SWFW Entrevista — Juliana Martins
“Quando a sociedade me aceita como mulher ela precisa aceitar que também sou mãe. Quando a iniciativa que se diz plural faz qualquer movimento que exclua parte de mim ela não me vê como mulher, mas como recurso produtivo do gênero feminino. É inclusão de diversidade que vcs querem? Tem no #SWFintechWomen.”
Tentamos começar essa entrevista com uma introdução diferente, mas não teve como. Esse parágrafo acima é uma fala pra lá de sincera da Juliana Martins, uma das mentoras dessa experiência indescritível que foi a primeira edição de um Startup Weekend Fintech Women do mundo.
Esposa, negra, periférica, profissional de tecnologia, head de projetos, coach, entusiasta por agilidade e mulher. Esses adjetivos e descritivos foram citados por ela quando perguntamos quem era Juliana Martins.
E ela é mais. Muito mais do que isso.
By the way, que mulher. Ju é mãe do Miguelzinho, de 4 anos, uma das crianças que encheu de luz a FLAGCX durante o evento. Ele corria pra lá e pra cá, foi mimado por toda a galera, e se você quiser conhecê-lo, na nossa página do Facebook e aqui: https://www.instagram.com/p/Bm7PaJ4HXeN/?hl=pt-br&taken-by=swfintechsp tem ele, pitico de tudo, falando com firmeza que estava no Fintech quando perguntamos pra ele onde ele estava naquele final de semana. Dá vontade de morder, já vamos antecipando.
Fofuras à parte, a Ju nos deu uma lição de vida no SWFW. Nossa Content Manager, Georgia Novaes, escreveu um texto sobre maternidade lá dentro, e quando leu o conteúdo pra Juliana, ela chorou.
Sim, derrubou lágrimas de emoção porque se sentiu representada e respeitada, acima de tudo.
Se quiser conferir, segue o link: https://bit.ly/2O3gmpD.
Sem papas na língua, sejamos sinceras: mães têm muita dificuldade de se posicionar e reposicionar no mercado de trabalho. É silencioso, mas nas entrelinhas, uma entrevista de emprego com uma mãe e uma mulher solteira tem grandes diferenças, por exemplo. Pela legislação da maior parte dos países, inclusive aqui no Brasil, seria proibido perguntar sobre os planos para engravidar numa entrevista de emprego, já que isso é discriminatório. Mas sabemos que não é bem assim.
Esse é SÓ um exemplo. São diversas barreiras que uma mulher mãe enfrenta diariamente, não só no âmbito profissional. Existem pesquisas mil que comprovam a realidade do fato, e é triste de ler.
Uma delas, realizada pela Catho em maio de 2017 com 13.161 pessoas mostra que após a chegada dos filhos, as mulheres deixam o mercado de trabalho cinco vezes mais que os homens.
Em uma entrevista para o portal R7, Danieli Junco, CEO de uma das nossas maravilhosas apoiadoras, a B2 Mammy, explica que a maternidade dentro do mercado de trabalho ainda é um tema complexo. “A falta de uma rede de apoio para o cuidado dos filhos, os RHs das empresas que podem achar que a mulher sempre focará mais na família ou a opção da própria mulher de não querer voltar para uma rotina pouco flexível” são alguns dos motivos que a Danieli mencionou como variáveis correlacionadas à perda de emprego das mães no mercado de trabalho.
Em março de 2018 o Correio Braziliense publicou em seu portal um conteúdo bem denso sobre maternidade e trabalho, com vários relatos difíceis de engolir (confira aqui: https://bit.ly/2Qhh2ZZ). Nele, o veículo cita alguns estudos relacionados ao assunto, e um deles, realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) abordou uma amostra significativa de 247 mil mulheres de 25 a 35 anos. Dentre os resultados, metade das mulheres que se tornaram mães perdeu o emprego até dois anos depois da licença-maternidade. O Brasil tem 12,7 milhões de desempregados (março 2018) e segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) , de acordo com levantamento da SPC Brasil, a maior parte das pessoas nessa situação são mulheres com média de 35 anos (59%) e com filhos (58%).
Aff… no coments, certo? Contextualizadxs, voltemos à Ju. Nossa mulher desse presente relato cuida do Miguel e faz outras milhares de coisas. Assim como toda mulher, como toda mãe, e por aí vai. Foi bem difícil conseguir um horário lá no SWFW para puxar ela para uma entrevista, então demos um jeito.
