Lupe de Lupe, Trator, Lula e a explosão de ser você mesmo.

Um ensaio e review sobre o álbum Lula (2021) da Lupe de Lupe.

Item I — Uma banda de fãs

2018. Após alguns singles do álbum que ainda viria naquele ano, a Lupe de Lupe fez um show no Sesc Pompéia. Nas músicas finais, o público simplesmente invadiu o palco e começou a cantar junto dos então quatro integrantes. A empolgação em faixas como Já Venci ou 17 era estampada em cada rosto, seja novo ou velho. No fim, esta é uma banda de fãs, fãs de verdade.

A primeiro momento: toda banda tem ou deve ter fãs, não há grande novidade nisso. Mas existe uma força especial em cada relação que a banda estabeleceu — e através unicamente de sua própria música. Não é algo fácil de ser descrito, mas a plateia em seus shows tem justamente essa aura: o quão importante é a Lupe de Lupe na vida deles.

Vocação veio nos meses finais daquele ano. Era um álbum denso, que buscava demonstrar força. Naquele período, em que o bolsonarismo já dava as caras, um dos singles escolhidos do disco foi justamente sua música mais dura, O Brasil Quer Mais, em que Vitor Brauer abriu seus pensamentos e questionamentos como alguém abre a janela de casa para entrar luz. O disco tem toda uma composição anticomercial com 10 faixas que somam juntas 1h13min. A faixa de abertura Frágua, que dá muito bem os tons daquele disco, já nos agracia com 9’25’’ de composições, rock e melodias incômodas, como se fosse preciso se esforçar ao ouvir, e então, depois disso, encontrasse algo incrível que só quem se esforçou chegou ali.

Se Vocação era a audição complexa, fruto do amadurecimento musical dos integrantes e suas vontades, Quarup, lançado em 2014, pode ser considerado facilmente a obra prima da banda até agora. Este era um álbum longo, com mais de uma hora de duração pelas 21 faixas, recheado com excelentes e icônicas faixas como Gaúcha ou Fogo Fátuo — e mesmo que estas tenham um lugar especial no coração dos fãs, nas lives de shows feitas pelo Vitor Brauer na Twitch, elas não são necessariamente requisitadas. Ou seja, a identificação vai além de um hit ou outro. Nesse disco a Lupe de Lupe era ela mesma em seu potencial mais bruto. Abrir o álbum com o verso “O futuro é feminino/Minha presidente é uma mulher”, dizia mais do que se podia imaginar na época, em que não era previsto um golpe parlamentar dois anos depois.

Em 2019 saiu o Duas Valsas composto por dois singles, Happy Hour e Naná. A primeira era a estreia de Jonathan Tadeu como parte da banda — por volta de 10 anos depois de Vitor, Cícero Nogueira e Renan Benini se juntarem para tocar covers em festas universitárias na UFMG ; Gustavo Schols só iria entrar pouco depois do lançamento de Recreio, primeiro disco da banda, em 2011. A segunda música do single suplo era uma homenagem emocionante de Vitor a sua cachorra. O marcante, para além das letras tocantes, era a lembrança de que a Lupe seguia viva e afiada.

Item II — Tratores e Lula

O novo álbum iria se chamar Trator. A banda decidiu remediar e adotar outro nome, Lula, mais carismático e mais emblemático. De início já há um processo interessante a ser notado: no geral, quando se opta por trazer crítica política direta para a primeira camada se perde muito da força criativa e o jogo de cintura dos sentidos que podem se estabelecer. Desse ponto de vista, recusar o nome de uma máquina de tração que substitui o trabalho braçal repetitivo, multiplicando a produtividade e reduzindo a quantidade de pessoas necessárias, e que é usado desde a produção de subsistência humana até na destruição de obra humana, seria definitivamente uma perda, porém isso não acontece: a Lupe política na primeira instância amplifica os sentidos possíveis desde o título do álbum.

