A Internet no Século XXI

O Capital no Século XXI também nos diz sobre a internet

Um livro de Economia de 600 páginas chegar a lista de mais vendidos nos EUA é algo bem impressionante, é ainda mais impressionante ver propagandas espalhadas no metrô de SP e cópias empilhadas na entrada das livrarias como outros grandes best-sellers.

Li o Capital no Século XXI, não cabe a mim discutir quão válidas são as conclusões e as premissas do autor, mas a proposta e a postura do livro é uma importante lição em tempos de internet: o Capital no Século XXI serve como questionamento de como estamos lendo, escrevendo e discutindo na internet.

Gastar todo esse tempo lendo UM livro?

Não lembro exatamente de quando comecei a leitura, mas demorei bastante para ler esse livro. Por mais que eu esteja acostumado a grandes leituras, nesse mar de distrações, foi complicado dedicar tanto tempo a uma única obra. Cada vez mais, livros como o Capital no Século XXI parecem um desafio para o leitor.

Essa observação sobre o tamanho parece não fazer sentido olhando os best-sellers. Em geral, são livros grandes e até maiores que o Capital no Século XXI. A questão é que, apesar de grandes, os best-sellers são livros do tipo page-turner (que você não consegue parar de ler). Eu li a trilogia Millenium muito mais rápido que o Capital no Século XXI, mesmo que um único livro da trilogia seja do tamanho do Capital no Século XXI.

É difícil, para não dizer impossível, um livro de não-ficção ter o mesmo apelo page-turner por melhor que seja. Não é de impressionar que, apesar das vendas extraordinárias, o Capital no Século XXI seja um livro que muitos não terminam.

As vendas indicam que as pessoas acham muito importante ler sobre o tema concentração de renda, mas a baixa taxa de leitura, que cada vez mais precisamos de mais força de vontade para atravessar esse tipo de obra com tanta “gordura digital” para nos distrair: YouTube, redes sociais, Candy Crush, etc…

Gastar todo esse tempo escrevendo UM livro?

Se demorou para eu ler, imagine o tempo que demorou para ser escrito o Capital no Século XXI. A premissa do livro é fazer uma análise histórica do problema, ou seja, analisar dados de centenas de anos para ter uma melhor visão do problema. A partir desses dados, escrever um livro gigante analisando-os.

É um tipo de trabalho que não combina com o conteúdo da internet. Hoje, lemos infinitos textos pequenos sobre o tema do momento: durante um período curto, logo após o ocorrido, somos inundados de discussões se #SomosTodosMacacos. Depois de alguns dias, ninguém mais quer saber de discutir o assunto.

Um texto curto e escrito rápido para pegar o timing do assunto dificilmente tem algo muito valioso. Ocorre um evento polêmico e é fácil antecipar o que será escrito em textões do Facebook™ e pelos blogueiros (quem não conhece os óculos vermelhos do Reinaldo Azevedo e o rosto sorridente do Sakamoto?). Não dá para negar que textos interessantes aparecem nesses períodos de polêmica, mas a proporção sinal/ruído desse tipo de conteúdo costuma ser muito ruim.

Piketty ressalta a importância dos meios tecnológicos que permitiram fazer um trabalho de pesquisa e consolidação que seria muito mais difícil em outras épocas. Apesar da tecnologia ter facilitado o acesso a informação e produção de conteúdo, é raro vermos grandes reportagens como a da Folha sobre Belo Monte e do New York Times sobre um deslizamento em Washington. Será que é por que são muito caras para fazer ou estamos gastando muita atenção com material pouco importante?

Apesar da facilidades que a tecnologia trouxe para a produção de conteúdo, o jeito que a internet mudou nosso consumo de conteúdo pode ter se tornado um problema maior. Trabalhos como Capital no Século XXI serão menos frequentes que o possível porque escrevemos/lemos pequenos textos sobre o assunto do momento.

Será que projetos ambiciosos e relevantes não estão sendo abandonados em prol de pequenos textos que logo serão esquecidos? Um argumento repetido mil vezes não ajuda muito, mas uma análise histórica da concentração de renda no mundo agrega muito ao debate.

Um trabalho ambicioso, mas não pretensioso

Recordemos que as fontes reunidas neste livro são mais extensas do que as de autores anteriores, mas ainda assim tão imperfeitas e incompletas. Todas as conclusões são, por natureza, frágeis e merecem ser postas em questão e debate. A pesquisa em ciência sociais tem a vocação de produzir certezas matemáticas e substituir o debate público, democrático e diversificado.

É impressionante um trabalho da magnitude do Capital no Século XXI, mas nem por isso o autor se sujeita a tradicional assertividade presente na internet como podemos ver no trecho acima. Um dos temas mais polêmicos que conheço, Piketty tenta tratar com moderação e um nível de paixão bem abaixo das discussões de direita e esquerda que costumo ler pela internet.

O debate na internet se tornou muito hostil, além de precisar escrever rapidamente e pouco, ter fortes opiniões também ajuda a ganhar destaque. Por mais que milhões amem ciência, parece que a maioria não gosta do método científico. Ao invés de analisar metodologia, tabelas e gráficos…é bem mais fácil ler uma opinião, usando exemplos pontuais, de porque seu ponto está certo.

Em um tempo em que estão todos indignados com tudo, eu fico indignado com a coragem que as pessoas têm de fazer críticas tão rasas a um trabalho tão complexo como Capital no Século XXI. As conclusões de Piketty podem estar erradas, mas decerto o tom da discussão proposto no livro é o que precisamos e não as brigas que acompanhamos na timeline do Facebook.

Conclusão

O livro é majoritariamente sobre concentração de renda, mas me impressionou como um livro se tornou tão popular com um formato e postura tão distinto do que estamos acostumados a lidar no dia-a-dia. Como disse, não estou em condições de avaliar as questões econômicas, mas gostaria de ver mais trabalhos como o Capital no Século XXI norteados por acrescentar informação e pelo respeito ao debate.

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