Perdas inevitáveis
O mundo muda, então relaxe.
O Netflix adicionou a saga de Hades do Cavaleiros do Zodíaco recentemente. Parei de assistir o anime na saga do Santuário, mas mesmo assim resolvi ver a última parte. Não está sendo o que eu esperava, estou achando o roteiro e as animações muito ruins. O tempo de aproveitar Cavaleiros do Zodíaco da melhor forma passou para mim, uma pena.
Uma sorte minha foi ler Harry Potter com mais ou menos a mesma idade dos protagonistas enquanto os livros ainda estavam sendo escritos. Uma criança pode começar a ler com 11 anos hoje, mas provavelmente lerá os livros todos de uma vez, perdendo a chance de crescer juntos com os personagens. Além disso, os filmes moldarão a sua imaginação: muitas coisas da história eu tinha imaginado de forma diferente do filme. Eu pude construir dois universos diferentes na minha cabeça, as crianças de hoje dificilmente conseguirão.
Da mesma forma que tive a sorte de consumir Harry Potter na época certa, todos nós perdemos o ápice de diversas outras obras. Isso vale para qualquer produto cultural: livros, filmes, séries, músicas, artes plásticas, etc...
Os games, por exemplo, sofrem enormemente com esse problema. A experiência de jogar um Atari é nula para mim, praticamente nada da experiência é relevante se comparado a quem jogou na época em que era tecnologia de ponta. Os primeiros jogos 3D são tenebrosos hoje em dia, tanto que fazem remakes com gráficos atualizados. Ninguém mais poderá aproveitar bem os games das gerações passadas, é estranho jogar jogos antigos se você já conhece os novos.
Os filmes envelhecem melhor que games, mas alguma perda ocorre. A luta de Obi-Wan com Darth Vader no episódio IV de Star Wars parece uma luta com cabo de vassouras se comparada com as coreografias da nova trilogia. Por mais que eu releve os efeitos especiais do filme, a experiência de ser impressionado com eles não existe mais.
O tempo nem sempre é negativo, algumas obras se engrandecem com o passar do tempo. Assisti 2001: A Space Odyssey apenas esse ano e acho que é o filme mais impressionante que já vi (mesmo tendo dormindo no meio dele). Parte da minha admiração é justamente por saber que ele foi feito em 1968.
Os efeito do filme são muito bons. Mesmo com tantos avanços em computação gráfica, o monolito negro na lua continua sendo uma cena impressionantemente forte. Por mais que o livro descreva a cena, não dá para imaginar como um bloco negro pode parecer tão alienígena.
Além disso, a estética inteira do filme é muito boa, continuando atual até hoje. A Samsung utilizou o filme para justificar que a ideia do iPad não era da Apple na briga de patentes. Independente da validade do argumento, é interessante perceber que um dispositivo de um filme de 1968 não é muito diferente do que temos hoje.
Mais impressionante que algo de um filme de 1968 parecer moderno hoje, é o design de um produto de 1929 parecer moderno até hoje. Até pouco tempo atrás, eu não sabia que uma elegante cadeira que vejo todo dia na recepção do prédio onde trabalho foi desenhada pela Bauhaus em 1929.

Para o bem ou para o mal, o contexto (tanto pessoal como geral) muda radicalmente a experiência que temos sobre determinadas criações. Por isso, acho infrutífero o apego que há sobre os livros: não se pode adaptar as obras de Machado de Assis para a atualidade e outros acham que os livros físicos são insubstituíveis.
Machado de Assis não terá o mesmo sentido que teve no século passado porque é simplesmente impossível, mesmo que a obra não tenha mudado o mundo mudou. Ao me forçarem a ler esse tipo de livro como adolescente, a leitura foi mais empobrecida ainda por exigir vocabulário e contexto histórico para ser bem apreciada. Adaptar Machado para a linguagem atual é apenas distorcer mais um pouco as coisas, distorção que provavelmente dará acesso às obras dele para pessoas que nunca leriam.
Não julgo a preferência de alguns por livros físicos, mas não faz sentido achar que os e-readers sejam um grande problema para a leitura. De fato, pode ser uma experiência diferente ler em papel e no e-reader, mas novamente: isso é apenas mais uma aspecto que muda a experiência de leitura dentre várias outras.
Hoje em dia, costumamos ouvir nossas músicas no metrô barulhento em um fone de ouvido barato. Ouvir um disco completo, sem fazer nada ao mesmo tempo e com um bom equipamento (fones de ouvido ou stereo) é uma forma de “estragar menos” a obra. Entretanto, duvido que ouvir Eletric Ladyland possa significar a mesma coisa que significava em 1968. Podemos minimizar os perdas, mas elas sempre existem.
Lutar para obras ficarem imaculadas é perder tempo na maioria das vezes, então relaxe em relação a essas acusações de estarem estragando obras de arte. Ela está mudando desde a sua criação, desde que alguém pode aprecia-la.