João

Oi, João. Sou eu, Ana.

Desculpa por te chamar do nada depois de tanto tempo. É porque realmente gostaria de falar umas coisas para você. Coisas que talvez deveria ter falado a cinco anos atrás. Tô um pouco nervosa, então algumas partes podem ficar sem nexo, mas vamos lá. Chega de enrolação. Você precisa saber o meu lado da história.

Bom, a verdade é que eu te amei. Muito. Só que infelizmente, apenas amor não basta para sustentar qualquer relação. É preciso que ambas as partes estejam bem. Comprometidas. Envolvidas. Inteiras. E sim, quis falar inteiras mesmo.

Durante boa parte da vida pensei que só iria ser feliz e me sentir completa se tivesse alguém ao meu lado. Um namorado, noivo, marido, whatever. Eu me sentia pela metade. E tentava preencher a outra parte entrando em sucessivos relacionamentos.

Encontrei caras legais, mas também encontrei caras que não me trataram bem. Que me fizeram sentir um lixo. Alguém que não era e nunca seria digna de afeto algum. E eu, quebrada, acabei achando que tudo aquilo era verdade. E que a culpa era inteiramente minha.

Você, João, foi o ponto de partida para o que viria a ser a minha libertação. Você me fez perceber que era digna de amor. Você teve paciência, e me esperou enquanto tentava curar algumas feridas. Você ajudou a dar nome a aquilo que me aflingia: o porque de nunca ter sido suficiente para os caras com os quais me relacionei. Você me levou até sua irmã, ela me falou sobre relacionamentos abusivos. Foi duro demais ver a ficha caindo. Você me abraçou. E disse que com o tempo, as feridas iriam sarar.

Realmente, as feridas saram, João. E foi por isso que te deixei naquele dia. Eu precisava me sarar. Eu precisava procurar a minha cura. Você me fez perceber isso. Só que você não era o responsável por me guiar até ela. Era uma jornada que eu deveria enfrentar sozinha.

Depois que sai do apartamento, fui para a casa da minha mãe. Juntei aquele dinheiro que tava guardando para comprar um carro, e comprei uma passagem pra Joanesburgo, na África do Sul. A verdade era que eu queria ter ido para a Dinamarca, mas a passagem para a África estava mais barata e daria para eu me manter com o dinheiro por alguns meses.

Aluguei um estúdio simples por lá. Fiz curso de inglês, e depois de três meses estava trabalhando em um restaurante no centro da cidade. Durante o dia, minha vida era dividida entre trabalho e estudo, e a noite era destinada a mim. Comecei a fazer Yoga, comecei a correr também.

Essa cidade é tão linda e cheia de vida, João! Não me imagino vivendo na Dinamarca nem que eu tente. A Shaira, uma amiga que trabalhava comigo no restaurante, me levou a um centro de atendimento a vítimas de violência doméstica, onde ela era voluntária durante os fins de semana.

No início foi muito difícil. Chorava muito quando conversava com as mulheres. Chorava por elas, chorava por mim. E por tudo o que nós enfrentamos. Hoje em dia sou voluntária, e estou encarregada de mapear locais onde ocorrem casos reincidentes de violência doméstica em Soweto.

Renovei meu visto, e pude começar a fazer faculdade de Ciências Políticas. Me formo no próximo ano. Ah, João! Se você soubesse o quanto mudei. O quanto crescei como pessoa, como mulher. Minha mãe falou que hoje sou outra pessoa. As vezes acho que sim. Mas lá no fundo, acho que continuo a mesma. Só que mais madura. Mais confiante.

O bom da vida, João, é que ela tem o poder de regeneração. Podemos nos tornar a melhor versão de nós mesmos todos os dias. Ou uma versão diferente. Vamos amadurecendo, criando vínculos, desfazendo, nos refazendo, e construindo nossa história a partir daquilo que a gente decide viver. Do que decidimos para a gente. E eu decidi que queria me sentir inteira. E que quando estivesse pronta, gostaria de ter alguém inteiro ao meu lado. Inteiro como você foi a cinco anos atrás.

Obrigada por me fazer perceber que eu precisava ser completa. E hoje, orgulhosamente posso dizer que sou.

Espero que você seja feliz, João. Ou melhor, que você esteja feliz. Te desejo as coisas mais lindas e inteiras do mundo (tô falando muito inteira, né?! continuo com aquela fixação por palavras). Enfim, fica bem. E saiba que mesmo de longe, você tem alguém que torce todos os dias pela sua felicidade.

Obrigada mais uma vez. De sua velha amiga, Ana.