A sexualidade reprimida e as marcas deixadas em mim

FONTE: http://psicanaliseeamor.com.br/os-sentimentos-reprimidos-da-crianca-na-fase-adulta/

Hoje li um texto intitulado “Esconder minha sexualidade quando criança me tortura até hoje”¹ de autoria de Gael Rodrigues que me fez, de várias formas, me identificar e me inspirou a escrever este texto. Percebi como eu me construí à base do medo de reconhecerem o meu eu interior, de como todos meus aspectos positivos e negativos foram construídos ou incubados — perdão o uso desta palavra caso remeta ao sentido pejorativo usado pelos homofóbicos — por conta do medo de que descobrissem minha verdadeira identidade e que, por isso, eu fosse julgado.

Percebo hoje como minha forma de trabalhar, meus esforços em buscar a perfeição e evolução emocional e profissional estão relacionados ao meu intento de superação, de me estabelecer acima de todos aqueles que me julgaram inferior por minhas características ditas “homossexuais” como forma pejorativa — novamente. Busquei sempre superar aqueles que sempre me julgaram. Vejo também a relação estabelecida entre o caminho certo — heterossexualidade normativa — e o errado — homossexualidade na forma
mais repulsiva a ser adotada pela sociedade — criados por mim na infância e adolescência. Claro que hoje vejo isto de forma diferenciada graças à minha desconstrução e posterior ou comitantemente aceitação.
Assim, apresento este texto — simplório e, provavelmente, mal escrito devido ao horário (05:45hrs da manhã) e por minha falta de prática na escrita e desleixo quanto ao ensino de gramática durante toda minha formação — que, provavelmente será o primeiro de muito que tenho o intento de escrever para que eu me entenda melhor.

I — Infância e adolescência, parâmetros ditos masculinos e femininos e sexualidade

Desde pequeno, seja lá de qual idade estou falando, visto que não me recordo de datas especificas, fui criado em uma família tradicional, embora esta tivesse seus desvios quanto à definição de família perfeita. Dos lados tradicionais tive: mãe “do lar”, que exercia tarefas domésticas e tinha toda responsabilidade em cuidar da casa, marido e dos filhos (disciplina e educação); pai trabalhador que tinha como responsabilidade estabelecida em um contrato dos dois enquanto casal cuidar das finanças da casa e “botar” medo nos filhos quando necessário (tarefa esta não tão bem exercida, o que falarei um dia); dois filhos homens, com pouca diferença de idade, mas neste ponto começam os desvios da tradicionalidade e, o ponto que mais desviava das famílias tradicionais às quais eu tinha contato era justamente eu.

Mas não era só eu que mantinha essa distinção. Analisando os integrantes veremos novos aspectos: começando na família ao todo, meu núcleo familiar já sofria grande distinção dos outros núcleos da minha família materna por condições financeiras (nós eramos um dos, senão os, mais pobres) o que já nos excluía em grande parte das confraternizações; minha mãe se tornava peça de exclusão no ambiente familiar materno e paterno por seu gênio forte o que a fazia brigar com vários parentes; meu pai é alcoólatra, o que o tornava um incômodo nas reuniões familiares; eu me apresentava, então, como o maior problema para nossa integração nos ambientes familiares e de círculos de amizade da família, a criança com problemas em controlar suas emoções ou, ainda e principalmente, o menino que não tinha educação, o louco. Já em relação à como eu me portava acerca dos ideais postos pela sociedade como definidores de gêneros binários, não consigo me lembrar ou talvez eu realmente não apresentasse distinções — o que eu acredito mais devido às minhas lembranças — que fizessem que eu fosse julgado na época. Porém, meu irmão era o ideal de perfeição, era visto como a joia rara em meio a tantos objetos quebrados e defeituosos que eram o restante da família. Meu irmão era a criança bonita, educada, com um futuro brilhante, a salvação e redenção ou aquele que todos queriam pra si, pra salvá-lo do estrago que seria viver naquela família e ao mesmo tempo agregar ao seu próprio núcleo familiar como um objeto a ser exposto.

