Contos Marginais (1/…)

Minha noite estava uma merda, rolava de um lado para o outro procurando uma posição confortável para dormir, quase não pregara os olhos e o relógio marcava cinco da manhã, eu ainda tentei finalizar alguns desenhos e teria sido fácil se a porra do meu vizinho, um filho da puta fodido do caralho, não enchesse o rabo de cana ouvindo technobrega desde às quatro da tarde. Logo mais, no trabalho, ia ser aquele lenga lenga da porra que vocês sabem: meu supervisor, um otário que apanhou dos pais até fugir de casa e cresceu revoltado, acreditando que todo mundo era responsável por seus traumas, culpando Deus e o mundo pelas coisas que sofreu quando criança, voltava das férias pior que antes, não que meu problema com ele fosse esse, mas acho que bateram forte demais na cabeça do miserável; o cara só poderia ser o filho da puta que serve o banquete toda manhã, enquanto Tântalo urra de fome, e ainda disse que só era permitido ligar o ar-condicionado depois das nove, "uma porra!", pensei. Vive procurando alguma miudeza para torrar o nosso saco, juro que algum dia chuto aquela mesa e mando ele se foder, mas por enquanto não, não enquanto o salário estivesse em dia e as contas, atrasadas.
Quase sete, quando saltei da cama como um macaco, um macaco velho, claro. Vocês sabem por quê os pobres têm tanta disposição para enfrentar a vida? Instinto, você diz? Talvez. Mas o motivo real é aquela ducha fria logo cedo, seja inverno ou verão, aquele jato corta até a alma de qualquer infeliz, bate frio na cabeça como um coice bem na nuca. É preciso respeitar essa gente, mais, é preciso aprender com eles. Só um fodido para entender outro fodido, e eu? Eu era um deles, se era, mas ainda compro um chuveiro elétrico algum dia.

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