Talento se cria

Não se cria craques, mas bons times sim.


Acho que todos com algum coração acreditaram na mística do Felipão após o raríssimo gol de falta de David Luiz contra a Colômbia. Eu acreditei pelo menos.

O futebol mal jogado estava lá, como sempre esteve, só que já eramos os semi-finalistas da Copa após eliminar a Colômbia de James Rodriguez. Além disso, os europeus estavam sofrendo desde a fase de grupos. A poderosa Alemanha não estava nos seus melhores dias, apesar de ter jogado bem contra a França. Além disso, diferentemente da seleção brasileira, a mística parecia jogar contra essa talentosa geração da seleção alemã.

Eu fui para casa assistir o jogo. Não fui a um bar pois estava acreditando que seria um grande duelo. Eu precisa acompanhar todos os detalhes do jogo. O Brasil era pior tecnicamente e taticamente, mas era o time do hino à capela, do bom mocismo do David Luiz, da superação do Júlio César…

O Brasil não jogou mais do que dois minutos bem, a Alemanha segurou o abafa inicial rapidamente. Os três meias da Alemanha em linha se colocaram entre a defesa e o meio campo brasileiro. Xeque-mate, o meio campo que nunca funcionou simplesmente sumiu. Depois disso, é história.

Não sei muito bem o que senti enquanto via os gols saindo, mas acho que decepção é o que melhor defini. Depois de processar tudo, fiquei contente. Não de euforia claro, não torço contra a seleção como alguns fazem, apenas porque o que eu acredito venceu: ninguém é terra abençoada de futebol. Aliás, ninguém é terra abençoada de nada.

Eu acho que, de forma geral, o Brasil tem uma tendência à megalomania: queremos ser potência/grande em tudo. No futebol, não tinha como ser diferente, realmente somos potência no assunto. Só que estamos deitado em berço esplêndido como foi cantado muitas vezes no último mês.

Nós sempre tivemos jogadores espetaculares em nossa seleção. Agora temos apenas o Neymar de espetacular, mas a seleção continua sendo muito poderosa analisando jogador por jogador. A questão é que isso está mais para o acaso que para o mérito.

Somos um país mono-esportivo, a grande maioria joga apenas futebol e também temos a maior população dentre os países com tradição no esporte. Além disso, a pobreza e desigualdade social tornam a carreira futebolística muito mais atrativa para essa grande população. Quem nunca conheceu um craque na escola de classe-média, mas que nunca cogitou a carreira futebolística? Isso se tornará cada vez mais comum com a redução da desigualdade.

Um melhor exemplo desse fenômeno sejam os pilotos brasileiros. O país teve pilotos espetaculares e muita torcida pela F1, hoje só há pessoas esculachando o Massa e o Barrichelo por não atenderem ao anseio brasileiro de ter os melhores pilotos do mundo. Entretanto, qual direito temos de exigir bons pilotos? Não faço ideia de quanto investimentos na formação de pilotos, mas acredito que seja pouco ou nada.

Devemos descer do salto, porque o trabalho no futebol aqui é claramente mal feito. Está bom demais pelo que tem sido feito.

Breitner explica nessa entrevista como chegaram ao elogiado futebol alemão atual que, infelizmente, não ganhou títulos (até hoje). Eles olharam para os espanhóis para entender como o futebol de qualidade estava sendo feito e aplicou no país. Mudaram o futebol “pragmático” que era praticado na Alemanha, investiram mais em qualidade técnica e menos em preparação física dos jogadores.

Nessa entrevista, perguntam se a mistura de nacionalidades é um fator para esse novo futebol alemão. Breitner discorda prontamente. Para mim, a ideia do entrevistador era essa: a “cintura dura” dos alemães não atrapalhou esse futebol de qualidade técnica? Em outras palavras, estava reproduzindo o jargão do Galvão Bueno: esse jogador [europeu] parece brasileiro, tem habilidade!

Odeio essa premissa de que a ginga e o futebol bem jogado é coisa do Brasil e América Latina. Ou mesmo que a profissionalização esteja tirando a alma do futebol europeu. Inclusive, acho tudo isso um discurso bastante preconceituoso. Usando exemplos ruins, a ideia negativa que faço de “ginga” fica mais clara: engenharia de qualidade é para alemão e japonês que são sistemáticos, futebol moleque deixa com os brasileiros.

A gente precisa exigir menos da seleção e trabalhar mais, nosso futebol já deu muitas alegrias pela forma que cuidamos deles. Não podemos acreditar que sempre existirá jogadores espetaculares carregando o time e a responsabilidade. Ninguém queria o Neymar machucado, mas pelo menos deu um choque de realidade na nossa percepção do futebol brasileiro.

Precisamos criar um futebol que faça os jogadores comuns serem melhores, treinando-os bem desde as categorias de base. Procurar os talentos na escola porque muito deles seguirão para uma vida comum e vestirão uma camisa social e não a camisa “Amarelinha”. Enfim, investir no esporte ou continuar acreditando que temos um talento natural para o esporte.

Passado o momento de raiva, as coisas não parecem tão ruins. Apesar do nosso futebol falido, ainda temos ótimos jogadores para montar um time para a próxima Copa. Pode não ser um time favorito, mas ser um bom time. Se futebol não é uma ciência, está longe de ser esse misticismo todo que ronda nossa seleção.

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