“Precisamos falar de hipocrisia”
Alguns eventos recentes têm me deixado, deveras, preocupado e triste com a atual situação sócio-política do país. Infelizmente casos de corrupção têm brotado nos noticiários, certas vezes, até mais do que assassinatos e roubos em jornais locais sensacionalistas que vendem medo à sociedade. Não me entenda mal, não defendo nem desaprovo nenhum dos dois gêneros de notícias, acredito até que o que acontece na sociedade deve ser noticiado livre de qualquer pré-julgamento. Fatos pelos fatos.
É é aí que a merda acontece: a nossa mídia em geral está polarizada, como acredito que sempre tenha sido, mas ainda mais recentemente, até por conta de toda a situação política do país. Os jornais estão deixando os fatos um pouco de lado e estão se tornando “formadores de opiniões” ou, em termos mais apocalípticos: manobristas de massas.
É ingênuo acreditar que uma rede de comunicação como a Globo, por exemplo, não utilize de suas forças por interesses próprios. Isso acontece até mesmo em empresas pequenas, principalmente porque existem questões de sobrevivência atreladas. Ou seja, como já diria Dexter Holland: “dog eat dog, every day…” ou algo do gênero, não é?
Atualmente no Brasil existe uma luta: contra a corrupção. Finalmente o povo se levantou e está se colocando como força para “amedrontar” os governantes e mostrar que aqui não é brincadeira, mas da mesma forma é ingênuo acreditar que os políticos ficariam de “mãos atadas” perante tal “rebelião” da sociedade, aí começam as retaliações, o oportunismo — que permite que políticos tomem para si uma luta que não é deles, apenas para cravarem seus nomes na “história” em uma medida desesperada de ganhar a aceitação do povo, uma vez que o governo está definhando.
Agora, o mais importante a ser questionado aqui é: os fins justificam os meios?
Queremos tanto o fim da corrupção que aceitamos nos aliar a outros corruptos, desde que esses prometam acabar com “aquela corrupção”. É uma forma seletiva de encarar a situação, não? Por exemplo, ir no Twitter do Eduardo Cunha e gritar: “derruba a Dilma primeiro, depois a gente cuida de você” é mais ou menos como se aliar a um assassino para executar alguém, mas tudo bem, porque depois a gente julga ele pelos crimes e talvez até executamos ele também. Porque afinal, é isso que esses políticos oportunistas estão sugerindo, não? “Bandido bom é bandido morto” — a essa frase queria acrescentar uma atualização: “Brandido bom é bandido morto, mas antes deixa ele nos ajudar”.
Não sei quando o Brasil ficou hipócrita a esse ponto. Ao ponto de defender a corrupção — desvio de verba pública, uso de cargo para interesses pessoais, pagamento e recebimento de propina para manipular votações e defender interesses próprios e até alianças com empreiteiras que ganham “privilégios” jurídicos, caso banquem a campanha de “x” e “y”.
Ao ponto de apostarmos todas nossas últimas fichas em políticos como Eduardo Cunha, por exemplo. A que ponto de desespero estamos, não?
Ainda mais recentemente, no último dia 02 de Abril, o canal de HUMOR, Porta dos Fundos — reparem que eu destaco a palavra: HUMOR, para dar ênfase mesmo — publicou um vídeo criticando, em tom CÔMICO, porque afinal é a proposta do canal, esse julgamento “seletivo” do processo da Lava Jato que torna público “x” e “y” provas, mas determina sigilo em “a” e “b”, por exemplo. Mais especificamente, acredito que o canal trouxe ao HUMOR o fato do juiz Moro — responsável pelas investigações da Lava Jato — determinar sigilo a uma lista cedida pela empreiteira Odebrecht, na qual, rumores indicam nomes de diversos políticos que tiveram campanhas “patrocinadas” pela empresa, por outro lado, tornou público uma gravação — ilegal — grampeada, ao que tudo indica, do gabinete da Presidente Dilma, na qual conversa com o ex-presidente Lula. É ingênuo, mais uma vez, acreditar que não houve interesse envolvido nesses “vazamentos” e determinações de sigilo.
Minha intenção aqui não é julgar se as provas deveriam ou não ser públicas, o que gostaria de propor é uma discussão referente ao vídeo postado pelo grupo de, mais uma vez em destaque, HUMOR, publicou no último dia 02 de Abril.
Voltando um pouco na lista de vídeos do canal, não é difícil ver diversos vídeos que criticam, abertamente, o governo Dilma e a corrupção como um todo. Em um dos vídeos, a própria presente é representada — brilhantemente — com suas vestimentas vermelhas e discursos “perdidos”, em relação ao atraso e superfaturamento nas obras para a Copa do Mundo. Em outra oportunidade, o grupo de HUMOR, satiriza a indicação do ex-presidente Lula ao cargo de Ministro Chefe da Casa Civil, quando indicam — no vídeo — um assassino a um ministério para garantir “foro privilegiado” ou algo do gênero, enquanto isso, os próprios políticos representados no vídeo “somem” de suas posições, representando a rapidez com que a operação Lava Jato está prendendo os políticos, o que é louvável, diga-se de passagem.
Mas será que essas prisões e investigações são “imparciais”? É justamente isso que o vídeo sobre as delações critica e propõe ao espectador.
