Cenário eleitoral brasileiro entre a nova polarização e a fragmentação: os extremos políticos, o voto útil e a teoria dos jogos

Definitivamente entender o cenário político brasileiro não é nada trivial, não é para principiantes, como diriam alguns. Irei tentar rascunhar aqui uma possível análise do jogo eleitoral, tal como ele se coloca hoje, com pequenos indicativos do que poderia acontecer em uma linha da teoria dos jogos.

Do quadro posto hoje para as eleições — 05.09.2018 — o resultado das forças resultantes dos eventos dos últimos cinco anos, das jornadas de julho de 2013, Lava-Jato, mobilização nas ruas, e o impeachment de Dilma, é uma brutal frustração e indignação que foram capturadas pelos polos extremos do espectro político, da forma como ele se reorganizou: o PT, mas basicamente o Lulismo, de um lado; e a Jair Bolsonaro, de outro. E este é um processo de retroalimentação.

O Lulismo — e não o PT particularmente — conseguiu construir e consolidar a narrativa do “golpe” e, nesse sentido, o impeachment, mais a prisão, fizeram muito bem ao Lula. Houve uma construção sólida da vitimização, fortemente baseada no discurso, e nas disputas judiciais internas e internacionais. Além disso, do ponto de vista do eleitorado “cativo” de Lula, houve uma junção da narrativa de vítima com as lembranças de bem-estar do período de seu governo. O discurso de vítima suaviza a corrupção e faz realçar as boas memórias de bem-estar.

Seguramente, Lula — e o PT, em especial — não lograriam, pelo menos visto até agora, o nível de intenção de votos que possuem, se o impeachment não tivesse ocorrido. Além disso, como a crise econômica foi até estancada, mas a propalada recuperação não veio, parte significativa dos efeitos ruins das gestões petistas está recaindo no colo do governo Temer, o que ajuda a reforçar as lembranças da bonança. Ah, quando era Lula é que era bom…

Daí a estratégia, embora muito arriscada, inclusive do ponto de vista comportamental, de esticar a corda eleitoral de Lula Presidente, como narrativa, visando a transferência de votos — como uma benção à Haddad — na reta final da campanha eleitoral.

Trabalho de Pedro Fernando Nery na FSP de 03.09.2018

Por outro lado, no novo extremo encontramos o Capitão Jair Bolsonaro. O nível de frustração e indignação, associado a um forte moralismo anticorrupção e contra o Estado (ou não), encontraram eco de ressonância no Deputado. O movimento de contestação da política é mundial, associado igualmente a extremos, com pendores populistas e autoritários, e não tem sido diferente aqui no Brasil, embora nosso processo também conte com peculiaridades próprias. Mas o fato é que, no jogo político, tal ascensão é incontestável. Impossível se colocar como parte da imprensa americana fez no início das primárias do Partido Republicano, e mesmo depois, não levando Donald Trump à sério. E parte da imprensa brasileira ainda toma Bolsonaro, senão como piada, como fadado a murchar. Não é o caso, definitivamente!

Constituiu-se, mais do que uma bolha, um amálgama muito sólido e consistente, no qual é difícil oferecer resistência. Operando também no limite do jogo democrático, o sólido grupo eleitoral de Bolsonaro pouco tolera debate, combate a grande imprensa como “fake news”, patrulha o politicamente correto e, embora, em alguns temas, particularmente econômicos, possa fazer o diagnóstico correto dos problemas (sensivelmente orientado por seu assessor econômico), boa parte das propostas carece de uma exposição clara, coerente (talvez porque ele discorde) e inteligível do candidato.

O curioso é que, pela aversão completa ao debate e da vitimização de perseguição, para o eleitorado já constituído pouco importa o que fala Bolsonaro. O ruído — particularmente nas redes sociais — é alto o suficiente para constranger o adversário, nada importando o mérito da discussão. E quando Bolsonaro quer falar para o seu próprio público, os temas de costume ganham destaque (a imprensa erra e levanta a bola) e ele se protege aí, realçando ainda mais um viés de confirmação. O campo aqui é muito propício para estudos comportamentais do movimento de manada no mercado político. O voto com raiva, pelo estômago!

E mais uma observação: se do ponto de vista das falas e da aparência há uma certa aproximação de Bolsonaro a Trump, no que diz respeito à estrutura partidária e à governabilidade, a diferença é enorme. Ainda que a imprensa americana tenha demorado a reconhecer Trump como candidato competitivo, de levá-lo a sério, a máquina partidária que o suporta — do Partido Republicano — não tem nenhuma comparação com a estrutura do PSL, o que evidencia o voo solo do movimento aqui.

E último ponto: como se disse acima, os extremos se retroalimentam — o amálgama/bolha de Bolsonaro se alimenta do antipetismo. E nada melhor para a narrativa Lulista do que o aparecimento do seu opositor extremado. O jogo eleitoral ganha uma nova polarização: eles querem se enfrentar no eventual segundo turno. E olha que, não é de se espantar, que algum eleitor transite de um extremo a outro. Os extremos também se encontram na cabeça do eleitor.

Agora, o meio do jogo, a fragmentação! E como furar a polarização?

Mas, antes, uma outra nítida constatação que é muito importante para entender o jogo eleitoral. A população, pelo menos o grosso dela, em um país pobre e muito desigual, além de indignada e frustrada, não quer, de maneira geral, reformas. Isto sem falar, quando ela está mais organizada, como é o caso das corporações e dos grupos de interesse. Reforma da Previdência, reforma do Estado, reforma tributária não mobilizam a população para um debate mais sério. Simples assim. O eleitorado é, então, fortemente sensibilizado pelos argumentos populistas dos extremos: por um lado, a solução é gastar. Do outro, apelo ao moralismo, costumes e corrupção (a economia aqui vem de lambuja). Tal constatação constitui uma formidável barreira à entrada para o meio do jogo.

