OS CONHECIMENTOS ECONÔMICOS E AS FORMAS DE OBTÊ-LO

Por Bruno Borsatto

Todas as artes e ofícios se utilizam de ferramentas e métodos, em maior ou menor grau, a fim de produzirem seus resultados. Assim também é na pesquisa científica, histórica, matemática, biológica e econômica, por exemplo. Sejam físicas ou intelectuais, utilizamo-nos de ferramentas para produzir conhecimento da mesma forma (por analogia) que um marceneiro constrói um móvel.

Qualquer estudante universitário é minimamente familiarizado com a disciplina de “Metodologia de Trabalho Científico”, ou nome derivado, que obrigatoriamente haverá de cursar a fim de apresentar o seu trabalho de conclusão de curso, o TCC. Além das famigeradas regras da ABNT, os livros de teoria de pesquisa trazem capítulos introdutórios interessantíssimos (e usualmente ignorados solenemente) sobre a filosofia em torno da pesquisa e, por conseguinte, do próprio conhecimento.

Ora, se o marceneiro, utilizando-se de suas ferramentas e do material disponível produz um móvel e o pesquisador, utilizando-se da escrita e dos dados desenvolve uma conclusão tida como verdadeira. Porque prestar atenção nos capítulos que investigam a própria forma da escrita, ou, porque o marceneiro se incomodaria de refletir sobre a cunha, ou o martelo que utiliza?

A resposta para isso é vital para entendermos o resultado que, eventualmente, o pesquisador, ou o marceneiro terão do seu trabalho. Afinal, se o marceneiro trabalhar com as mãos nuas, as árvores pouco ou nada sofrerá, mas também, não saberíamos o que são os bancos, mesas, colunas, palanques, tamancos, e móveis em geral. Assim também é com o estudioso que se utiliza de fontes imprecisas, métodos contraditórios, ou é tendencioso; não produz conhecimento verdadeiro.

Estabelecidos os pressupostos nestes quatro parágrafos anteriores, me permito discorrer sobre um assunto ligeiramente diferente do que o leitor está acostumado. Sim! Falaremos de economia. Mais especificamente do modo de conhecer da economia, em um brevíssimo resumo. Afinal, por quê?

Fonte: Google Imagens

Os conceitos.

O estudo da economia é o estudo da relação homem com o mundo material a sua volta. É entender os processos de tomada de decisão pelos quais nós passamos ao lidar com recursos finitos e escassos e como, ao lidar com o mundo a nossa volta, através do trabalho, modificar a realidade e as nossas condições materiais. Assim, saber o que os economistas discutem e os termos que eles cunharam, torna-se vital para entender o próprio mundo moderno com precisão.

O pensamento econômico está presente na humanidade desde que o primeiro mesopotâmico precisou tocar cabras por sal e não sabia muito bem como fazer aquilo. A diferença entre valoração e avaliação, o conceito de utilidade e meio de troca vem se formando e sendo construído desde aquela época até os dias de hoje. A cada vez que, em dúvida sobre se compramos uma calça e um sapato, ou um relógio Rolex, ou mesmo um Orient, mais singelo, de presente de dia dos pais, estamos contribuindo para o interminável debate econômico.

O termo “valor” é talvez apenas atrás de “coisa” a palavra mais genérica que podemos encontrar. “Você não se dá valor”, “Ele não vale tudo isso”, “Essa casa não vale tanto”, “Não vale o esforço”, essas frases, hodiernamente usadas, correspondem a várias acepções possíveis do mesmo termo, mas com sentidos diferentes. Talvez seja melhor nós diferenciarmos a valoração da avaliação e aí poderemos falar de valor. E é assim que iremos proceder.

A valoração é interna, subjetiva, pessoal, essencialmente individual. Cada um valora o que é melhor para si mesmo. É o campo da preferência. É, por exemplo, quem prefere doce a salgados, que aceita pagar mais por um serviço melhor, ou menos por um pior. É o conceito de valoração que devemos pensar quando alguém paga o dobro do valor por um produto apenas por ele ser “de marca”. É no valor per si, intrínseco, que se pensa quando valoramos algo.

