Eu aceito metades.

Isso mesmo. Eu as aceito.

Não vou dizer que sempre aceitei, seria mentira. Não sou diferente de toda a população que é ensinada que alguém e consequentemente a relação que você tem com esse alguém só serão válidos se forem “por inteiro”. Não, longe disso; por mais que a não-monogamia sempre se mostrou um pouco presente na minha vida, seja em resoluções íntimas ou breves aberturas com outras pessoas, ainda assim durante anos pensei que o único meio correto de se relacionar seria esse, o “integral”.

Esse não é um texto pra dizer “eu também já estive nesse ‘estágio’ e então encontrei a luz no fim da monogamia”, por mais que pareça. É apenas uma constatação que só muito recentemente consegui elaborar: eu aceito as metades que me oferecem, ou a terça parte, 1/4, 1/25, o que for. Eu aceito o que as pessoas estão dispostas a me oferecer pelo simples motivo de que não quero mais do que podem me dar. Do contrário, no que isso seria diferente da prática monogâmica?

Por que estamos “dividindo” as pessoas em “metades e inteiros” como se fôssemos pura matemática, precisa, calculável, exata e previsível? Por que esses dedos são apontados especificamente para pessoas com uma quantidade maior que 1 parceire como se fôssemos a personificação do mal do século sem possibilidade de “conserto”, mas quando uma pessoa que se diz monogâmica comete o que nesses termos é chamado de “traição” é vista como alguém que errou e tem seu direito de clemência por perdão garantido (nem sempre atendido, admito)? Aliás, é perceptível o quanto a famosa “culpa cristã” permeia nossos amores, nossas alianças, nosso sexo, nossos beijos eventuais, com pecados, falhas morais, exigência e garantia de perdão… Mas isso certamente é assunto pra outro momento (bem como minha exaustão da discussão sobre não-monogamia ser esmagadoramente focada em relações de mulheres cis e homens cis heteros).

O ponto aqui é o que eu gostaria de ter dito uma centena de vezes durante esses meses: “se você não for ficar por inteiro, prefiro que continue assim, em seus termos, me oferecendo o que tem certeza que pode me dar — seja a metade, 3/4 ou qualquer outro número que não faça a porra de sentido nenhum.” Estar “por inteiro” é uma coisa que não faz sentido mesmo pra mim, eu nunca sei o que querem dizer com isso — mas sei que muitas vezes o que eu mesma posso oferecer não é suficiente para a outra pessoa. E tudo bem, mesmo, cada pessoa deve saber suas necessidades — e eu também sei as minhas. E necessidades incompatíveis não têm nada a ver com acusação de “imoralidade” que costuma permear as relações não-monogâmicas, como “falta cuidado, falta atenção, falta carinho” — acho que estamos bem grandinhes pra saber que essas “faltas” podem aparecer em qualquer configuração de relacionamento, não? E bem, fossem relações monogâmicas todas perfeitas e repletas dessas coisas que faltam, aposto que seriam mesmo a melhor opção para todas as pessoas.

Mas não é assim. Para mim não é, e para uma porrada de pessoas que conheço também não. Esses são meus termos comigo mesma, esses são meus acordos que são primeiro feitos comigo e para mim antes de serem feitos com outras pessoas. “Oh mas tinha que ser essa heresia neoliberal!”, já posso ouvir. Mas sinceramente? Foda-se.

Aceito o que me é oferecido. Ofereço o que posso e o que quero. Quem quiser seguir comigo a partir daqui, vamos de mãozinhas dadas. Quem achar que é “superficial, frio, doentio, psicodélico” — é só fechar a internet e esse texto que o mundão inteiro cheio de monogamia integral vai estar à sua disposição. De nada.

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