Quanto ao som, aquilo que era de difícil descrição em seus trabalhos e que ia desde o calmo e agradável das influências de mpb até o mais estranho e incômodo noize, agora, abraça o pop para encontrar o mais punk que poderia ser. É de longe o álbum que soa mais fácil aos ouvidos e que também tem seu conceito e proposta mais complexas até agora, um álbum contraditório per si.

O caminho é longo: ao longo das 16 faixas a banda irá intercalar seus integrantes nos vocais das músicas, que recebem nomes de cidades. As canções, por sua vez, estruturam-se em composições que trabalham as relações dos protagonistas com seus arredores, distanciando-se da ideia de ser algo sobre o Brasil. O resultado é um álbum em estudo poético sobre o brasileiro — ou, então, sobre nós mesmo — em uma metonímia do todo pela parte que exige empenho do ouvinte — e desse jeito não deixa de ser um estudo sobre o país também. Um grande detalhe são alguns pequenos trechos do ex-presidente Lula falando em algumas músicas. Apesar de ser uma colagem bem simples e rápida, a climatização acerta em cheio e expande as significações poéticas e políticas do álbum.

A sequência inicial dá um bom ritmo e sonoramente introduz bem qual a experiência do álbum. A abertura é uma parceria com Fernando Motta, que soma sua voz à de Cícero, resultando em Coromandel. Fortaleza, a seguinte, é a demonstração da enorme sintonia de Jonathan Tadeu com o resto da banda, em uma mistura de seu próprio estilo próprio com o que vinha sendo e vem a ser atualmente a Lupe. Finalmente, Pelotas, a música de ritmo embalante do Benini, marcando algo que vai ser mais recorrente nesse álbum, a mistura de diversos gêneros populares com o típico punk da banda.

A música chave no álbum é Sorocaba, a quarta e que ganha forma na voz do líder da banda, Vitor. Desde o momento que começa, com os versos “Eu vou voltar/ A fazer a canção normal que vai te agradar”, em um grito quase que irônico sobre tudo aquilo que a Lupe não faz — uma canção normal –, Brauer vai construindo a canção e passando de um diálogo sobre amor com com destinatário específico, enquanto elabora características sobre o próprio som que geralmente produz, para então aterrissar sobre suas próprias experiências enquanto rodava o país e amarra tudo com seu aprendizado sobre medo em Sorocaba. Ser quem eles eram sempre foi a maior qualidade deles, e esse som, um som tipicamente da Lupe, tem todas as qualidades que a banda deveria ter.

O meio do disco vai da quinta faixa, Salvador, uma bela composição de Gustavo Scholz, até o interlúdio em Caetés com Fernando Motta. Dessas sete faixas, duas já haviam sido lançadas como singles, Goiânia — aquela que tem mais visceralidade no disco — e a bela Resplendor. E é dentro dessa parte que também se encontra a faixa mais fraca do disco, Uberlândia, em que a Cícero escorrega na composição e a busca por um som mais divertido encontra um resultado meio sonso e desconexo.

A sequência final não deixa o disco cair de ritmo. Maceió e Santa Maria são boas músicas, funcionam como uma boa pausa entre a dupla Goiânia-Resplendor e as últimas três faixas. Cabo Frio é o hit do disco e está impecável: para os que não gostam do disco, a melhor faixa, e para os que gostam, uma das melhores, senão a melhor. Natal já dá um clima de encerramento com toda sua força no refrão e cria expectativas para as versões ao vivo. O encerramento, então, em seu tom solene e suas amarrações de conceitos, cai bem.

A Lupe de Lupe entregou tudo que ela poderia em um álbum singelo e honesto, fruto de seu momento, mas que tem tudo para, assim como os outros, não envelhecer mal, tornando os pontos específicos temas gerais acerca do ser humano.