A avaliação, por outro lado, é externa, depende do mundo natural ao redor, essencialmente coletiva. É o que fazemos quando ganhamos algum dinheiro. Ninguém tem dinheiro apenas por ter, nós queremos dinheiro pelo que podemos fazer com ele. Seja por poder, seja por conforto que podemos obter com o seu uso. A avaliação é o método que utilizamos quando queremos o valor de mercado, de venda, de troca, de negócios de algum bem ou serviço. Quando pensar em avaliação, lembre-se do Osama Bin Laden, que foi o maior Inimigo dos Estados Unidos, mas aceitava dólares para financiar sua causa, pois sabia que o mundo todo aceita os dólares.

E o Valor? Karl Marx define o valor das coisas, grosso modo, como o tempo dispensado em sua produção, ou outras palavras, o valor é atrelado ao trabalho necessário para se obter o produto final. Ideia sedutora, no entanto, errônea, como a história e a vida real, desassociada dos livros e ligada ao mundo, veio a mostrar no século XX. O qual seria então a melhor teoria do valor?

Quem trás a resposta é Carl Menger, juntamente com seu discípulo intelectual, Eugene Von Böhm-Bawerk, um quase desconhecido economista e, porque não um sociólogo, do início do século XX. Böhm-Bawerk, apoiado nas teorias de Menger criou a “Teoria do Valor Marginal”, um método de estudo da valoração e avaliação que ocorre naturalmente na sociedade, e que, sem saber, utilizamos a todo tempo.

Carl Menger — Fonte: Google Imagens

A realidade.

Sem me arriscar a desenvolver complexas elucubrações teóricas, falei como tenho procedido até aqui, com exemplos para a explicação do pensamento de Böhm-Bawerk a cerca do valor. Imagine alguém que quer comer chocolates e tem a sua disposição um número muito grande de barras de chocolate. Ao comer a primeira, quase sem mastigar, sente um imenso prazer. Parte então logo para a segunda, após, a terceira, e ainda, a quarta. No entanto, a cada vez que se come uma barra, ela dá um pouco menos de prazer, ou como se define no “vocabulário” econômico, utilidade. E conforme a quantidade de utilidade por barra diminui, menos queremos comer. Chega, no nosso exemplo um momento de utilidade marginal negativa, onde ao invés de a nossa utilidade/prazer aumentar, ele diminui, que é mais ou menos quando vem à indigestão.

O valor, portanto, não é a quantidade de trabalho utilizada para que a coisa se transforme, mas sim a utilidade percebida pelo agente ao realizar um trabalho. Complicado? Talvez confuso? Vejamos então uma comparação para esclarecer eventuais dúvidas e ainda seguirá uma prévia dos próximos capítulos.

Se admitirmos que o valor seja dado pelo trabalho em si, podemos concluir que é melhor cavar um buraco com as mãos que com uma pá, afinal, ele será mais valioso devido ao maior tempo e esforço despendido em sua realização, não é? Admitimos que o trabalho seja a medida exclusiva do valor, estaremos dizendo que eficiência e a produtividade desvaloriza o trabalho, estaremos acima de tudo incentivando o esforço maior pelo menor resultado. E ainda, se o trabalho dá o valor, merecemos receber pelo buraco cavado dão duramente com as mãos nuas, não é mesmo? Mas receber de quem?

Quando nos utilizamos do “marginalismo” para avaliar as coisas, chegamos mais perto da realidade. Assim, quando pensamos no mesmo buraco do exemplo anterior, concluímos que não só é melhor cavar um buraco com uma pá, mas também somente sair por aí cavando buracos à medida que somos contratados para isso, ou que temos algum interesse na abertura do bendito buraco. Afinal, a avaliação do resultado do trabalho será feita por nós mesmo e pelos outros, se quisermos, respectivamente, satisfação pelo bom trabalho ou algum ganho financeiro.

A Justificativa.

O que fizemos aqui foi brevemente refletir a cerca das ferramentas utilizadas para produzir conhecimento. Preferi fazer este texto expositivo, e até um tanto longo, para poder me remeter a ele novamente quando falarmos de Reforma Agrária, e assuntos ligados à poluição, saúde, desenvolvimento sustentável e questões humanitárias, como desastres naturais e refugiados. Duvida? Deixo por hora este fragmento de conhecimento por aqui. Ele servirá de base para entendermos questões éticas e morais mais tarde, à medida que utilizamos estes fundamentos para conhecer.

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