Foi pelo WhatsApp mesmo. Quando pedimos à ela para nos enviar um áudio contando dessa experiência toda, a Ju só pediu um tempinho porque era a hora do almoço do Miguel. Prioridades, né :)
Passou o almoço, Miguelito papou, e um áudio de 3:21 min dedicado à nós nos deixou muito felizes e com a sensação de missão cumprida quanto à equidade de gêneros, representatividade e diversidade que conseguimos fazer brotar e florescer no SWFW.
Leia aqui abaixo o desabafo lindo e esclarecedor da Juliana Martins sobre o que ela e o Miguel viveram nessa maratona de 54 horas.
“Ontem eu fui te agradecer porque as pessoas não se movimentam efetivamente para dar oportunidade. A gente vive num país assistencialista onde as pessoas ficam contentes em fazer doações, mas elas não se preocupam muito se essas doações realmente estão fazendo as pessoas chegarem à algum lugar. Tipo, “ah, eu fiz a minha parte porque eu doei”.
Vocês poderiam ter pegado uma parte da grana do evento e doado para uma instituição de caridade por exemplo, mas isso não daria o mesmo efeito do que permitir que mulheres estivessem nesse evento.
Até sobre isso de ~mulheres~ que eu fico preocupada.
As pessoas promovem muitas coisas, iniciativas e eventos com esse título, em plural, e não respeitam a pluralidade do negócio. Elas não aceitam que existem mulheres que são pobres, existem mulheres que são mães, existem mulheres que são de tecnologia, existem mulheres que são de outros segmentos, e as vezes eu olho alguns eventos falando de mulheres e eu me pergunto: que mulheres são essas? Que plural é esse, aonde eu não me vejo representada, por exemplo.
São mulheres com um bom cargo, com um posicionamento legal na sociedade, e eu chego a me indagar se eu sou menos mulher. Isso é inconcebível. Mas eu não to ali. E eu agradeço esse Startup Weekend Fintech Women justamente por vocês terem aberto esse espaço e gerado oportunidade.
Quando eu vi seu texto sobre o Miguelito (aquele ali do link acima) eu fiquei muito feliz. Ontem a Ceci (a linda da Cecília Araújo, Head de Inovação do BS2, nosso inestimável patrocinador) estava conversando comigo e eu disse que estava muito enrolada para conseguir ver tudo, sabe? Eu precisava ficar com o Miguel, meu marido também não iria conseguir ficar com ele porque tinha outro evento para ir, e ela falou: “Não Ju, traz ele, eu ajudo, a gente ajuda e ele é muito bem vindo, isso é o que também te faz mulher.”
Eu já tinha ficado mega feliz com o discurso dela. O único lugar que eu fui ao qual o Miguel foi aceito foi o Encontro de CNV na Casa do Povo. Ou seja, ele tem 4 anos, e o único lugar que ele foi convidado para ir que não fosse festa infantil foi um evento que falava de comunicação não violenta.
Mas eu não sou só isso. Eu também faço práticas de comunicação não violenta, mas eu também sou de tecnologia. Tem muito evento que instiga a maior participação de mulheres na área de tecnologia. Mas que mulheres? Só as que não têm filhos? É triste, mas a representatividade ainda é muito enviesada.
O que me deixa muito feliz é que ali dentro não foi só a Ceci que pensava dessa forma, nem só você que escreveu o texto. São mais pessoas. Todo mundo estava com a mesma energia. Você traduziu de maneira linda em palavras aquilo tudo, e me incluiu. Eu me senti acolhida. Eu senti naquele texto e naquele ambiente todo que meu filho não tava sendo bem vindo só porque alguém se disponibilizou a cuidar dele para que eu pudesse participar. Ele foi bem vindo ali nos olhos das pessoas que organizaram. Ele foi bem vindo nos olhos de todas as pessoas que estavam participando do evento.
E eu acho isso muito bonito. Poxa, pensa… Em 4 anos. Pensa se ele fosse um adulto já, sabe? Essa não é a realidade, não é a minha realidade. Ele é uma criança, é meu filho, e eu quero ele próximo a mim em tudo que me inclua. É uma exclusão silenciosa que está totalmente desconectada com o que eu acredito.
Essa foi a segunda vez que ele recebeu um convite. Em 4 anos. Tirar isso de mim, tirar a questão da maternidade é me tornar menos mulher, porque o que me faz mulher é tudo, é essa soma do que eu sou, inclusive mãe.”
Sem mais. Obrigada Ju, obrigada Miguel, e obrigada mundo. A gente tá fazendo a nossa parte para fortalecer a inclusão, e esse relato da Ju só nos dá a certeza de que estamos no caminho certo.
Um abraço carinhoso,
Georgia Novaes — Content Manager SWFW
