Lya

Ela está rouca pois está há meses sem falar. Não é uma inflamação na garganta — é só que às vezes as balbuciadas não podem expressar emoções, a boca mexe mas é inerte.
Hoje ela veio, como uma criança a tirar uma farpa do pé, que tinha só a cabeça vermelha e agora também os lábios sempre rachados. E pelo sol não vir, na escola entre os meninos que brincam, seus ossos como vigas realizam a cada dia a sustentação da estrutura nervurada.
Ela não sente-se só: por hoje a casa é leve e o que habita o interior fica penando — cada segundo entre os peixes desesperados, puxando a rede sem fugir dos venenos quando a mortandade chega em lotes. Uma alma sem um corpo é como um peixe sem escamas. As sobras córneas, é por onde ela puxa conversa e faz subir e descer as pesadas distancias.
Eu devo alimentá-la? Ela recusa-se a viver. Preenche continuamente outros corpos celestes, ocupando lugares que os outros enxergam mas ela não reconhece — a libertação é sempre mentirosa. Não controlo o sono que há na pálpebra imortal, enquanto nas frias pedras do antigo estaleiro contorce-se como as molas de um relógio velho, procurando os pés no topo da cabeça. Está solta no fundo obscuro do mundo, onde nascer é se responsabilizar pela vida. 
Entre os barcos jovens, seu amor sozinho não pressente o futuro. Tudo é instável e pena não dar-se conta, uma cura sem dormir os escravos que ainda habitam em ti, noventa e nove vezes para frente e para trás sobre os mundos. Anfitriões aconselham, desnudam-se, antes que ela fique ali amplificando suas vontades, mas eles não entendem o mundo — somente entendem pessoas. 
Por tanto tempo fascinada pela morte, sem ter nascido para morrer: nem a terra encantada do desespero humano foi capaz de matar-te. No canal de suspiros, eu estaria mentindo se dissesse que não aproveitara mais os dias quando tu eras inexistente — mas quando foi que a aderência ao caos surgiu, mais numerosa que teus pegajosos cílios? Sei apenas que tu nasceste da vontade, de um toque suave derreter cada onça órfã de um fim.
É o teu silencio raivoso a julgar-nos todos?

Ph Mauricio Weber Mendes
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