Como posso sair da minha zona de conforto se eu mal consigo sair do quarto? (6 months ago)

Na verdade, na verdade mesmo, meu sonho era ser jogador de futebol.

1999, seis anos de idade. A vida deu um jeito de amputar meu sonho e eu ainda nem sabia que o M vinha antes de P e B. Minha mãe, eu e o médico percebemos que eu estava acima do peso para minha idade e tinha problemas de respiração. Se isso tem como consertar com o tempo, aí eu já num sei.

(Continuo acima do peso e só respiro pela boca. Se corro vinte metros sem parar, fico ofegante e quase caio duro no chão)

Mas, ah, que se foda, aceitei ainda pequeno essa condição.

Anos mais tarde, tinha o sonho de tocar guitarra. Que depois abrangi para o violão. Qualquer um destes dois instrumentos estava perfeito. Contra-baixo? Deve ser da hora também. Eu pedia, pedia e pedia para meus pais um, sei lá, um incentivo, mas nunca o recebi. Insisti, coisa que nunca tinha feito até então, mas nada. Conheci o moinho que triturou meus sonhos tão mesquinhos e reduziu minhas ilusões a pó e eu nessas alturas nem sabia quem era o Cartola.

(Eu também, penso, não me esforço. Por que não aprendo hoje? Não tenho coordenação nem pra usar garfo e faca ao mesmo tempo. Com o passar do tempo eu fiquei todo atrofiado. Vai ver eu desisto muito fácil…)

Depois disso, foi só ladeira abaixo. Desmotivação atrás de desmotivação. Vieram as desilusões amorosas da adolescência, a Dolorosa, os remédios, as lembranças dos sonhos triturados. E, hoje, aqui estou.

Com o passar do tempo tentaram fazer descer pela minha garganta sonhos pré-fabricados, de procedência duvidosa, que cheiravam mal e que não eram palpáveis à minha condição miserável de pessoa decepcionada. Queriam que eu fosse doutor. Queriam que eu fizesse uma faculdade. Estimulavam em mim algo inexistente. Alimentavam esperanças que nem mesmo eu tinha. E, se pá, essa tenha sido a desilusão deles. Eu tinha apenas um trabalho: não ser um fracasso. E, até nisso, fracassei.

Hoje eu não me vejo fazendo nada. As vozes que moram dentro de minha cabeça me dizem a todo momento que eu não sirvo pra nada. De tanto ouvir coisas desse tipo eu acabei acreditando que realmente não sirvo pra nada.

Em contrapartida, escrevo. Não me acho bom, mas escrevo.

E se eu escrevo é para não morrer.

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