Uma pincelada sobre o design

Não é de hoje que sabemos — ou pelo menos deveríamos saber — que a arte está inserida desde sempre no contexto da história humana. As artes rupestres (desenhos supimpas do tempo das cavernas) comprovam isso, e vou além, pois, isso me faz pensar que o design não é nada novo, como vemos nesse tipo de arte existe um propósito por trás de tudo, uma certa simbologia e significado que até hoje intriga muitos estudiosos acerca de o que seriam de fato, qual a mensagem gravada ali. Pois bem, voltando ao mundo real (onde minhas teses rasas não valem muita coisa) vamos nos basear na história provável.

Já é meio que subentendido que a palavra ‘design’ seja uma variação de designar, designação. De fato deriva do latim, “designare” que significa algo como marcar, traçar, planejar, ou seja, para ser design tem que haver planejamento, função. Já dizia nosso mestre Alexandre Wollner “capa de disco não é design…” (referindo-se a ilustração). É sabido então que para algo ‘ser design’ é necessário, estudo, é necessário que solucione algum problema, mas claro, não se esquecendo do visual bacana, da estética. Ah, a estética!

ENTÃO É AÍ QUE ENTRA A QUESTÃO ARTÍSTICA DA COISA

Bom, vamos ao que interessa. Fique à vontade para entrar no Design Lorean (sacou? rs)… viajaremos direto para o século XIX, Europa, mais precisamente Inglaterra. Nesse tempo e local vivia um carinha chamado William Morris, um multiartista criador do movimento conhecido como Arts and Crafts (ou Artes e Ofícios). Morris buscava o reconhecimento para os artesãos daquela época para que fossem tratados realmente como artistas. Ele defendia a produção criativa como alternativa à mecanização e produção em massa de objetos padronizados, ou seja, tinha como objetivo inserir na indústria e no mercado, em todo tipo de produto, a arte feita por artesãos (que, contudo, viriam a se chamar designers posteriormente). Essa cultura estética não obteve muita repercussão na época, porém, influenciou diretamente o movimento Art Nouveau (arte nova) e serviu de grande inspiração para a criação da Bauhaus um tempinho depois (falaremos disso jajá).

O Art Nouveau, ao contrário do que muitos pensam, não foi iniciado na França (apesar do nome) e sim na Inglaterra. Acredito que inicialmente surgiu mais como tendência arquitetônica e acabou evoluindo, sendo considerado hoje o primeiro movimento voltado ao design (uhul!). Além da influência óbvia do conceito de artes e ofícios o Art Nouveau também foi fortemente impactado por obras e movimentos artísticos orientais. Quem diria né…
Apesar de obedecer aos ‘mandamentos do design’ o Art Nouveau privilegiava a verticalidade, o decorativo e os ornamentos, o negócio era ser espontâneo e ter liberdade para preencher espaços. Tá lembrando de alguns pôsteres retrô que já viu por aí?!

Logo, é natural que nos venha à cabeça o famigerado Art Déco. Esse também é o cara! Além de ser uma continuidade, uma renovação do Art Nouveau o Art Déco, na minha opinião, é ainda uma versão melhorada no sentido de “menos é mais”, pois, utiliza-se de formas mais simples, é clean no estilo e tudo isso sem perder o requinte. Acredito que se pudéssemos comparar com algo atual seria como o conceito de flat design em relação ao descontinuado visual web 2.0. Há muitas referências também do Art Déco na arquitetura, até mesmo no Brasil, em famosos edifícios e monumentos. Sabe o Cristo Redentor? Então.

3 GRANDES MOVIMENTOS ANTES DE FALARMOS DAS ESCOLAS…

Suprematismo Russo: Era mais ou menos 1913, na Rússia (claro), Malevitch, um famoso pintor abstrato, lança uma tendência artística que consiste em não haver objetivos, que dê liberdade ao artista para expressar seus sentimentos de forma figurativa, idealista, sem se preocupar com quaisquer métodos ou finalidades. O Suprematismo utilizava-se de formas geométricas e cores puras, depois aderindo também às elipses e tons pastéis. Particularmente curto muito esse conceito e consigo encontrar referências disso hoje em dia, até coisas que eu mesmo já produzi e sem querer inseri, meio que inconscientemente, traços suprematistas. Bacana! Vale a pena dar uma googleada e ver um pouco mais sobre esse estilo que influenciou e muito o design gráfico moderno.

Construtivismo Russo: Esse surgiu meio que simultaneamente ao Suprematismo, contudo tenho a sensação de que ganhou maior repercussão. O core disso tudo é completamente diferente do primo suprematista, quero dizer, no construtivismo há a preocupação com a objetividade, com soluções na comunicação. Nessa onda pensar fora da caixa era essencial para obras criativas diversificadas, utilizava-se de fotomontagens, técnicas de superposição, fotogramas etc. Idealizado por Vladimir Tatlin esse movimento impactou e influenciou uma galera e até hoje há reflexos do construtivismo em diversas manifestações estéticas. Um exemplo simples disso é a capa do album “You Could Have It So Much Better” da banda escocesa Franz Ferdinand.