Mais tarde eu passaria por terapias diversas para que me “curassem” de todo aquele infortúnio que eu era capaz de causar na escola e nos ambientes sociais diversos. Não sei o que ocorreu ao certo, mas em pouco tempo eu mudei. Não era mais a criança problemática que deveria ser erradicada, isolado do ambiente de crianças corretas e intocáveis que não podiam ser contaminadas pelo que eu era. Tornei-me aquela criança introspectiva — que reside em mim até hoje -, tímida e frágil. Acredito que neste ponto em especial eu tenha me tornado a famigerada “criança viada” — perdão novamente o uso da palavra, mas era o que eu sempre ouvia. Misto de orgulho e desgosto. Orgulho pois agora eu era, finalmente, estudioso, esforçado e educado (pelo menos quando eu não fingia). Desgosto pois eu era demasiadamente afeminado. Foi aí que 
comecei a me misturar com as meninas do colégio, a tecer amizades femininas no lugar das masculinas. Elas entendiam minha fragilidade e eram espelho para eu me tornar cada vez mais o que sempre me pediram: educado e dedicado.

Vendo hoje tenho certas dúvidas em relação aos meus aspectos afeminados. Lembro de ter uma amizade única na pré-escola que era feminina, embora a garota em questão também fosse minha “namoradinha”, ou pelo menos era em minha cabeça. No período da primeira à quarta série também tive duas amigas, embora tenha me “relacionado” com ambas. Na quarta série do Ensino Fundamental finalmente tive minha transição que acentuou - ou talvez tenha feito eu perceber claramente o preconceito que antes não existia entre meus colegas até então inocentes - minhas características ditas afeminadas.

Voltando à questão familiar, percebia então, desde criança, que o ideal a ser seguido era a imagem que meu irmão transparecia. Ao mesmo tempo que essa busca me foi nociva ela também fez-me aumentar o afeto por meu irmão enquanto eu admirava-o. Ele foi estabelecido como imagem de sucesso e de padrão heterossexual e de beleza para mim. Infelizmente sua conduta perante à minha aproximação e sua vergonha por ter um irmão que o envergonhasse, faria que mais tarde eu criasse uma rivalidade com ele, e em vez de buscar me aproximar do que ele era eu pretendia me tornar mais do que ele, superá-lo.

Tentava e falhava sempre, eu sempre era menos do que ele e percebi que a única forma de superá-lo era trilhando outro caminho. Ali foi se desconstruindo todo uma imagem dele como ideal. Percebi que todos não viam o que eu via: ele era um fracassado (hoje não vejo desta forma), ou pelo menos foi se tornando um ao longo do tempo — fracassado pelo menos perante padrões da sociedade, mas também pelos meus ideais éticos e pelos
meus valores. Então ele era o padrão social visto como perfeito, mas escondia suas imperfeições. Eu era o padrão social visto como imperfeito, mas ninguém enxergava ou valorizava minhas perfeições. O único caminho possível era me provar superior pelo sucesso. Antes eu tinha uma ideia de que meu irmão era inteligente e esperto, mas com seu amadurecimento ele talvez tenha perdido isto graças, principalmente, às suas amizades que o influenciavam a largar todo seu caminho intelectual traçado anteriormente. Minha mãe também reforçava em minhas crises existenciais que, diferente do meu irmão que possuía a beleza como “dom”, eu possuía a inteligência. Tudo isso me fez fortalecer a ideia de que a única forma de superação ao meu irmão era através do reconhecimento intelectual.

Assim, tracei todos os caminhos que meu irmão falhou e tentei ter sucesso neles. A maioria eu realmente obtive sucesso: obter boas notas e ter tido apenas duas recuperações durante o Ensino Fundamental e Médio juntos; ingressar em um Instituto Federal; passar minha adolescência e superá-la com dificuldades financeiras, sem privilégios, diferente dele; passar em uma faculdade; estudar fora, etc. Conquistas estas que meu irmão não obteve. Para ele foi tudo mais fácil e, mesmo assim, ele dispensou todas as chances. Mais do que isso, ele ainda fez escolhas na sua vida emocional que tornaram sua vida profissional mais difícil. Mas em algo eu não conseguia, de forma alguma, superá-lo: me tornar mais belo, mais “hetero” e conseguir um relacionamento heterossexual (conquista esta que alcancei, embora não com objetivo de superá-lo em mente, mas sim ocasionalmente e, realço
aqui, que nunca exibi tal relacionamento como um troféu).