Do ponto de vista eleitoral, daqueles com alguma chance de competição, irei descartar opções hoje mais inviáveis, por um sem número de motivos, como todo o quadrante “menos distribuição — menos liberal” da ilustração da FSP, mesmo Álvaro Dias, e incluo aqui também nesse descarte, Boulos, naturalmente, e Meirelles. Embora, é interessante dizer que, para teoria dos jogos, os eleitores de Álvaro Dias e Meirelles, por exemplo, ainda que pouco significativos, podem fazer a diferença na fragmentação.

Assim, destaco três candidatos viáveis para furar a polarização: Ciro e Marina, em um campo mais de centro-esquerda, embora Ciro nitidamente mais à esquerda. E Alckmin, na centro-direita. E uma candidatura em ascensão — pelo que se viu de números mais recentes — que é o Amoêdo, que poderia ser considerado ainda mais à direita. Todos, mesmo com diferenças significativas em suas propostas, têm diagnósticos próximos dos problemas do país (as reformas). Mas também diferenças substanciais quanto à governabilidade.

Para se tornarem competitivos, Ciro e Marina disputam fortemente o eleitorado/espólio de Lula. Ou seja, desejam, por um lado, que a transferência de votos de Lula a Haddad não seja tão efetiva e, por outro, de abocanhar parte significativa desse eleitorado. Do ponto de vista da teoria dos jogos, podem até ambos — a depender da transferência — se tornar competitivos. Do ponto de vista individual, cada um almeja receber parcela mais significativa do eleitorado. E aqui uma chance de, eventualmente, furar o bloqueio da polarização.

No caso de Alckmin, levando em consideração que o PSDB abandonou a hipótese de um eleitorado ponte entre sudeste-nordeste, apostando tudo na clivagem pelo sul/sudeste, a sua chance resulta, em grande parte, em reconquistar votos perdidos para Bolsonaro. Aqui toda a cartada no programa eleitoral e nas inserções na TV. O problema é, além de toda a não-aderência do discurso e a vinculação com o governo Temer, tal como se disse a respeito do desejo do eleitorado, o amálgama de Bolsonaro se revelar muito consistente. Talvez não seja impenetrável, mas… E, além disso, um eventual discurso renovador, como faz Amoêdo pelo Novo, também traz abalos e rouba votos da centro-direita, podendo deixar o cenário ainda mais fragmentado.

Na linha teoria dos jogos parece haver um movimento de combate a um extremo, que virá naturalmente — embora não se saiba em qual volume — do espólio de Lula para Ciro e Marina. E no outro extremo das tentativas de ascensão competitiva de Alckmin, em luta contra Bolsonaro e para não perder votos para Amoêdo (isto porque também perde na fragmentação para Meirelles e Álvaro Dias). Ou seja, nesse jogo parece pouco provável — embora não se descarte — que os dois extremos sejam desalojados, e menos ainda que haja uma disputa restrita a só um dos polos do espectro.

E vale salientar também que a configuração dessa disputa, e do que quer o eleitorado, vale igualmente para a conquista do grande contingente de eleitores indecisos, brancos, nulos e que dizem que não irão votar. Estes, eventualmente, podem ser seduzidos.

Por fim, outro cenário possível é a do voto útil. Pode acontecer, de um lado ou de outro do espectro ou, para alguns, que rejeitam ambos os extremos, uma tentativa de coordenação para o voto útil, tamanha a fragmentação e uma provável dificuldade de furar a polarização. Podemos ter então uma certa antecipação do voto útil ainda para o primeiro turno. E não descarto até um voto útil na própria polarização. Ah, até voto no centro fragmentado, mas o melhor para combater o PT, é votar no Bolsonaro de uma vez…

Mas o que nos diz aqui a teoria dos jogos? Bem, uma luta fraticida entre o centro fragmentado de candidaturas pode e deve favorecer a polarização. O cenário proposto aqui é que eles saem em vantagem. Então, a disputa entre as demais possíveis candidaturas competitivas resultaria em uma morte coletiva.

Pode igualmente haver algum tipo de coordenação, implícito ou explícito. Se alguma das candidaturas do centro fragmentado, de fato, começar a vingar, com crescimento na intenção de votos, isto pode dar início a um movimento de coordenação. Um eleitor, nesse espectro, combatente dos extremos, pode abrir mão da sua escolha por uma candidatura mais viável. Sua segunda escolha, por assim dizer. Essa coordenação pode até ser explícita se isto for sinalizado como apoio por uma das candidaturas mencionadas. Improvável, mas passível de consideração.

O que nos permite somente raciocinar aqui é o que seria capaz de provocar/acelerar uma coordenação. Algum evento aleatório, imprevisível hoje, tal como foi a morte de Eduardo Campos em 2014, talvez pudesse funcionar como aglutinador da fragmentação, formador de uma onda, por exemplo. Outra ideia é apostar em uma coordenação que teria origem no próprio eleitorado, apoiando-se, nesse sentido, em um eleitor mais sofisticado para a definição do seu voto. Aqui, por exemplo, uma padrão de referência poderia ser os cenários de segundo turno, e de viabilidade eleitoral futura, orientando o voto. Também improvável, mas igualmente passível de consideração.

Meus amigos, é isto. Chega de teoria e de treino. Este é o jogo. Vamos jogar?

Leandro Novais

Professor de Direito Econômico e Coordenador do Grupo de Estudos em Políticas Públicas — GEPP na FD/UFMG.

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Coordenado pelo Prof. Leandro Novais, da Faculdade de Direito da UFMG, o grupo tem por agenda o estudo da Nova Economia Institucional e Economia Comportamental.

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