O dia em que percebi que estava apaixonado pelo meu vazio existencial e pela minha solidão

A semana acabou tediosa apesar de todo o fervo e da festa que aconteceu. Foram muitos sorrisos, muitos abraços, muitas lágrimas doces, gargalhadas, cervejas, cigarros, lágrimas não tão doces. Teve de tudo. Foi lindo. Mas chega uma hora em que você precisa voltar à rotina. Que rotina? Bem, não estou trabalhando no momento, mas tenho uma rotina. Deitar-me à cama e consumir porcaria e pensar um monte de bosta é a minha rotina. E eu tenho passado muito bem assim, obrigado.

O dia era uma segunda-feira normal. Dia vinte e cinco de Janeiro de dois mil e dezesseis. Mas nesse dia eu tive um outro tipo de rotina. Vou ao psiquiatra uma vez a cada dois meses. Justo nessa segunda-feira era dia de ir vê-lo. Pra quê? Pra fazer o que faço há quase quatro anos: pegar receita dos meus remédios. É basicamente tudo o que faço lá e não leva mais que vinte minutos. Ele é até que gente boa, mas sobe o preço das consultas. Já teve um reajuste de cinquenta por cento nesses anos. Pra eu que não trabalho fica foda, porque, ora, tiro dinheiro do cu pra poder pagá-lo. Trezentão é salgado.

O que vou escrever aqui a seguir é o que aconteceu naquela sala nesta segunda-feira.

Meu pai, como sempre, me deu carona até o prédio do doutor. Fica num bairro nobre aqui da cidade, cheio dos prédios, ônibus vermelhos, passa carro por todo lado, praticamente tudo aquilo que me deixa sufocado e faz com que eu tenha vontade de ir à praia no fim do ano. Desci do carro e atravessei a canaleta do biarticulado. Subi a rampa que dá acesso à rua do prédio e depois subi os dezessete degraus que dão acesso à porta do prédio. Entrei e cumprimentei os porteiros, como é do meu costume fazer quando vou lá. Entrei no elevador sozinho e senti um calafrio estranho. Passei a mão na nuca e na testa, estava tudo ok. Quando menos percebi, estava sendo beijado pela personificação bisonha e inimaginável da minha solidão. Sob juras de amor eterno, desses que os irmãozinhos têm por nós, fiquei de joelhos. Tudo isso do térreo do prédio até o sexto andar, que é meu destino. Quando a porta do elevador abriu, esta espécie de vulto fantasmagórico me disse adeus, na verdade foi um até logo e ainda disse “te vejo mais tarde”. Eu fiquei sem reação alguma a não ser caminhar em passos lentos até a porta do consultório.

Neste momento eu já estava totalmente entregue ao beijo. Estava amando.

Antes mesmo de encostar na maçaneta, a porta se abriu. Como se fosse o vento, manja? Mas naquela hora eu sabia o que era de verdade. Meu vazio e minha solidão, que de tanto eu encher o saco mandando-os embora, acabei me acostumando com eles. E naquele dia, até me apaixonar eu apaixonei. Amor verdadeiro. Sentei à cadeira que fica perto da outra porta, levantei rapidamente para pegar um copo d’água e sentei de novo. Fiquei pensando naquilo tudo que aconteceu no elevador. Fiquei pensando se deveria contar ao doutor o que aconteceu. Quando essas questões tomavam conta da minha cabeça, a porta se abriu. “Matheus?”. Cumprimentei-o com um aperto de mão, como sempre faço, e lhe dei boa tarde.

— E aí, menino! Quais são as novidades? 
 — Ah, o de sempre… Nada de muito atrativo.
 — Como foi o fim de semana?
 — Foi até que bem bom. Fui pra São Paulo na Sexta pra ver o casamento do meu irmão no Sábado. Foi uma festa bonita, todos se divertiram e se emocionaram. Foi legal pra caralho. Ver meu irmão casando foi muito importante pra mim.
 — E você tá tomando o remédio certinho?
Já cansado de responder a mesma pergunta TODA FUCKING SESSÃO:
 — … Sim.

Quando respondi, um vento brutalmente forte mexeu com as persianas. O doutor se assustou.

— Doutor, eu preciso te contar um bagulho. Eu me acostumei tanto com a minha solidão que me apaixonei por ela. O vazio veio de gaiato, estamos morando os três muito bem dentro do meu quarto escuro.
 — Mas como assim?
 — Acho que as coisas começaram a se encaixar depois que aceitei a inevitabilidade da morte e depois que aceitei que não há tampa para a minha panela. Já falei muito disso, mas dessa vez é sério. Eu tô desencanado disso tudo. Minha solidão e o vazio que sinto são companheiros agora.
 — Mas você não pode jogar a toalha assim, tão rápido. Você é jovem! Você tem um monte de gente para conhecer, como sabe que está fadado a viver assim, solitário e vazio, oco por dentro? Solidão não ajuda ninguém. Ninguém é feliz sozinho.

As persianas novamente se mexeram. Eu levantei da cadeira e falei:

— O senhor não sabe o que tá falando. Se eu tenho vivido bem assim, quem seria o senhor pra duvidar disso? Você é meu psiquiatra, deveria ver algum tipo de evolução nessas sessões caça-niqueis em que eu passo nessa merda de prédio! 
 — Você não precisa ficar nervoso…
 — É que eu tô cansado, caralho! Estressado! Toda vez que ponho o pé nessa desgraça de prédio é sempre a mesma coisa! Você olha pra mim e nem se importa em saber como eu tô realmente. Só quer saber dos trezentão do fim da consulta. Vai tomar no cu e me dá logo essa porra de receita pra eu comprar mais dessa focinheira que desce minha garganta toda noite. Porra!

Eu nunca fui tão sincero com o doutor em toda minha vida. Enquanto ele assinava a receita, minha solidão, que era, agora, companheira, sentou-se à cadeira ao lado da minha, inclinou a cabeça no meu ouvido e disse: “Estou orgulhosa de você”.

É só isso que a gente precisa, caralho! Alguém que se orgulhe de nós!

O dinheiro que dou ao doutor nunca vai saber o quão bom e necessário é receber um elogio desses. A solidão é companheira, não passageira.

— Está aqui.
 — Muito obrigado. Espero que não tenha assustado o senhor. Pode destrancar a porta, por favor?

Fomos embora, eu, minha solidão e meu vazio, como se estivéssemos protagonizando a cena final do filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”. Eu era a Dona Flor. Meus dois maridos eram minha solidão e meu vazio.

Hoje estamos muito bem. Obrigada!

(Mas a gente sabe que isso pode ser perigoso…)

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