O rapper branco quer questionar tudo, menos o privilegio branco — George

George Nascimento
Sep 3, 2018 · 5 min read
Rapper americano Eminem

A cultura do rap tem se desvirtuado dos princípios de maneira geral, mesmo que os tempos tenham mudado os artistas continuam tendo comportamentos destrutivos e de péssimo exemplo para os fãs. Dentro desse problema ainda existe o fator racial: os rappers brancos tem mais licença para errar, ou seja, seus erros são mais aceitáveis do que os erros dos negros. O racismo é tão institucionalizado que a cultura do rap ainda não conseguiu se afastar disso.

“Cale a boca, vadia, você está causando muito caos / Apenas se incline e aguente como uma vadia, ok mãe? ‘Oh, agora está estuprando sua própria mãe, abusando de uma vadia / cheirando cocaína, e nós o demos uma capa na Rolling Stone?’ / Você está certa / Vadia, e agora é tarde demais.” Esse é o verso do rapper Eminem, que chegou no top 20 do spotify hoje, em “Kill You”; então vamos lá.

Hoje li um tweet que dizia “@Eminem provou ser o rapper branco mais negro da cena com o lançamento de “Kamikaze” e @kanyewest provou ser o rapper negro mais branco da cena com o lançamento de “ye””. [risos] Simplesmente, um garoto branco que se identifica como fã de rap comparando dois rappers diferentes por meio de temas diferentes. Não vamos esquecer também que Kanye West recentemente tem feito declarações péssimas e mal intencionadas e seu último album, o citado “ye”, reflete seu pensamento único e tendencioso, porém, por mais que Kanye tenha suas opiniões descabidas, seus erros mal se comparam com os erros do rapper (branco) Marshall Mathers “Eminem” que já foi acusado de agressão doméstica, homofobia e de tratar mulheres das piores formas na sua lírica. Kanye West (em Father Stretch My Hands pt. 1, por exemplo) diz muita coisa ruim de se ler em alguns pontos sim, mas ele não tem o histórico que Eminem já carrega. A diferença é que Eminem é ainda visto como um ídolo (que chega no top do Spotify, como vemos) enquanto Kanye mesmo que sendo um ídolo carrega o peso e estereótipo de maluco excêntrico.

Essa situação se aplica em diversos casos. Um dos melhores exemplos é o Jay Z, um dos maiores rappers de todos os tempos e um dos mais influentes (e quando digo influente digo não só na música e sim na cultura) que muitas vezes é reduzido a um papel de homem negro mafioso ou coadjuvante, sempre pejorativo. Então, há um tempo o mundo tinha virado as lentes para o caso enroladíssimo sobre a traição do rapper com a sua mulher Beyoncé, que de fato aconteceu, e virou um problema para ele que se estende até hoje. Ele errou feio e de certa forma o caso serviu de exemplo pra muitos homens que viam a traição com mais naturalidade, mas o que me incomoda é como esse caso é recorrente com rappers brancos e a mídia não foca nos casos. Jay Z é um “homem negro feio” para a mídia, seu rosto com traços fortes e sua característica boca grande não são aceitos pela indústria então é muito fácil mirar o alvo e chamá-lo de vilão. Nunca que o famoso Michael B. Jordan, estereótipo do negro dos sonhos, seria tratado da mesma forma se tivesse traído alguém. Esses julgamentos, principalmente os virtuais e populares, levam em conta vários fatores e todos esses fatores tem influencia de algum preconceito. E o pior: o rapper branco nunca se sente na necessidade de tocar nesse ponto.

Abebe Bikila “BK”

Aqui no Brasil é a mesma coisa. O rapper BK (negro), por exemplo, é um dos melhores da cena atual e vive recebendo críticas sobre postura e relação da lírica com a realidade social; que eu mesmo ouço todos os dias enquanto a cena está cheia de casos de abuso sexual, de poder e etc. Outro bom exemplo é o “Caso Nog”, o integrante do grupo Costa Gold, branco por sinal, que abertamente disse “ Agora olha só como eu virei perigoso […] Deixa ela dormir que se ela vira eu como / Boto o cano na goela e atiro o gozo.” e logo depois fez um vídeo se explicando com o famoso “eu entendo vocês não terem compreendido o que eu quis dizer” e a cena simplesmente o abraçou ou passou aquele pano de leve com o papo de que “ah tem tanta coisa errada né, isso nem é relevante”. Exatamente como o caso Biel, que ironicamente está pra lançar um álbum de rap/trap.

Com isso tudo ainda existe o fator mais decisivo na hora da fama e dinheiro: o contratante. Hoje em dia não se vende mais CD físico pra se sustentar, a mídia do artista depende da internet diretamente. Entretanto, é interessante ver como existe um abismo de diferença aqui no Brasil entre as oportunidades de patrocínios, produções e mídia entre o rapper negro e o branco. O empresário que precisa contratar a atração do show, evento ou festival direcionado para certo público tem tendencia a priorizar o grupo branco, todos degraus do sistema são feitos para dificultar a chegada do artista negro no topo. Um dos momentos mais marcantes foi o problema entre o rapper Raffa Moreira X Pedro Qualy Haikaiss (ver aqui: https://g1.globo.com/musica/lollapalooza/2017/noticia/haikaiss-quarteto-de-rappers-brancos-do-lolla-e-alvo-de-critica-porta-para-fim-de-negros-no-rap.ghtml) que mostra como o racismo no Brasil está ainda manchando o rap porque quando o rap vira comercial o meio é elitizado e branco e tende a excluir o negro.

Raffa Moreira

Entre outros casos, é muito raro hoje você ver o rapper branco citando nas letras esses privilégios com os quais ele já nasceu. Pelo contrário, é mais fácil você ouvir “Rap é pra branco e pra preto / Todo preço já foi pago, eu não preciso dá um jeito” como disse a “rapper” NaBrisa depois de passar um tempo nessa brisa que é o rap elitizado das casas de show das grandes metrópoles. É um sistema alimentado pelo privilégio.

Exigir essa consciência do artista é quase utópico, até a autocrítica tem limites para eles. A essência da cultura do Hip Hop original é exatamente a crítica aos conceitos pré estabelecidos e uns escolhem criticar só o que lhes é importante.

Enfim, o rapper branco (cultura, não só uma pessoa) sempre se bota no papel de que entende a cena e respeita a cultura, mas não se propõe a mudar o sistema que traz o privilégio. Ser artista é difícil, ser negro é difícil, quando você é negro e artista existem muitas dificuldades que te impedem de seguir carreira. Torço eu pra que em algum momento todos vejam esses dados e casos e reflitam como é negativo esse impacto na nossa cultura. Como existe esse degrau do privilégio. É mais do que na hora da cultura se reinventar.

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