de advocacia como Lefosse Advogados e Trench, Rossi e Watanabe Advogados e partiu para algo muito, mas muito mais útil e agradável, a gastronomia. E tem a seguinte proposta: “acolher e alimentar aqueles que têm restrições alimentares e que encontram muita dificuldade para achar produtos confiáveis, de qualidade e saborosos, no mercado, que supram as suas necessidades”. Antes de inaugurar o estabelecimento fez ainda um planejamento científico onde recorreu a médicos, chefs e nutricionistas no Brasil e no exterior; agregando uma consultora da engenheira de alimentos, Sidmara Malagodi (especializada em Panificação pela Universidade de Leuven, na Bélgica, e em Alimentação Natural pela New York University, EUA), além de receitas próprias e de família.

Os preços não são maternais, porque os custos de produção sobem. Pra ter ideia, pão na chapa com margarina vegetal sai por 7,50 reais. Dá pra levar pra casa pães de azeitona, integrais, australianos e o lilóri (com cara de pão francês, só que mais pesado, mas perfeitamente comestível). Servem também refeições como quiches, na faixa de 35 reais, pizzas brotinhos, na faixa de 25 reais, e sanduíches, de 21 a 25 reais. A Lilóri faz também um incrível iogurte de coco acompanhado de mel e granola (12,50 reais). Eu não sou chegado a doces ou laticínios, porque a minha parte do açúcar o meu organismo suga do álcool, e o leite é totalmente inútil na minha vida mundana, mas é bom demais, segundo me garantiram. Feito à base de leite de coco, gelatina ágar-ágar, limão e sabe-se lá o que mais. É o único iogurte da casa, mas vale a pena. Quem for a pé, a partir do Parque Trianon, lembre-se que, na volta, terá de encarar aquela pirambeira da rua Peixoto Gomide até a Paulista (bêbado, nem pensar!). Pra encerrar, o nome diferente da padaria é uma mistura de LI de liberdade com LÓRI do pássaro (lóris, aquele cheio de cores originário da Oceania e do Sudeste Asiático). Bem diferente o nome, como a própria padaria.

Lilóri

Rua Peixoto Gomide, 1486 (quase na esquina com a José Maria Lisboa), tel.: 3068–8061, de segunda a sexta, das 8 às 20 h; sábados, até 19 h; domingos, até 16 h.

Crédito das fotos que ilustram este texto: Divulgação.


Originally published at www.gastromisso.com.br on October 27, 2015.

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