Promessas vazias, certezas absolutas.

Me lembro que quando era criança, volta e meia eu fazia alguma traquinagem: quebrava alguma coisa em casa e escondia, desmontava objetos sem saber montar de volta, saía sem pedir permissão e deixava todo mundo louco com meu sumiço. Me lembro também que minha mãe sempre prometia me dar uma coça, mas independente de quantas cagadas eu fizesse, ela nunca cumpria a promessa. O bordão era sempre o mesmo: se eu te pegar, você vai ver... Diferente da minha mãe, meu pai quase nunca dava avisos, era fazer arte e dormir com o couro quente.

Com o passar do tempo aprendi que minha mãe nunca iria além das ameaças, e por isso mesmo eu não tinha qualquer receio em agir de forma tão desobediente. Eu sabia que as palavras dela não passavam de uma tentativa de me intimidar, mas era uma tentativa fracassada, já que eu sabia que não passaria disso. Pior. Além de não ser intimidado, ficava cada vez mais certo de que nunca seria punido. Novamente, na relação com meu pai, bastava eu imaginar que ele me puniria e já pensava duas, três vezes, antes de pisar fora da faixa.

Descobri tudo isso de forma totalmente inconsciente. Nunca parei para fazer qualquer análise ou questionamento sobre como eu agia em relação a cada um dos meus pais, ou porque agia assim. Mas eu sabia que as coisas eram assim.

Hoje, refletindo sobre o passado, consigo perceber essas situações e busco tentar entender porque isso acontecia comigo e com eles. Mas principalmente, qual seria o resultado da condescendência materna na minha formação como indivíduo? Como eu seria como ser humano se tivesse como um dos traços da personalidade a certeza de que as transgressões, grandes e pequenas, não possuíam consequência alguma? Ou que responsabilidade é só uma palavra aparentemente importante, mas que na realidade não tem nenhuma serventia? Como seria se eu me desenvolvesse com a ideia de que deveria sempre ser obediente às figuras de poder, como era a figura do meu pai?

São perguntas que busco imaginariamente responder a mim mesmo, sempre com o máximo de lucidez e honestidade. Tento não permitir que meu cérebro me engane, direcionando a resposta de forma a concluir aquilo que seja mais agradável ao meu ego. E enquanto busco essas respostas pra mim, vejo nas pessoas ao meu redor, às vezes, a mesma situação acontecendo: A namorada que promete ao namorado que na próxima vez em que ele a trair terminará tudo. A esposa que promete ao marido que na próxima vez em que ele a agredir o denunciará à polícia. O funcionário que promete aos colegas que na próxima vez em que for humilhado pelo seu patrão, irá entrar com um processo contra ele, entre outros exemplos que me fazem tentar entender o que está por trás desse padrão de comportamento. Qual é o sentimento não revelado que faz com que todas estas pessoas não realizem aquilo que prometem, mesmo quando o mais racional seria justamente cumprir o prometido?

Independente da resposta a todas estas perguntas, aquilo que inconscientemente descobri quando ainda era criança, também é descoberto hoje pelo namorado que trai, pelo marido que agride e pelo patrão que humilha: as promessas não passam de uma tentativa fracassada de intimidar, as quais além de não intimidar, fazem aumentar a certeza de que a separação, a denúncia e o processo nunca sairão do plano das palavras vazias.