AFÉ OKAN (a fé do coração/querer de coração) — George

George Nascimento
Sep 9, 2018 · 3 min read

‘Afé Okan’ é meu primeiro single de estúdio gravado com mix/master do John Augustus e videoclipe no Estúdio Vertical/Morro da Babilônia com produção visual da Gabriela Perez.

É um trabalho construído durante um ano que marca um novo momento artisticamente pra mim por estar ligando mais o tema de cultura negra com a fé e a religião, no caso o candomblé. Afé Okan representa a junção dos meus trabalhos visuais, como pintura e fotografia, com o musical.

A pintura do início “Ciclo do Vício” tem como referencia a capa do álbum “Coletânea 1996”- Racionais Mc’s e a música (trapfunk) fala de um tema presente nas letras dos mesmo grupo que é chamado de ‘ciclo vicioso’, uma sucessão de causas e consequências que sempre resultam numa situação que parece sem saída e sempre desfavorável, seja o relacionamento abusivo, o preconceito, o desamor e princpalmente o crime, o que faz alguém escolher ser traficante por exemplo; essa relação envolve todo o tipo de problema, inclusive os que um jovem negro como eu enfrenta no RJ.

A lírica é um relato de como a desigualdade influencia o ciclo vicioso, a parte do trap retrata a história de um menino negro de periferia que desejava ser poeta em Ipanema, porém no caminho do ônibus 474 até a praia na Zona Sul e a volta de trem para casa ele é visto e taxado como marginal e errado por estar vivendo sua cultura. Depois desse dia ele se vê numa noite agitada em um baile funk e repensa as próprias escolhas e papel social. A frase que mais sintetiza a ideia da música é “Meus antepassados vieram de mão vazia para esse continente / Essa cultura não veio na bagagem / Eu carrego no peito essa gente” por que no processo de escravidão nas Américas os africanos e povos nativos escravizados perderam seus bens materiais e culturais. A cultura afro que é presente na brasileira veio por meio de música, conhecimento e pelo próprio DNA; É importante mostrar para o jovem negro que a essência que ele(a) mesmo reproduz vem de algo ancestral.

A música ao mesmo tempo é um reflexo do que eu vejo nas ruas da cidade: fé de coração, a fé na melhoria, pessoas querendo o mundo, querendo dinheiro ou afeto e desejando o melhor pra si e para os outros da área. Querer de coração foi o que me fez pensar diferente e querer mudar alguma coisa por meio da música.

E por falar em exemplo, os artistas que me inspiraram também passam essa ideia e me ajudaram de carta forma a escrever e pensar o clipe. Eles são em maioria rappers negros que se destacaram em um cenário desfavorável e pobre com músicas que são carregadas de fé. Quero, antes de agradecer aos amigos que fizeram parte do processo, agradecer do fundo do coração ao ‘manicongo’ Rincon Sapiência autor de “Ponta de Lança”, Emicida que me inspirou para letra com o álbum “O Glorioso retorno de quem nunca esteve aqui” (2014), Edi Rock, Mano Brown com “Boogie Naipe”(1997), BK com o single recente “Correria” que foi trilha sonora disso tudo, Djonga por ter me incentivado a queimar racistas em todos sentidos possíveis, DK e Lord (Além Da Loucura) por terem feito o projeto “Favela Vive 3” em especial que serviu de referencia pra mim e pra fazer uma música de “mensagem” com muitos minutos e sem refrão.

E também agradecer de verdade à galera mais nova que tem feito a cultura resistir na rua com todos os obstáculos que aparecem aí Camila Cattoi, Tom Camelo, Waelier, Victor Moura, Marcos Caetano, Eric, Ronald, Galera da FZB e da Ta Classi

E por ultimo e principalmente às duas mulheres que são responsáveis por isso tudo Eliete e Luciana.

Axé!

    George Nascimento

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