De Stijl: Um estilo influenciado pelo cubismo e composto basicamente por cores primárias, formas simétricas, ângulos retos, espaços em tons de branco e contornos pretos. Também conhecido como Neoplasticismo foi criado pelo pintor Piet Mondrian em meados de 1917 e influenciou toda uma geração desde arquitetos, designers à estilistas. O nome diferentão surgiu de uma revista holandesa em que ele colaborava. Quanto à pronúncia, não se assuste… é algo como “dé stéil”.

VKHUTEMAS
Oficinas superiores de arte e técnica do estado (o nome é uma sigla sobre este título). Essa instituição russa foi estabelecida por decreto de Vladimir Lênin em 1920 e tinha como foco principal formar artistas altamente qualificados para a indústria e gestores para o modelo de ensino técnico-profissional. Foi uma fusão de três escolas existentes: Escola de Pintura, Escultura de Arquitetura de Moscovo e Escola Stroganov de Artes Aplicadas.
 
O primeiro programa pedagógico foi elaborado por ninguém menos que Wassily Kandinsky — sim, aquele pintor abstrato e também professor da Bauhaus — que introduziu nas escolas muito do Suprematismo e principalmente Construtivismo no que tange ao design gráfico moderno em campanhas políticas da época etc. Ao contrário do que muitos pensam a Vkhutemas atingiu uma variedade de oficinas muito maior que a alemã Bauhaus. Falaremos dessa fulana agora…

BAUHAUS
Em 1919 Walter Gropius assume a direção da Escola de Artes Aplicadas de Weimar, Alemanha. Na tentativa de unir as artes aplicadas e artesanais com as consideradas de nível superior (belas artes), Gropius realizou uma fusão das Escolas de Artes e Ofícios com a Escola de Belas Artes de Weimar fundando a famosa Bauhaus, ou melhor, Staatliches-Bauhaus, considerada a primeira escola de design no mundo e que defendia a arte combinada à técnica. Tinha proposta e método de ensino revolucionários pra época e no corpo docente trazia nomes como Paul Klee , Lázló Moholy-Nagy, Josef Albers, Kandinsky entre outros. A Bauhaus passou por diversas fases e até mesmo locais diferentes antes de fechar as portas em 1933 pelo regime nazista, que considerava o modernismo ‘coisa de comunista’, fazendo ainda com que Gropius deixasse o país (anos mais tarde mudou para os EUA onde lecionou arquitetura em Harvard).
 
Resumidamente, a Bauhaus ditou tendência, criou fundamentos e trouxe ao mundo um conceito educacional chamado desenho industrial (esse termo meio quadrado já não é muito utilizado) que deu vida a muitos dos artefatos que utilizamos ainda hoje, além de, claro, ser responsável pela consagração do design gráfico como item fundamental na comunicação, imprensa etc. Enfim, um grande legado que também direcionou, anos depois, a criação da escola Hochschule für Gestaltung na cidade alemã de Ulm. A escola Hochschule (eita nomes difíceis!) foi fundada em 1953 pela escritora alemã Inge Scholl e teve como reitor um artista fodástico (e ex-aluno Bauhaus) chamado Max Bill. A Hfg–Ulm promovia os princípios bauhausianos e inspirada por conceitos educacionais, pedagógicos e políticos buscaria uma inovação em design a termos mundiais.
 
Um cara que teve o privilégio de estudar na Escola de Ulm e ser pupilo do concretista Max Bill foi o designer gráfico brasileiroAlexandre Wollner (já citado no início do post). Wollner é forte defensor do movimento artístico Concretismo e de seu criador que inspirou o perfil assumido pela primeira escola de nível superior em design do Brasil (ESDI no Rio de Janeiro). Como artista renomado e pioneiro no design gráfico do país Wollner realizou trabalhos que mudaram a história da indústria nacional principalmente no que diz respeito à identidades visuais memoráveis. Bom… mas isso é assunto pra outro dia… Temos muito ainda o que falar desse senhor.

CONCLUINDO

O design sempre esteve presente, no meu ponto de vista, mas só ganhou essa nomenclatura e reconhecimento a partir de avanços e movimentos na era modernista que elevaram o artista tirando-o do anonimato e unificando sua criação ao desenvolvimento industrial. As escolas de arte aplicada e pioneiras no design, principalmente Bauhaus traduziram a importância do design no mundo moderno e ditaram princípios importantes que ainda refletem na arte e comunicação atual.
 
Vou fechar esse textão com uma bela e profunda frase sobre o design (da época em que tecnicamente ele ainda não existia) e sua missão na terra:

“Pode algo ser belo para qualquer outro propósito a não ser aquele para o qual é belo que seja usado?”

(Sócrates — 400 a.C.)