New day rising

Eu só abri hoje a carta da Luiza. Dia da morte de Grant Hart.

Não ando orgulhoso dos vexames que dou quando estou sozinho. Muito menos das lágrimas que insistem em brotar dos olhos. Tenho andado todo desacorçoado, mais perdido que pitanga em pé de amora. Eu tô um lixo.

Queria ter mais disponibilidade pra sair de casa, animar o coração de trombar as pessoas pra poder dar risada e tomar uma cerveja. Eu simplesmente não consigo fazer absolutamente nada disso. Há semanas que não vou pro centro encontrar os amigos que não são da vila. A última vez que saí, foi na sexta passada pra colar num show mas as coisas realmente mudaram. Eu entro em pânico sozinho e preciso sair correndo muito antes de tudo acabar. Saio sem me despedir de parte das pessoas que conheço. Só não me sinto pior com isso porque dentro da minha cabeça elas nem notam que eu estive por lá. E isso é horripilantemente perigoso pra mim.

Me desculpa.

A carta da Luiza chegou aqui no fim de Abril e eu só tirei do envelope agora, quase cinco meses depois. Eu honestamente não sei porque deixei a carta dela tanto tempo em cima da escrivaninha. Resolvi abrir e chorei. Receber carinho de gente que a gente tem carinho é realmente uma delícia. Às-vezes-quase-sempre me pego pensando que não mereço o carinho que recebo. É realmente difícil morar em mim. Essa casa caindo aos pedaços anda sempre desarrumada. Tô tudo bagunçado.

Eu ando confuso. Eu tô à beira de surtar de verdade.

Dia desses deletei meu instagram, fiz um facebook novo, um twitter novo e até um lastfm novo. O facebook eu vou deixar quieto, o twitter novo eu deletei e voltei com o antigo, o lastfm eu vou usar o novo. O instagram foi o que mais doeu. Perdi algumas fotos que eu adorava. Eu tô todo desarrumado. Sem rumo nenhum. Tô com medo de ter coragem.

Não consigo mais me sentir bonito. Não sei como alguém consiga daqui pra frente me achar bonito ou atraente. E isso vai virando uma bola de neve tão nefasta que logo logo eu vou estar cada vez mais podre. Sem tomar banho, sem desodorante… Periga até eu deixar de escovar os dentes. As olheiras crescem conforme crescem as unhas dos pés. As unhas das mãos só diminuem, assim como o apreço e zelo por mim mesmo. Eu sou o meu próprio lar, meu dono, mas eu não tô realmente em condições de me restabelecer. Eu só quero dormir ou partir pra onde ninguém me conheça. Mas eu não tenho um puto no bolso nem pra comprar aquele maldito box de Winston. Eu tô um lixo.

Amei a carta, Luiza. Você continua sendo a pessoa maravilhosa de 2007.

Meus desenhos andam escurecidos com a sombra que carrego dentro do peito e eu quase não escrevo mais os meus poemas que fazia desde a adolescência.

Acho que é isso a tradução de everything falls apart.

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