Trasso é turco, mas com uma mão imensa grega

Dentro do restaurante Acrópoles — Foto: Misso

Quem quer conhecer um pouco da comida grega, vá para a Grécia, ora. Mas lembre-se: dificilmente você vai comer arroz à grega, como o nosso. Isso é coisa do Brasil. E lá todo o arroz é à grega, pois feito por eles, né? É como o beirute, será que tem no Líbano? Mas aqui em SPaulo, temos que ir ao Acrópoles, no Bom Retiro. Nos almoços de lá, uma atração a mais é seu Trasso, forma curta do nome oficial, Thrassyvoulos Georgios Petrakis. Ele nasceu na Turquia, foi para a Grécia aos dois anos. Trabalhou como garçom no restaurante (antes, dizem, se chamava Cantinho Grego), virou gerente e comprou o estabelecimento no início dos anos 70. Já li ou vi reportagem de TV dizendo que ele teria 96 anos, outra garantindo 98. Perguntei para o próprio se ele já estava chegando aos 100, só pra arrancar a informação correta, mas ele se confundiu (ou não entendeu a pergunta) e respondeu 89. Segundo uma funcionária, são mesmo 98. Numa publicação feita pelo Museu da Pessoa, que leva as coisas a sério, afirma-se que ele nasceu em 15 de agosto de 1918. Portanto, estaria agora com 96, a caminho de 97. No fundo, não importa tanto essa precisão que jornalista busca com frequência.

Seu Trasso preparando à mesa. Foto: Misso

Afinal, ficaria esse velhinho sentado num canto, para ser admirado de longe? Que nada! Ele anda pra lá e pra cá, indica mesas, afasta umas das outras, ajuda a distribuir pratos e talheres, tempera saladas à vista dos fregueses, manda a clientela ir para a cozinha a fim de escolher os pratos e até carrega algumas sobremesas, o que causa um inegável desespero em garçons e garçonetes. “Meu amor, está derramando a calda do doce”, disse uma das atendentes do balcão para o Seu Trasso, que levava nas mãos, um bocado inclinados, dois pratinhos daquelas sobremesas embebidas de calda. Para os comensais, uma atração. Para os funcionários, um cuidado a mais olhando o velhinho Trasso, quase atrapalhando. Ou atrapalhando mesmo.

Como já dito, o cliente vai até o balcão da cozinha, olha as travessas e panelas e escolhe o que se interessou em comer. O consumo se marca naquelas comandas tipo padaria ou lanchonete. O prato-chefe ali é o mussaká, algo que lembra uma lasanha sem massa. É feito com berinjela frita, queijo ralado, fatias de batata pré-fritas, carne moída ao molho muito bem temperada, tudo arrematado por um creme que parece purê. Sai por 32 reais (março de 2015). Vegetarianos têm a opção do mussaká feito de espinafre, berinjela e ricota. Outra saída para os não carnívoros, a muito pedida salada grega, com alface, pepino, tomate, queijo feta, azeitonas e bem regada de azeite grego. Tem um macio cordeiro assado com batatas inteiras num molho sensacional, onde provei com muito gosto, onde os funcionários negam até morrer a receita do acompanhamento. Tudo na faixa dos 30 reais. A vitela ao forno também fica nesse nível de preço. Claro que as lulas (recheadas ou à dorê) e os pratos com camarão ou outros frutos-do-mar sobem pra perto do dobro disso. Cerveja grega? Não tem. Aliás, muitos restaurantes estrangeiros pela cidade, não importam cervejas pelo alto preço final que ficaria o líquido. Só nacional. Dá pra pedir vinho grego e ouzo, aquele destilado deles que lembra anisete. Com o dólar subindo do jeito que está, não arrisquei.

Parte de frente do restaurante Acrópoles, com seu Trasso ao fundo, sentado. Foto: Misso

Nos finais de semana ou feriados, o cardápio ganha novos pratos. Por exemplo, o carneiro ao molho avgolemono (ovos com suco de limão) e alcachofras. Às vezes, o spanakópita, folhado de espinafre com ricota. Algumas sobremesas estão lá sempre, outras só eventualmente. Nomes diferentes, claro: baclavá, galactoboureco (com creme de semolina), loukoumades, karidópita, melomakárono, kataif, kurabiê… Geralmente com nozes, massa folhada, mel (ou calda), água de rosas… Coisas estranhas/chatas/desagradáveis: os banheiros são grandes, limpos, mas para chegar lá é preciso baixar a cabeça no meio do caminho, perto da cozinha (há um obstáculo à altura da cabeça). Ah, não tem cardápio — nem na porta da rua nem individual. Vê-se uma placa na parede, com vários preços borrados (pelo menos quando eu fui). As mesas são muito próximas umas das outras, não há privacidade. Se você quiser tramar com alguém como invadir um país sul-americano, esqueça. E ainda: seu Trasso praticamente impõe um lugar — com simpatia, lógico, mas nem sempre é o canto que você escolheria. Quem gosta de discrição, sofre. Não que os garçons sejam mal-educados, mas, digamos, alguns têm um estilo um tanto “heavy metal”. Você pergunta algo em voz baixa e a resposta será do conhecimento de todos em volta. Ouvi para a mesa vizinha: “Qué pão?” Resumindo, se exige muito refinamento, não vá. Eu não ligo tanto, fui e gostei.

O salão, pequeno (uns 70 lugares), é basicamente azul e branco, cores da bandeira da Grécia, e as paredes estão cobertas de pôsteres de paisagens e ilhas gregas, Mykonos, Santorini… Sem falar das fotos com alguns famosos e das placas do Guia 4Rodas e da Veja São Paulo, revelando o destaque desse restaurante na cidade. Em 2009, seu Trasso ganhou do guia Comer & Beber o título de “Personalidade Gastronômica”. O Acrópoles existe desde 1959. Nunca houve por lá aquela história de quebrar pratos, como existia no Zorba, outro grego de São Paulo (em Pinheiros) que fez sucesso nos anos 70 e 80 e fechou em 1989. Aliás, dizem que nem na Grécia seguem mais essa tradição de quebradeira festiva. Até porque, algumas vezes, cacos de cerâmica espatifada feriam um ou outro ao redor e o chão ficava necessitando de varrição imediata, em meio à clientela, para evitar escorregões e tombos.

Acrópoles (das 12 às 21 horas).

Rua da Graça, 364 Bom Retiro (estação Tiradentes ou Luz do Metrô).

Tel.: 3223–4386.


Originally published at www.gastromisso.com.br on October 16, 2015.

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