Desta forma, todos esses medos e objetivos me fizeram regredir em vários aspectos da minha forma de me portar perante a sociedade. Me esconder enquanto minha sexualidade, quanto a gostos, quanto a formas de agir, etc me fizeram cada vez mais preso dentro de mim, fazendo com que eu nunca alcançasse meu total potencial. A sexualidade e sua repressão foi mais do que uma simples questão de preferência sexual, mas também foi, para mim, um atraso das minhas faculdades mentais e de desenvolvimento racional e emocional.

Mas com toda sinceridade deixo aqui meu registro, antes de prosseguir, que hoje tenho uma visão diferente do meu irmão. Ele com certeza poderia ter tido um futuro melhor do que ele tem hoje mas em conversas que tive com ele percebi que ele está feliz com o que ele tem, pelo menos foi o que ele me disse. E, diferente do que comumente as pessoas pensam, a felicidade não reside em viver uma vida de alto nível, com a profissão dos sonhos, vivendo uma vida de patrão.

Quero destacar, assim, que não vejo meu irmão como um grande vilão, muito menos meus pais como grandes empecilhos e vergonhas para mim. Os verdadeiros vilões estão lá fora. São meus tios e primos- não todos - que sempre nos viram como defeituosos, foram os amigos do meu irmão que o fizeram ter uma visão inferior de mim e que o fez ter vergonha de quem
eu era, foram aqueles que estudaram comigo e aqueles que me deram aula e que fizeram eu temer cada vez mais quem eu era.

Toda essa confusão entre ser alguém superior intelectualmente e, depois, ser algo másculo - ideal esse oposto à característica intelectual da imagem feminina - me fizeram entrar em profunda confusão. Afinal, era
pra eu ser alguém dentro dos padrões femininos ou masculino? Existiria um meio termo? Acredito que era esse meio termo que as pessoas buscavam, mas eles não entendiam que não era possível a coexistência de ambos perante os ideias da sociedade preconceituosa. Mas o pior erro de todos era saber que existia sim este meio termo e ele não era necessário só porque eu sou um homem cis. Eles não entendiam que estava tudo bem um homem ser afeminado. Não entendem até hoje.

Dito isso, a minha sexualidade reprimida, então, me tornou algo menor do que eu teria o potencial de ser por muito tempo. Hoje sinto que a cada dia estou me aproximando do meu máximo, embora eu saiba que este seja inalcançável ou pelo menos que perdure por toda minha vida tal trajeto. Não me culpo mais pelo que aconteceu, não culpo minha família pelo que aconteceu - contanto que eles estejam dispostos a aceitarem quem eu sou, caso contrário é impossível, embora seja apenas emocional e 
não racional o sentimento de querer culpá-los. Culpo a sociedade e o que ela fez comigo. Em como ela me transformou por tanto tempo. Sinto que vários aspectos da minha personalidade foram jogados por terra e que talvez eu não os recupere jamais.

Sei também que minha família não é de toda ausenta da culpa do que me ocorreu, sei que embora meus pais possuam uma carga de vivência pré existente ao meu nascimento, eles poderiam, ainda assim, ter negado todo o preconceito e me apoiado a ser quem eu era por puro amor incondicional. Mas escolhas foram feitas mesmo que inconscientemente e não guardo rancor. Mantenho o orgulho de eles terem me respeitado - excetuando casos de que isso não ocorreu e que deixaram feridas, ainda que tenham sido relevadas ao máximo - e tentarem me entender aos poucos, ainda que eu force que isso ocorra. Mantenho também a esperança de um dia eles me entenderem enquanto minha bissexualidade e meu modo de ser e de respeitarem e me amarem sendo do jeito que sou. Esperança de que eles me amem sem ressalva, sem pensar “amo ele, mas poderia ser mais fácil de conviver se ele não fosse assim”. Enfim… guardo apenas energias positivas para que um dia possamos, mesmo com meus pais separados, dizer que superamos aqueles que disseram que éramos os fracassados.


¹ RODRIGUES, Gael. Esconder minha sexualidade quando criança me tortura até hoje. 2016. Disponível em: <https://trendr.com.br/esconder-minha-sexualidade-quando-crianca-me-tortura-ate-hoje-75293a43787a>. Acesso em: 04 set. 2017.