É aí que boa parte de quem viu o vídeo morde a própria língua. Por que quando critica o governo, tá tudo bem, mas quando o vídeo critica as operações de investigação, o grupo de HUMOR é atacado?
Calma, não quero acelerar as coisas, mas vamos nos questionar: “é legal fazer piada com o que eu não concordo, mas JAMAIS faça piada com o que eu acredito e concordo” — tá certo isso?
Cade todo aquele discurso de “liberdade de expressão” e “viva a democracia”?
Esse vídeo desafia inclusive humoristas que criticam veemente o governo: “O humor não tem limites, a menos que desrespeite algo que eu gosto” — não é porque usei aspas, que isso foi necessariamente dito por alguém, mas simplesmente por não serem palavras diretamente minhas, ou seja, é mais “o que tá parecendo…”
Aí mora a hipocrisia.
O vídeo está chovendo dislikes, por meio de campanhas — o que significa que as pessoas estão se mobilizando para chamar e divulgar o vídeo a fim de clicar em “Não Curtir”. Ou seja, as pessoas estão divulgando a hipocrisia de: “critique o que quiser, exceto o que eu gosto”.
Aí vem a minha tristeza.
Li comentários atribuindo a ideia disso tudo do Gregório Duvivier, mesmo sendo um roteiro escrito pelo Fábio Porchat. Outros já ignoram a esquete de HUMOR como uma mera demonstração artística e partem para cagar regras que, outrora, eram “inadmissíveis” em um país livre/democrático.
Querem o direito de protestar nas ruas? De gritar em alto bom som suas posições políticas? Perfeito. Deem esse direito a todos. Aceitem posições contrárias e, mais importante, não venham com proselitismo, pois esse é o maior tiro no pé que vocês podem dar.
Outro canal do youtube criticou veemente o vídeo de HUMOR do Porta dos Fundos e, nas próprias anotações do vídeo em questão, pede “distância” de qualquer um que defenda o PT — isso pra mim beira o fascismo, MAS É SÓ UMA OPINIÃO MINHA, ignorem. Nas falas desse rapaz, o Porta dos Fundos passou do limite ao criticar uma operação incorruptível por parte da PF e até atribuiu o vídeo como um resultado de auxílios ficais que o grupo de HUMOR Porta dos Fundos recebeu para a realização de seus filmes, por meio da Lei Rouanet — o que vamos e venhamos, qualquer um consegue esses recursos, basta conhecer a lei e aplicar para receber, preenchendo todos os requisitos. A distribuição desse recurso é bem mais comum do que se imagina e se trata de um incentivo à cultura e ao cinema brasileiro. É difícil um filme brasileiro que não tenha se utilizado dessa lei para bancar o filme, mas ok, não sou apto a debater legislação e essa nem é a intenção aqui.
O que mais me preocupou nesse vídeo é que ele representa, basicamente, o perfil do brasileiro que está surgindo e vem crescendo na atual situação do país: um brasileiro intolerante, umbiguista e ainda hipócrita.
Por que, afinal, criticar um vídeo de HUMOR em tempos que se fala de censura do humor e limite da comédia? Isso é nadar contra a maré. Isso é pisar na luta de muitos humoristas que defendem o direito de fazer comédia com o que sentem vontade.
Agora, novamente, o vídeo aponta um outro lado — uma visão diferente — qual é o problema? Pior que isso é atribuir a autoria do vídeo a “x” e “y”, em específico, como muita gente nos comentários do vídeo do Porta dos Fundos criticam o Gregório Duvivier, exclusivamente.
A começar que o roteiro, como supracitado, é do Fábio Porchat e a equipe de HUMOR é grande e os vídeos passam por critérios de produção, divulgação e criação. Ninguém solta “qualquer coisa”. Isso é o que resulta no sucesso deles, a produção refinada, o humor ácido e crítico, o cuidado com o tom e mais importante: a liberdade de brincar e criticar qualquer um, seja ela uma presidente ou uma PF da vida.
Em outros vídeos, o Porta dos Fundos critica a corrupção da Polícia Militar — por que ninguém ficou do lado da PM e fez “recorde de dislikes” nesses vídeos? “Ah não, mas aí fere a liberdade de expressão” — Hipocrisia, né?
Em outros vídeos, o Porta dos Fundos critica a igreja e religião — por que ninguém ficou do lado das instituições religiosas e fez “recorde de dislikes” nesses vídeos? “Ah não, mas aí fere a liberdade de expressão” — Hipocrisia, né?
Então deixem os caras zoarem o Lula, a Dilma, a PF, PM, o Moro, a Igreja e quem mais eles estiverem afim, porque afinal, tudo isso é HUMOR, não? É para ser crítico, não? É para ter o tom deles, que eles escolheram. Essa é a garantia da liberdade que eles têm em um Estado Democrático, com expressão de opinião livre. Afinal, não é para isso que estamos lutando?
A crítica é válida para qualquer lado, o HUMOR deve ser livre para brincar com qualquer lado, mesmo você não concordando com isso, garanta o direito da liberdade artística, para que ninguém te cale jamais.
É em favor do debate, da livre expressão da opinião que escrevo minha opinião.