Sagmeister e a felicidade

O tema “felicidade” já é caro ao designer austríaco Stefan Sagmeister há alguns anos. Em 2007 ele apresentou este TED Talk explorando as relações entre design e felicidade, e desde então tem abordado o assunto de forma recorrente em palestras, exposições e até no projeto de um documentário, a ser lançado em 2016.

Em 2015 Stefan esteve novamente no Brasil, desta vez para a conferência What Design Can Do. Pela primeira vez organizado fora da Holanda, este evento debate o poder e a abrangência do design na sociedade. Sagmeister discutiu o tema da “beleza” em uma sessão especial, mas o momento mais esperado era sua palestra de encerramento do congresso, onde mais uma vez falaria sobre ser feliz.

Sagmeister no palco do WDCDSP. Fonte: https://www.instagram.com/ximarquinho/

Apesar de fazer piada consigo mesmo e afirmar que sempre dá as mesmas palestras que podem ser vistas online, cada ocasião tem um conteúdo ligeiramente diferente, e obviamente, mais aprimorado e maduro. Stefan pouco falou de design, explícitamente, mas as relações indiretas entre design e felicidade foram muitas.

Segundo ele, uma das formas de falar sobre o assunto é mediante períodos de tempo, o que nos leva a visualizar diferentes níveis de felicidade. No primeiro, descrito como júbilo ou prazer, estão aqueles momentos fugazes de regozijo, como um pedaço da sua sobremesa favorita ou até mesmo um orgasmo. O segundo nível seria o do bem-estar: momentos mais prolongados (mas talvez menos intensos), como aquela tarde preguiçosa de domingo bem aproveitada no sofá com um jornal ou filme e acompanhado do seu cão. No terceiro nível temos a satisfação pessoal, ou seja, encontrar e cumprir o próprio potencial na vida, aquilo que nos traz plenitude — possivelmente por um período mais prolongado, ou até mesmo para a vida toda.

Níveis de felicidade associados a escalas de tempo: do mais fugaz ao mais perene.

Apesar de alguns chavões, Stefan nos chama a atenção para o fato de que estes três níveis tem pouquíssima relação entre si. Um orgasmo não tem nada a ver com encontrar seu propósito de existir — a não ser, é claro, que estejamos falando da indústria pornográfica, o que não é o caso para a maioria de nós…

Uma imensa quantidade de autores já trataram do tema em incontáveis livros. Alguns, até, criticando a tirania da felicidade no mundo comtemporâneo, como o filósofo (e pessimista) Luiz Felipe Pondé. Sagmeister, no entanto, cita o professor Jonathan Haidt, autor de A Hipótese da Felicidade (lançado no Brasil como “Uma Vida Que Vale a Pena”, com tradução de Ana Beatriz Rodrigues). Segundo suas pesquisas em psicologia positiva, as três maneiras mais eficazes de elevar o seu próprio bem-estar são:

  1. Meditação;
  2. Terapia Cognitiva;
  3. Medicamentos.

Haidt compara a mente inconsciente a um imenso elefante, e a mente consciente a uma pessoa, montada sobre o primeiro. Esta última tenta direcionar o animal para onde deseja ir, mas o elefante, não adestrado, tem suas próprias intenções. A pessoa esta à mercê do animal. Da mesma forma, nosso consciente tenta controlar o inconsciente, mas isto só se torna mais viável mediante muito treino: meditação, terapia e, se necessário, medicamentos.

A mente inconsciente é um imenso elefante a ser domado.

Naturalmente, outros autores discordam, e sugerem que não doutrinemos nosso inconsciente, mas sim aprendamos a ignorá-lo, de certa forma. Esta é a premissa do psiquiatra Michael Bennet e sua filha Sarah, que curiosamente é comediante. Juntos eles escreveram o livro F*ck Feelings (ou “F*dam-se os Sentimentos”, em tradução livre), um sucesso de vendas nos Estados Unidos. Eles também mantém o site homônimo, onde expõem seu manifesto e dão dicas de como alcançar seus objetivos sem dar muita atenção para o que sentimos.

Em ambos os casos, é unânime a ideia de que não controlamos plenamente o que sentimos. Sagmeister destaca a tristeza, alegria, nojo, surpresa, raiva e medo como emoções básicas dos seres humanos (quem assistiu o ótimo filme DivertidaMente, da Disney/Pixar, vai imediatamente lembrar dos personagens Alegria, Tristeza, Nojinho, Medo e Raiva). Dentre estas, apenas uma é positiva (alegria), outra é neutra (surpresa), e as demais são negativas. Isto nos leva ao que psicólogos denominam “viés de negatividade”: a natural predisposição de nossos cérebros em estarmos mais alertas aos eventos negativos do que aos positivos, e consequentemente nossa interpretação tendenciosamente negativa dos acontecimentos.

Esta é uma de tantas heranças evolutivas que carregamos conosco, que bem nos servia na época das cavernas, mas que nos assola nos dias atuais. Para sobreviver, era crucial que nossos antepassados tivessem uma rápida reação aos sentimentos negativos, como medo (de algum animal selvagem, por exemplo) ou nojo (de algum alimento estragado, etc). Atualmente, contudo, é o principal motivo pela qual noticiários são tão deprimentes: tendemos a prestar mais atenção às notícias ruins do que às boas.