Item III — “Nesse jogo da vida a liberdade da alma é ser você mesmo”

No final de 2018, quando o Vocação vinha às ruas, em entrevista à Vice e explicando o surgimento da banda, Cícero relata “A gente não se encaixava muito, então vimos que tínhamos que fazer nosso próprio rolê”.

O som da Lupe de Lupe é, realmente, de difícil descrição e fora do padrão, mas o resultado é, além de estupendo, carismático. É torto, mas excelentemente torto, algo feito na medida entre a falta de técnica e a potencialidade da expressão. O som produzido por aquela mistura caótica de mpb, punk e mais uma infinidade de outras coisas menores e maiores resulta em algo que só poderia ser a Lupe.

E eles nunca se enganaram, nunca deixaram de fazer algo que não tivesse a cara deles, o toque especial deles: desde Recreio tudo sangra autenticidade e tem a marca deles, como se fosse impossível surgir algo parecido de outra pessoa ou banda. Seja os momentos mais singelos com Renan, os mais viscerais com Vitor ou os mais solenes com Cícero — que funcionam como os extremos da banda — a banda nunca deixou de ser ela mesma.

De certo jeito, esse novo álbum é uma mistura da maturidade musical e poética de uma banda que já sente os frutos dos tempos no Vocação, com seus membros todos na faixa dos 30 anos, com o lado mais pop visto em Quarup. É, então, a nova fórmula do sucesso da banda. O exemplo máximo, Cabo Frio. A música consegue atingir a melodia mais contagiante na voz de Renan e ainda ser autenticamente um som sincero ao lançar um olhar sobre o passado ao singelamente abrir seu coração e suas memórias a nós. Quase escrita num momento de iluminação, é vigoroso sentir toda gratidão que ele tem por seus amigos e ter perdido o B.V. e parte do pudor. Ou então, no refrão, quando diz que “Não importa a condição/Nem ficar rico, tão pouco ser da cena”, colocando em jogo justamente o não encaixar da banda e percebendo, é claro, que sempre há algo mais importante.

Há outros exemplos, como Goiânia ou Salvador, mas Sorocaba é o tipo de exemplo que ilustra. Desde o início a composição faz questão de deixar claro que se trata de uma música, e que assim toda sua experiência é uma experiência consciente de uma música. E não apenas isso, é uma composição de um autor consciente de seus próprios vícios de composição e que não faz esforço nenhum de escondê-los.

E depois de toda sua reflexão sobre as coisas vividas e a sua situação com uma pessoa que pretensamente “se achou melhor” que o autor, é bonito ver versos que exaltam os valores e dificuldades de ser livre e que mesmo assim vale a pena ser livre e, principalmente, vale a pena ser você mesmo. No final, quando faz referência a “melhor do que ser você” não é uma hipocrisia comparativa, mas uma afirmação do valor de ser diferente e não ser igual ou imutável. Desse jeito, Sorocaba é a metonímia perfeita para ilustrar o que é a Lupe de Lupe.

Item IV — Uma espécie de conclusão

Existe uma dignidade única em ser você mesmo e de estar sujeito a esse jogo complexo de se esforçar em ser você mesmo. Isso traz riscos inerentes da condição do capitalismo tardio: não há certezas nem de sobrevivência material, nem de manter intacta essa mesma dignidade diante das necessidades. E mesmo assim ela existe.

A banda já citada tantas vezes nesse texto parece ter plena consciência disso e segue firmemente produzindo seu próprio ponto de vista musical sobre a vida, o país, as pessoas e todo o resto, mesmo que seja contra as ondas do retrocesso que aportam nosso cais e que parecem intermináveis.

Assim, há um valor único nesse álbum — e em todo resto da discografia deles — de ser justamente produzido por eles. E esse valor é o elogio máximo que se pode fazer. A Lupe de Lupe nesse álbum foi autêntica e fedia e sangrava a ela mesmo.

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Jornalista frustrado, publicitário por acaso. Escrevo a vida para negá-la.

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Gabriel Diamanttino

Gabriel Diamanttino

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