Nosso viés de negatividade se reflete na produção midiática diária.

Outro ponto interessante que Stefan aborda é o da satisfação conjugal. Tomando termos emprestados novamente do Prof. Haidt, ele compara o amor apaixonado ao amor companheiro (funciona melhor em inglês: passionate love e companionate love). Em outras palavras: paixão VS. companheirismo.

Tendemos a acreditar que o único amor verdadeiro é o apaixonado. Se novamente analisarmos a questão usando escalas de tempo, sob a ótica de 6 meses isto parece fazer sentido. Mas a situação se inverte quando a vemos numa escala de 60 anos: Haidt entrevistou diversos casais que ficaram juntos por 40 anos ou mais e analisou seu grau de satisfação no relacionamento, comprovando que o amor companheiro tende a crescer, enquanto a paixão decai rapidamente.

Gráfico de Haidt. Fonte: http://kevishere.com/2014/03/31/part-15-humans-are-blank-ogamous-lessons-from-models-of-sex-and-love/

Haidt aponta que é biologicamente inviável estar perdidamente apaixonado por alguém por mais de 6 meses: os níveis de dopamina e outros componentes químicos em nosso cérebro são comparáveis aos produzidos com o consumo de cocaína, e seriam extremamente prejudiciais ao organismo a longo prazo. O amor apaixonado precisa se converter em companheirismo, ou simplesmente terminar.

Outra lição que Sagmeister nos traz sobre felicidade, diretamente da sua exposição “The Happy Show”, é bastante simples e um tanto quanto óbvia, mas frequentemente não a fazemos: combater a procrastinação. Deixamos de realizar mesmo aquelas atividades que estão ao nosso alcance, como a meta de se exercitar 30 minutos por dia, por exemplo. Realizar de fato as coisas que nos propusemos a fazer aumenta nosso nível geral de satisfação.

Faça! Fonte: https://twitter.com/EvaBandelj

Stefan traz então um breve e curioso resumo com algumas atividades que ele considera que claramente nos fazem felizes: muitos amigos e bons amigos, o sentimento de realização, tarefas não-repetitivas, religião e cantar em grupo. Isto mesmo: cantar em grupo. Inspirado por sua irmã, que relatou sempre voltar mais feliz das aulas de seu grupo vocal (mesmo que tivesse que ensaiar músicas que não aprecia), o palestrante fez todos levantarem e cantarem em karaokê uma hilária versão de “Ode à Alegria”, o mais famoso movimento da 9.ª Sinfonia de Beethoven.

All my clients drive me crazy / Never show no guts at all / For the peanuts that they pay me / They get logos 10 feet tall / Wants to se three new directions / For tomorrow’s drop dead line / Picks the worst and mixes sections / We wind up with Frankenstein

So true!

Enquanto designer, foi ao mesmo tempo divertidíssimo e reconfortante ver que um dos maiores designers gráficos do mundo enfrenta os mesmos problemas em seu cotidiano profissional.

No entanto, após a alegria geral que tomou conta do auditório, ele alertou: as chances de que a palestra tenha um efeito duradouro na nossa felicidade são as mesmas de que uma aula ou treino na academia traga resultados imediatos ao corpo. A felicidade é um exercício diário, e os benefícios só vêm com o tempo.

Prática

Mas então, o que podemos fazer? Algumas ações já estão descritas ao longo do texto. Aprenda a meditar: existe muito material na internet e em livros a respeito, e até mesmo aplicativos de meditação guiada que podem ajudar. Busque um terapeuta: se não tiver dinheiro para pagar um, existem possibilidades de atendimento em universidades e unidades de saúde. Planeje as pequenas coisas que deseja fazer e pode realizar imediatamente, e aja! Comece pequeno: um corte de cabelo, uma mudança na decoração da casa, 30 min diários de caminhada, etc. Passe mais tempo com amigos, e abra-se mais a conversas significativas. Busque atividades novas, seja curioso. Instrua-se: aprenda sobre as fontes de infelicidade e o que funciona (ou não) na sua própria vida, etc.

Outra dica que Stefan nos traz é adquirir o hábito de escrever diariamente 3 coisas que funcionaram no dia e refletir sobre elas — um exercício proposto pelo “pai” da psicologia positiva, Martin Seligman. Pense nas 3 bençãos escritas: por que ocorreram? Foi o acaso, ou foi seu ponto de vista sobre um fato? É possível repetí-las? Como? Por que foi importante? No fim, você mesmo é quem decide as razões pela qual cada evento faz sentido, e lhe faz feliz.

E se nada disso servir para você, sem problemas: não se trata de uma receita de bolo, mas sim da busca constante por nos sentirmos melhor conosco e com a vida que levamos. Mas não deixe de exercitar a própria mente, da forma que melhor lhe convier — nem que seja com o Yoga da Risada.

Eu, por via das dúvidas, já estou procurando um coral para cantar :)